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Acadêmicos brasileiros assinam carta em solidariedade a historiadores do Holocausto condenados por corte polonesa

Barbara Engelking e Jan Grabowski estão sofrendo pressão por obra que examina a participação de cidadãos poloneses no Holocausto.

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Barbara Engelking e Jan Grabowski. Foto: Adrian Grycuk, CC BY-SA 3.0 PL, via Wikimedia Commons.

Centenas de pesquisadores e professores universitários de Ciências Humanas e Sociais do Brasil estão assinando uma carta de solidariedade na qual expressam sua profunda preocupação pelo processo financiado pela Liga Antidifamação Polonesa, organização não governamental nacionalista de extrema-direita com sede em Varsóvia, contra os historiadores do Holocausto, Barbara Engelking, membro da Academia de Ciências de Varsóvia, e Jan Grabowski, professor polonês-canadense de História na Universidade de Ottawa. 

Engelking e Grabowski foram condenados por uma sentença promulgada pela corte polonesa no último dia 9 de fevereiro. Eles são acusados de terem “manchado a memória” do ex-prefeito da cidade polonesa de Malinowo, Edward Malinowski, no livro Dalej gesto nos (em tradução livre para o português, “Noite sem fim”), onde aponta-se o  envolvimento da antiga autoridade no extermínio de judeus poloneses. 

A corte de justiça polonesa determinou que ambos os pesquisadores devem encaminhar um pedido de desculpas por escrito à Filomena Leszczynska, de 81 anos, sobrinha de Edward, que considerou que a memória do tio foi difamada. Segundo a corte, os pesquisadores devem pedir desculpas a ela por “terem fornecido informações incorretas” sobre as ações contra os judeus realizadas pelo seu tio, em 1943. De acordo com o site alemão DW, o processo foi iniciado por Filomena e financiado pela Liga Antidifamação Polonesa. 

O livro de Engelking e Grabowski diz que o ex-prefeito de Malinowo pode ter participado de um massacre local de judeus comandado por soldados alemães. Filomena, contudo, diz que essa versão é incorreta. Segundo explica, seu tio, na verdade, ajudou os judeus. Para ela, os dois pesquisadores cometeram “omissões” e “erros metodológicos”. Engelking e Grabowski negam a acusação e disseram que vão recorrer da decisão. Para os dois, essa é uma tentativa de dissuadir acadêmicos que pesquisam o Holocausto na Polônia. “Este é um caso do Estado polonês contra a liberdade de pesquisa”, disse Grabowski, cujo pai era um sobrevivente do Holocausto.

Historiadores pressionados 

Nos últimos anos, entidades de direita e extrema-direita, sobretudo na Polônia, mas também em outros países do leste europeu, têm recorrido ao expediente dos processos judiciais para constranger historiadores que pesquisam o envolvimento de nacionais com atos de perseguição e de assassinato de judeus ocorridos durante a ocupação nazista. Quando não negam direta e explicitamente o Holocausto, esses grupos rejeitam a tese que os cidadãos de seus países tenham participação no Holocausto, afirmando que tais crimes devem ser atribuídos exclusivamente às forças alemãs de ocupação. 

Na carta assinada pelas acadêmicos brasileiros, os signatários expressam preocupação com esse crescente movimento negacionista na Europa:

“Como tantos outros colegas de universidades de diversos países e instituições acadêmicas dedicadas à pesquisa do Holocausto,  e de instituições e organismos internacionais comprometidos com a liberdade de expressão, acreditamos veementemente que qualquer tentativa de restringir e/ou censurar o discurso acadêmico por meios escusos, como aprovar leis restritivas antidemocráticas que impedem o livre exercício do trabalho intelectual, é inaceitável. Ações desse tipo minam os esforços de acadêmicos sérios no afã de investigar o período do Holocausto e apresentar uma descrição confiável dos acontecimentos.”

Fenômeno global

O Café História conversou com o historiador Michel Gherman, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos propositores da carta. Ele explicou o que está acontecendo na Polônia e em outros países da Europa:

“O que acontece na Polônia não é algo somente local, mas é uma tentativa de governos de extrema-direita em controlar as pesquisas acadêmicas e historiográficas em seus respectivos países. Na Polônia, o tema do Holocausto ainda é visto como tabu, principalmente a participação de poloneses em acordo com os nazistas no sentido de matar judeus. Quando se escreve sobre isso, o historiador passa a ser visto como traidor da pátria. Por isso, eles estão proibindo ou tentando proibir pesquisas sobre a participação de poloneses como aliados dos nazistas. Mas não é só na Polônia. No Brasil, a extrema-direita vê como tabu a ditadura militar, a escravidão e outros temas muito profundos da nossa história. Nos posicionarmos agora contra a proibição de estudos acadêmicos em solidariedade aos historiadores poloneses é, na verdade, nos posicionarmos para que o mesmo não aconteça aqui no Brasil”. 

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

15 Comments

  1. A história é da humanidade e portanto não cabe a nenhuma ideologia ou religião proibir a sua pesquisa e publicação.

  2. Outro elemento grave e que deve ser levado em consideração pelos historiadores é que o negacionismo também tem chegado nas escolas por conta dessa onda fundamentalista que se apossou do país. O professor de história se tornou um alvo de ataques, seja na academia, seja em sala de aula do ensino básico.

  3. É pesado acusar que o Estado polonês não tem mais tripartição do poder. Que o judiciário não é independente do executivo, seja esse último de qual direcionamento ideológico for.
    O que parece de fato é que os pesquisadores apontaram fato que difama um nome, e como em qualquer processo legal tiveram a chance de apresentar suas provas que fundamentam suas alegações, mas nenhuma era fatídica. Pesquisador não tem o direito de dar uma opinião baseada em meras circunstâncias, tem que fundamentar sua pesquisa tanto quanto um advogado fundamenta seus argumentos na corte. Nesse caso não fizeram em nenhum momento, tanto que em lugar algum é comentado como chegaram a conclusão da participação do tal ex-prefeito. Algo que fariam se pudessem. Isso parece mais inquisição do que pesquisa, considerando os critérios usados. O inferno está cheio de pessoas que tiveram boas intenções. Isso não basta. Para ser pesquisador, tem que realizar com todos os métodos e critérios exigidos, e só publicar resultados quando balizados.

    • Você realmente leu os autores? Me parece mais uma necessidade de passar pano pro autoritarismo do governo polonês. Não é a primeira medida do Estado nesse senrido lá. Esses pesquisadores (E outros, cujos trabalhos vão na mesma linha, como Jan Gross) são acadêmicos reconhecidos internacionalmente, trabalham em grandes universidadades… Você quer mesmo ensina-los a fundamentar suas pesquisas? E Você realmente acha que a existência de um processo legal descarta necessariamente a existência de ilegalidades?

  4. Muito bom! Aqui no Brasil estamos sob a onda negacionista dos militares que ocuparam o Estado brasileiro e que negam a barbárie do que ocorreu na ditadura. Lembrando: o gen Etchegoyen se opôs a investigações da Comissão Nacional da Verdade, quando está apontou seu familiar envolvido com crimes de lesa humanidade! Semelhanças…a pergunta é: porque a direita não suporta a verdade!

  5. Os poloneses, húngaros, ucranianos, lituanos e muitos outros não só colaboraram com os nazis nas perseguições aos judeus como participaram da captura e assassinatos, roubaram seus bens e assassinaram muitos dos sobreviventes que tentaram voltar para suas casas, invadidas após a prisão das familias. Os testemunhos dos sobreviventes bastam, da mesma forma que tiveram o testemunho reconhecido sobre muitos heróis silenciosos que salvaram centenas de judeus.

  6. Comparar o holocausto nazista com o regime militar brasileiro é um absurdo atroz. Os nazistas agrediram um povo desarmado, pacífico, indefeso e que só queria viver. Os militares combateram guerrilheiros armados, perigosos e que queriam implantar no Brasil a ditadura do proletariado.

  7. Registros historicos sao essenciais nao só para conhecermos nosso passado como tb para evoluirmos. No entanto essa onda de revirar um momento ja tao sofrido e até na medida do possivel solucionado com a puniçao dos nazistas e a criaçao do Estado de Israel pela ONU só fazem é desagregar. Acusar em conteudo publicado, sem prova nenhuma, alguem que ja morreu e nao pode se defender é injusto, ainda mais levando em conta que a Polonia estava totalmente ocupada e dominada pelo exercito alemao. Era baixar a cabeça para eles ou ver sua familia exterminada e depois vc mesmo. O momento atual, mundial na verdade, é delicadíssimo e é nele que deveríamos estar focando pois enquanto se levanta defunto se tira a atençao do povo para planos macabros atuais e nos empurram para o precipício sem que a maioria de nós perceba.
    Absurdo comparar o holocausto com o período de regime militar no Brasil, distorcendo valores, descontruindo o carater de varias geraçoes. Inutil revolucionar o que pode ser construtivo e plantar ideias confusas em quem nao viu e nao viveu a historia. Uma arma do gramcismo para idiotizar os estudantes, que nao presenciaram o que foi realmente nosso tempo quando presididos por militares, reverenciam criminosos como Che Guevara e outros numa total incoerencia de ideias pois os numeros nao mentem: apesar do holocausto ter sido o massacre mais covarde e cruel o comunismo foi o regime que mais matou no mundo.
    A meu ver mais provavel que a intençao de paises europeus proibirem pesquisas por tabu é estarem querendo virar a pagina e ver o que se pode fazer agora, nos dias de hoje. O que realmente importa agora. Esse deve ser nosso olhar e para o bem comum.

  8. Negar a realidade é como revivê-la novamente! Uma tragédia hedionda como o Holocausto Judeus deve sim, ser dissecada, estudada e apresentada para todas as gerações vindouras! Holocausto nunca mais!

  9. Não li o trabalho deles é a sobrinha poderia em condições normais de uma democracia processa-los. A questão é quando o estado polonês passa uma lei punindo quem , ao ver deles, difamou um polonês. Com o estado no meio a coisa toda muda porque inibe estudos e não favorece a justiça. Como já disse, a liberdade de processar os pesquisadores por difamação e ataque a honra já era um direito da sobrinha e de quem quer que fosse, assim como vai ser dos pesquisadores processa-la também.

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