O perdão do Papa Leão XIV pelo papel da Igreja Católica na legitimação da escravidão

Um ano após sua eleição, o Pontífice cruza o debate sobre os usos da IA com um inédito pedido de desculpas pela atuação ativa da instituição durante o cativeiro moderno.
6 de julho de 2026
O perdão do Papa Leão XIV pelo papel da Igreja Católica na legitimação da escravidão 1
O gesto de Leão XIV carrega um peso simbólico e prático incontestável.

No último dia 15 de maio, o Papa Leão XIV lançou sua primeira encíclica. Esse é um tipo de documento que dá diretrizes para todos os católicos do mundo acerca de assuntos que impactam diretamente a vida cotidiana. Trata-se de uma ferramenta essencial para os Pontífices se posicionarem em debates contemporâneos e, assim, ditarem os rumos da Igreja e de seu próprio papado.

A Magnifica Humanitas é um longo e complexo documento com 245 parágrafos e 224 citações. Nele, Leão XIV recorre com frequência a textos e pronunciamentos de antecessores como, por exemplo, os Papas Francisco (2013-2025), Bento XVI (2005-2013), João Paulo II (1978-2005). Isso demonstra uma característica fundamental da Igreja Católica: a sua busca por uma continuidade dogmática e doutrinária.

Dentre suas novidades, a encíclica de Leão XIV aborda os impactos da Inteligência Artificial na sociedade. Analisando debates atuais sobre ética, trabalho e dignidade humana, o Papa destaca a ambivalência da tecnologia: se voltada ao bem comum, é emancipadora; se utilizada para disputas de poder e hegemonia de poucos sobre muitos, gera novas formas de escravidão.

Inclusive, a escolha da data de publicação da Magnifica Humanitas não é por acaso: em 15 de maio de 1891, o Papa Leão XIII lançou a histórica encíclica Rerum Novarum, que se voltava às intensas e drásticas transformações do trabalho a partir do avanço da industrialização na Europa. Como dissemos por aqui, a sintonia entre o pontificado de Leão XIV e seu antecessor leonino já ficava evidente na eleição, quando o então cardeal Robert Prevost escolheu esse nome.

“Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”

Assim como aconteceu com Leão XIII, o pontificado de Leão XIV traz um momento de inflexão profunda no mundo do trabalho. Algoritmos, dados e metadados sobre cada ser humano circulam continuamente, ditando gostos, hábitos de consumo e influenciando nossas decisões: da mais cotidiana sobre se um determinado produto faz bem ou não à saúde até às mais complexas, como os rumos de uma eleição presidencial. A velocidade do desenvolvimento da IA não apenas redefine quais trabalhos executamos, mas reconfigura a própria natureza do fazer humano, assim como até nossas relações mais pessoais.

É justamente a partir desse alerta sobre o risco de uma “nova escravidão” digital que o documento abre espaço para um acerto de contas com o passado. Entre os parágrafos 174 e 177 da Magnifica Humanitas, pela primeira vez um Papa reconhece de forma inédita que a Igreja Católica legitimou moralmente a escravidão.

O avanço é significativo: embora pontífices anteriores tenham criticado o cativeiro negro, nenhum havia admitido a cumplicidade da própria instituição na construção desse crime contra a humanidade. E aqui vale voltar ao passado para compreender esse papel legitimador do discurso católico.

Em 18 de junho de 1452, a bula Dum Diversas, do Papa Nicolau V, autorizou o rei português D. Afonso V a “invadir, procurar, capturar e subjugar outros incrédulos e inimigos de Cristo”. A religião funcionou como chancela moral e simbólica para interesses bem concretos: fortalecer a monarquia, garantir retornos financeiros e combater os muçulmanos no contexto da Reconquista.

Três anos depois, em 8 de janeiro de 1455, o pontífice reafirmou essa aliança com a bula Romanus Pontifex, recompensando Portugal pelas guerras contra o Islã. Esse respaldo institucional foi acompanhado por outros intelectuais católicos que formularam teorias para justificar a escravidão africana, com o objetivo puramente material de sustentar os reinos europeus na expansão e exploração colonial.

Mas foi a partir do século XVIII, em um momento de crítica ampla e estrutural à escravidão, que Papas começaram a condená-la. Em 1839, Gregório XVI (1831-1846) se manifestou abertamente contra o tráfico negreiro. Em 1873, Pio IX (1846-1878) resgatou a maldição de Cam do livro de Gênesis – uma das principais passagens bíblicas utilizadas para justificar a escravização racial negra – para posicionar a Igreja Católica em favor de populações africanas por meio de uma oração em que retirava a maldição proferida por Noé e ainda removia do coração dos africanos sua suposta condição inicial de cativos. Mas foi Leão XIII (1878-1903) quem, de fato, colocou-se mais abertamente contra a escravização de africanos e africanas.

Em 5 de maio de 1888, foi publicada a encíclica In Plurimis, endereçada aos bispos do Brasil em um contexto de crise final da escravidão que ainda persistia durante o Império. Nela, Leão XIII parabenizou os católicos brasileiros por se empenharem na libertação de seus escravos em comemoração ao seu jubileu sacerdotal — a comemoração de 50 anos de sua ordenação como padre — e ainda congratulou a monarquia por propor leis que garantiriam o fim do cativeiro sem abalo à ordem social. Mas, apesar de endereçar o documento ao clero do Brasil, o papa se concentrou, mais enfaticamente, em outro espaço: o continente africano. Isso porque a África se mostrava como novo espaço fundamental para a expansão das missões católicas, frente ao avanço do imperialismo europeu no continente. É sob essa ótica que o texto deixa transparecer as ambiguidades da própria Igreja e do texto de Leão XIII: ao reconhecer que a atuação institucional se limitou a diminuir os danos da escravidão, sem combatê-la de frente e tendo inclusive usufruído dela, evidencia-se o caráter ainda restrito de sua condenação ao cativeiro africano.

Essa postura reticente só seria profundamente revista no século XXI, momento em que um Papa admitiu finalmente a atuação legitimadora da Igreja Católica no comércio transatlântico de escravos, iniciado no século XVI. Segundo Leão XIV, “a Igreja renova a sua firme condenação de todas as expressões de escravatura e mercantilização de pessoas” (parágrafo 174) e tolerar esse tipo de comércio seria “tornar-se hoje cúmplice das culpas cometidas no passado, quando a escravatura era justificada ou silenciada.” (parágrafo 175).

É no parágrafo 176 que Leão XIV traz a maior força e o peso simbólico de seu gesto. O Papa admite que a doutrina da Igreja não é estática e se transforma a partir das transformações do mundo. Assim, “os acontecimentos não podem ser considerados de forma a-histórica”, não podendo “minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura”.

Leão XIV afirma ainda que foi durante a modernidade “instigada pelos pedidos dos soberanos”, que a Sé Apostólica romana “interveio várias vezes para regular e legitimar as modalidades de submeter e, nalguns casos, reduzir à escravatura os ‘infiéis’. Foi preciso aguardar o século XIX para se encontrar uma condenação formal, absoluta e universal da escravatura, em particular com Leão XIII.”

Para Leão XIV, o prazo de 18 séculos para a Igreja condenar de maneira explícita a escravidão, afirmando que ela seria incompatível com a moral católica, é uma “ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios.” Conclui com um pedido e uma admissão: “É impossível não sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”

O reconhecimento veio. Mas e agora?

O gesto de Leão XIV carrega um peso simbólico e prático incontestável. Por partir do líder máximo da Igreja, a diretriz desautoriza qualquer tentativa de silenciar a centralidade da Santa Sé na legitimação da escravidão africana – um sistema que sequestrou e explorou cerca de 10 milhões de pessoas nas Américas entre os séculos XVI e XIX.

Ademais, a encíclica reacende as disputas de memória ao desafiar os Estados europeus a admitirem que seu enriquecimento decorre diretamente do cativeiro. Trata-se do reconhecimento de um comércio transatlântico altamente lucrativo, estruturado à custa de milhões de vidas e motivado por critérios raciais.

A atualidade do tema é evidente: somente em 2023, o ex-presidente português Marcelo Rebelo admitiu que o país deve desculpas por seu pioneirismo no tráfico negreiro e precisa debater reparações. Essa responsabilidade, contudo, é compartilhada. Nações como Inglaterra, França, Holanda, Espanha, Estados Unidos e o próprio Brasil enriqueceram elites, bancos e estruturas estatais à custa do comércio transatlântico.

Assim, a admissão de Leão XIV é bem-vinda, mas não pode ser um fim em si mesma. Para além do pedido de perdão, caberia à Santa Sé articular, junto às potências globais, caminhos e políticas públicas concretas de reparação histórica. Só assim os males do passado deixarão de ser fantasmas que rimam com o presente, transformando-se em memória do que nunca mais deve ser feito e em ações reais que finalmente enterrem esses vestígios.

Referências

BBC Brasil. ‘Brasil não pode entrar apenas como vítima em debate sobre reparação de Portugal pela escravidão’, diz Luiz Felipe de Alencastro. São Paulo, 27 abr. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cw8qdg8vpdno. Acesso em: 2 jun. 2026.

G1. Presidente de Portugal fala em reparação ao Brasil por escravidão; entenda o que significa na prática. 25 abr. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/04/25/presidente-de-portugal-fala-em-reparacao-ao-brasil-por-escravidao-entenda-o-que-significa-na-pratica.ghtml. Acesso em: 2 jun. 2026.

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PAPA LEÃO XIII. Rerum Novarum: sobre a condição dos operários (15 mai. 1891). Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html. Acesso em: 2 jun. 2026.

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PAPA NICOLAU V. “Dum Diversas” (18 jun. 1452). In: BRÁSIO, António (org.). Monumenta Missionaria Africana. Segunda série, vol. 1, África Ocidental (1342-1499). Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1958, pp. 269-273.

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PINTO, Roberta Angélica Quirino. “Igreja Católica e escravidão: reescrita e usos do passado”. Clio: Revista de Pesquisa Histórica, Recife, v. 43, pp. 1-32, 2025. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaclio/article/view/268138/51162. Acesso em: 2 jun. 2026.

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Como citar este artigo

QUIRINO, Roberta. O perdão do Papa Leão XIV pelo papel da Igreja Católica na legitimação da escravidão (artigo). In: Café História. Publicado em 06 de julho de 2026. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/papa-desculpas-escravidao/. ISSN: 2674-5917.

Roberta Quirino

Roberta Quirino

Doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo, onde também se graduou e concluiu o mestrado. Sua pesquisa articula o catolicismo moderno à expansão imperial europeia na África entre o final do século XIX e o início do XX, examinando como o discurso religioso - especialmente o católico - operou como instrumento de legitimação do imperialismo e da hegemonia capitalista em escala global.

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