Fotografia das HQs "Panteira Negra". Foto: Unsplash.

Guia didático discute a História da África a partir da história em quadrinhos “Pantera Negra”

O professor de história Renato Cavalcante da Silva produziu um guia para o ensino de História da África tendo como recurso didático a HQ Pantera Negra.

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O professor de história Renato Cavalcante da Silva elaborou um material didático para o ensino de história da África baseado na história em quadrinhos Pantera Negra. O material é fruto de seu trabalho final para o ProfHistória, intitulado “Reflexões sobre a HQ Pantera Negra e suas correlações entre o ensino e a aprendizagem a respeito da história da África”, defendido na Universidade Federal do Mato Grosso, em 2020. O guia didático pode ser acessado gratuitamente por meio deste link.

A HQ “Pantera Negra” é uma produção estadunidense que retrata o reino fictício de Wakanda, localizado no continente africano. Na trama, esse reino possui tecnologias avançadas, um governo teocrático, ou seja, baseado na vontade divina, e sua população expressa intensa valorização de sua história e de sua religiosidade.

Para produzir o guia, Silva utilizou dos elementos literários da HQ, que abarcam uma linguagem visual, dinâmica e de entretenimento, para trabalhar em sala de aula conhecimentos históricos que podem ser ampliados tomando como ponto de partida a ficção.

O guia didático

O guia didático se chama “Conhecendo a História da África com o HQ Pantera Negra” e está organizado em quatro capítulos. O material é voltado para turmas de Ensino Médio. Os capítulos contam com explicações do autor acerca do contexto de produção da HQ e suas relações com o mundo real. O professor realizou também propostas de atividades que contribuem para o aprofundamento das aprendizagens históricas dos estudantes com o tema abordado.

No capítulo 1, “Quando tudo começou”, Silva aborda a primeira versão da HQ Pantera Negra, realizada por Stan Lee e Jack Kirby, em 1966. O autor destaca que essa foi a primeira revista em quadrinhos protagonizada por personagens negros. Sua criação foi marcada pelo surgimento, alguns meses depois, do Partido dos Panteras Negras e pela luta pelos direitos civis da população negra norte-americana, protagonizada por Martin Luther King. Nesse contexto, o autor sugere discussões em sala de aula que destaquem a relação entre a HQ Pantera Negra e o partido político de mesmo nome.

O segundo capítulo “Conhecer Wakanda para ampliar a visão: a África para além do senso comum” é dedicado, como o título já sugere, ao rompimento de estereótipos produzidos sobre o continente. O autor destaca que alguns preconceitos foram reproduzidos na primeira versão da HQ, como a representação das sociedades africanas de forma rudimentar e “sem história”, ou seja, havia uma ideia de que essas sociedades estariam paradas no tempo. Neste sentido, Silva sugere uma provocação ao apresentar a diversidade do continente africano e as diferentes configurações econômicas e sociais que nele se desenrolam.

Já no terceiro capítulo, o professor se aprofunda na segunda versão da HQ, lançada em 2005 e produzida por Reginald Hudlin e Jhon Romita Junior. Nessa nova narrativa, Silva compara a trama da revista em quadrinhos com o Imperialismo europeu. O autor estabelece relações entre a tentativa de invasão de Wakanda por um homem branco sul-africano descendente de belgas e o período imperialista. O professor afirma que a postura do invasor frente à população de Wakanda remete ao fato de os europeus se considerarem superiores às populações africanas e se utilizarem desse argumento como uma das justificativas das invasões ao continente, entre os séculos XIX e XX.

Apesar de grande parte dos países africanos terem enfraquecido suas autonomias políticas frente aos ataques imperialistas, o reino de Wakanda conseguiu manter sua liberdade. Silva destaca que foram ferramentas estruturadas pelo próprio reino, como o uso de tecnologia avançada e estratégias de guerra, que levaram à vitória de Wakanda frente ao ataque do invasor.

O professor destaca que o reino de Wakanda é retratado na HQ como o país mais avançado do mundo, fato que permite a discussão em sala de aula sobre a percepção do continente africano para além dos estereótipos voltados para pobreza econômica e proliferação de doenças. Ao realizar um trabalho comparativo, o autor apresenta em seu material didático sociedades africanas marcadas pelo desenvolvimento tecnológico, arquitetônico e econômico.

Já no capítulo 4, Silva realiza uma metáfora entre o reino fictício de Wakanda e a Etiópia. Os etíopes são um dos únicos povos africanos que não foram dominados por forças imperialistas. O professor estabelece relações entre Wakanda e Etiópia em suas resistências e vitórias frente aos europeus. Silva também destaca elementos históricos da formação da Etiópia, suas estratégias tecnológicas e de governo que contribuíram para garantir sua liberdade.

Ao longo de todo o material didático, o professor apresenta aos estudantes imagens e narrativas que ressaltam abundâncias, riquezas e vitórias do continente africano. Diferente do que é abordado na maioria dos livros didáticos de História, o professor desloca as ideias que depreciam o continente, amplamente difundidas, e explora por meio da literatura ficcional e da própria narrativa histórica a ampliação de um repertório positivo sobre a África. Vale a pena conferir!       

Thaís Pio Marques

Faz parte da equipe do Café História, onde realiza estágio voluntário. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante a graduação fez parte do Grupo PET Conexões de Saberes – Licenciaturas, voltado para a elaboração e desenvolvimento de Projetos pedagógicos interdisciplinares. Atualmente, organiza o perfil de Instagram “Poesia e oralidade”, onde compartilha textos breves sobre competições de poesia (slams) e seus participantes. O trabalho na rede social é
articulado aos estudos sobre História Oral e História Pública.

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