Jovens privados de liberdade participam de oficinas sobre Direitos Humanos, memória e racismo

O professor de História Carlos Alberti desenvolveu diversas atividades em um Centro de Atendimento Socioeducativo na Grande Florianópolis.

O professor de História Carlos Alberti em ação. Foto: Carlos Alberti

A privação de liberdade para crianças e adolescentes brasileiros é uma realidade marcada pelas consequências do racismo estrutural e das desigualdades sociais. Esses jovens, frequentemente estigmatizados como “violentos”, na maioria das vezes não têm suas vozes ouvidas ou consideradas. Pensando nesse cenário e nas oportunidades que a aprendizagem histórica pode oferecer em contexto de privação de liberdade, o professor Carlos Alberti produziu a dissertação “Ensino de História e privação de liberdade: estudo de caso em Centro de Atendimento Socioeducativo na Grande Florianópolis-SC (2018-2020)”, pelo ProfHistória. O trabalho foi defendido na Universidade do Estado de Santa Catarina, em 2020.

Autobiografia e memória: as histórias de cada um

Alberti desenvolveu 6 aulas-oficinas, organizadas em 3 sequências didáticas. Ao todo, 7 jovens participaram da proposta desenvolvida pelo professor. As oficinas ocorreram no Centro Socioeducativo Regional de São José, no estado de Santa Catarina. Em todas as oficinas, o professor de História procurou o diálogo com os estudantes e o bom andamento das atividades dependia da participação de todos os envolvidos.

Os principais conceitos debatidos entre professor e estudantes foram: autobiografia, memória e racismo. Na primeira oficina, Alberti solicitou aos jovens que registrassem as primeiras palavras em que pensavam quando ouviam esses termos. Após esse momento, o professor apresentou trechos do filme sobre a trajetória de Rubin Hurricane Carter. Nessa obra de ficção baseada em fatos, o boxeador conhecido como “Furacão”, Hurricane em inglês, é condenado à prisão perpétua injustamente por ser acusado de assassinato. Sua condenação lhe retirou a chance de lutar por uma das mais almejadas premiações do box: o cinturão de ouro.

O primeiro encontro foi marcado pela sensibilização dos estudantes com o filme e um rico debate. Já na segunda oficina, Alberti retomou a atividade do primeiro encontro e conceituou autobiografia, memória e racismo, a partir das respostas dos alunos. Em seguida, o professor sugeriu que cada um escrevesse a própria biografia.

Os estudantes aceitaram o desafio e se dedicaram à escrita de suas autobiografias. Na maioria delas, a figura de suas mães apareceu como grande referência de amor, como mulheres trabalhadoras e “guerreiras”. Por outro lado, como destaca Alberti, a ausência paterna, violência familiar e afastamento da escola foram também aspectos destacados pelos jovens em suas histórias como desafios por eles enfrentados.

O professor de história também ressaltou o silêncio dos estudantes sobre o presente e suas relações com a privação de liberdade. Em nenhuma das autobiografias essa temática apareceu, por inúmeras razões, que incluem a dor da memória e a vergonha. Apesar dos desafios, Alberti destaca que essa atividade permitiu que os alunos se percebessem como construtores de suas próprias histórias, refletindo e compartilhando com os demais, partes suas trajetórias de vida.

Arte e Ensino de História     

A segunda sequência de atividades foi dedicada à apresentação da Declaração Universal dos Direitos Humanos e à história dessa conquista. Para essas discussões, o professor utilizou recursos audiovisuais e escritos, como o livro “A História dos Direitos Humanos” e a cartilha da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Após os debates sobre a temática, o professor pediu que os estudantes analisassem e apontassem alguns dos Direitos Humanos que foram violados na história do boxeador Hurricane Carter.

A sequência final de atividades foi marcada pela conceituação do racismo. Para melhor exemplificar a temática, o professor trabalhou com letras de RAP do artista Baco Exu do Blues e dos grupos Tarja Preta e Racionais MC’s. As letras trabalhadas versavam sobre os desafios que a população negra enfrenta na sociedade brasileira. Nos momentos de debate, os estudantes também expressaram aspectos de suas trajetórias de vida que refletem a experiência do racismo.

Para fechar as oficinas, Alberti pediu que os estudantes escrevessem letras de RAP com as temáticas discutidas em sala. As letras produzidas pelos jovens evocavam a nostalgia da infância, o desejo de “mudar de vida”, de transformar a própria história e de orgulhar suas mães. Um dos estudantes escreveu: “E seis meses se passaram/ E ele saiu com atitude de fazer feliz sua senhora”.

A experiência do trabalho desenvolvido por Alberti contribui para a reflexão sobre jovens em contexto de privação de liberdade. O professor de história vai além de qualquer estereótipo e se posiciona não como aquele que leva o conhecimento para jovens que sofreram situações de violência, mas como professor que ensina e aprende junto desses estudantes. Com isso, Alberti mobiliza o direito e a possibilidade do Ensino de História em diferentes espaços, e contextos, de aprendizagem.  

Thaís Pio Marques

Faz parte da equipe do Café História, onde realiza estágio voluntário. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante a graduação fez parte do Grupo PET Conexões de Saberes – Licenciaturas, voltado para a elaboração e desenvolvimento de Projetos pedagógicos interdisciplinares. Atualmente, organiza o perfil de Instagram “Poesia e oralidade”, onde compartilha textos breves sobre competições de poesia (slams) e seus participantes. O trabalho na rede social é
articulado aos estudos sobre História Oral e História Pública.

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