“Pillion”: filme segue seu próprio caminho sem pedir “com licença” e “desculpa”

Tive a sensação de que, no filme, às vezes, nem mesmo os personagens parecem saber exatamente o que estão fazendo.
9 de junho de 2026
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"Pillion não está interessado em explicar relações."

A minha relação com filmes que abordam BDSM foi de fascínio imediato. Primeiro, preciso deixar claro que não sou especialista no assunto e nem adepta da prática, mas tenho a curiosidade de escavar as profundezas da alma e dos desejos humanos e suas representações artísticas (ou não). E esse assunto sempre pareceu um terreno meio escorregadio e perigoso no cinema. Geralmente temos duas opções: ou a obra cai na caricatura, ou vira fantasia “higienizada” demais.

Na minha opinião, são pouquíssimos os filmes que conseguem encontrar uma solução interessante. Lembro de ter visto Secretary, filme de 2002 com a maravilhosa Maggie Gyllenhaal no papel principal, e pela primeira vez sentir que tinha algo interessante nos jogos de poder e força nas relações. E aí, anos depois, veio The Duke of Burgundy (2014), filme britânico que me pegou mais pela atmosfera envolvente criada do que pela história em si. Já com o infame Fifty Shades of Grey (2015) foi o oposto: um espetáculo patético de um mau gosto extremo e com representações equivocadas e superficiais, além das atuações cafonas beirando o grotesco.

Pillion, o primeiro longa-metragem do jovem diretor Harry Lighton, se encaixa, para mim, na categoria de Secretary sem tentar disputar espaço com nenhum outro do gênero. Baseado no livro Box Hill (2020) do escritor e crítico Adam Mars-Jones, o filme segue seu próprio caminho sem pedir “com licença” e “desculpa”. E para nós, os espectadores, não existe uma safe word uma vez que ingressamos nessa jornada.

Para quem não sabe o significado da palavra — eu não sabia — Pillion é o banco/espaço do carona de quem anda de moto ou a cavalo. À primeira vista aleatório, o título se encaixa perfeitamente na narrativa conforme o desenrolar da história. Lighton, que além de dirigir assina o roteiro, faz tudo parecer muito controlado, mas não no sentido estético vazio e obsessivo. É um controle que parece vir de dentro dos personagens, como quem não quer interferir muito ou apressar as cenas. Lighton deixa as imagens respirarem e se sedimentarem, o que pode parecer moroso para quem não embarcar direto nessa viagem. Para que isso seja possível, os atores precisam entender profundamente seus personagens, e aqui preciso dizer que acho que é mais por causa deles – os atores – que o filme funcionou tão bem.

Elenco em perfeita conexão

Alexander Skarsgård, que parece nos contemplar anualmente com uma brilhante atuação, incorpora o motoqueiro Ray, que tem uma presença que já se impõe sem precisar esforçar. É uma atuação física — por vezes até brutal para os mais sensíveis entre nós — mas também é repleta de silêncio e inação. Já o personagem Colin, interpretado pelo excelente Harry Melling, é o contrário disso tudo. Ele parece sempre meio fora de lugar, meio tentando entender o que está acontecendo — dentro dele mesmo, principalmente. A conexão – à primeira vista somente sexual – entre os dois não é explicada, ela vai se desenhando naturalmente. E às vezes nem isso. Às vezes, os possíveis diálogos apenas ficam no ar, para o completo desespero de ansiosos e pragmáticos. O filme todo tem essa sensação de coisa não resolvida que vai sendo empurrada, gerando uma tensão emocional crescente.

Visualmente, ele também não tenta ser chamativo. E talvez por isso funcione tão bem. Em vários momentos, me lembrou a cinebiografia O Amor é o Diabo, de 1998, do artista britânico (e famoso masoquista) Francis Bacon. Não pela estética direta, mas pela sensação de desagrado intermitente. Na tela, vemos corpos que parecem presos e tensos, como se estivessem sempre prestes a sair do lugar e se rebelar — mas nunca saem. Um mal-estar misturado com desejo permeia tudo.

A parte técnica de Pillion parece seguir, portanto, uma linha de contenção bem clara, além de ser composta por nomes já bastante conhecidos do mundo das séries de tv.

Um filme intrigante e belo

A fotografia de Nick Morris (Sweetpea /2024) aposta na luz natural – que tem passado pelo seu renascimento no cinema – e enquadramentos estáticos, o que acaba criando uma sensação constante de distância e desconforto, como se os personagens estivessem “presos” dentro da cena. Ao mesmo tempo, ela tem um cuidado com a composição que lembra bastante a arte das fotografias de Robert Mapplethorpe. Tudo é muito calculado, muito preciso. O corpo como forma ou como quase um objeto. Mesmo nas cenas mais íntimas, existe uma distância. Nada ali parece completamente espontâneo.

A direção de arte de Katherine Black (Here We Go/ 2023) é minimalista e funcional, com poucos elementos em cena, mas todos muito bem pensados, reforçando a ideia de controle que atravessa o filme. Nada sobra, nada parece decorativo, tudo é funcional e necessário para a satisfação das necessidades físicas ou emocionais dos personagens. E aí entra uma outra camada que é difícil ignorar no universo BDSM. A presença desse imaginário mais ligado à masculinidade crua, barbada e musculosa, ao couro e à autoridade, o que inevitavelmente me fez lembrar dos desenhos icônicos de Tom of Finland. Porém, com uma ressalva: o filme não abraça isso completamente. Pelo contrário. Parece mais interessado em desmontar esse visual caricato – inclusive com comédia – do que em celebrá-lo. Mostrar o que tem por trás. E o que tem por trás nem sempre é confortável ou sensual.

Já a parte sonora feita por Oliver Coates (Aftersun/2022) trabalha muito mais com silêncio do que com trilha, valorizando pausas, respiração e ruídos do ambiente, intensificando o clima íntimo e tenso. Por fim, a montagem de Gareth C. Scales (The Pursuit of Love/2021) é lenta e deliberada, deixando os planos durarem mais do que o habitual, sem cortar o desconforto. Tudo funciona em conjunto, sem tentar chamar atenção individualmente, criando uma experiência mais de observação do que de intervenção ou interferência na narrativa.

Polêmica e intensidade permeiam a obra

Tive a sensação de que, no filme, às vezes, nem mesmo os personagens parecem saber exatamente o que estão fazendo. O diretor aposta forte nessa ideia de repetição, de dinâmica construída, e até de certo desgaste emocional, onde a relação só existe porque está sendo constantemente ajustada, mesmo que de forma pouco convencional. E talvez até por isso – e pela sua temática – Pillion pode não ser um filme fácil de digerir para todo mundo. Além disso, o filme é lento e tem momentos em que parece que não está indo a lugar nenhum. E talvez não esteja mesmo. Quem precisa de uma narrativa mais clara ou de respostas mais diretas também pode se frustrar.

E aqui entram de novo as atuações incríveis de Alexander Skarsgård e Harry Melling, tornando Pillion aquele tipo de filme que fica conosco. Não porque resolve alguma coisa, mas justamente porque não resolve, deixa aberto. Ficamos com aquela sensação meio incômoda de que poder, intimidade, desejo, nada disso é tão organizado e faz sentido quanto a gente gostaria. E talvez nem devesse ser. Pillion não está interessado em explicar relações. Está mais interessado em observar o que acontece quando elas saem um pouco do eixo e do considerado “normal”. E só isso, para mim, já é mais do que a maioria dos filmes consegue fazer.

Infelizmente, após adiar duas datas de estreia no Brasil – e, vejam, falo de um filme de 2025, que estreou no UK e EUA em novembro daquele ano – a Diamond Filmes cancelou o lançamento nos cinemas, supostamente pelo filme ser “nichado” demais. Já fora dos circuitos dos festivais dessa temporada, a expectativa é que seja adicionado ao catálogo da plataforma HBO agora em junho, aproveitando (pegando carona?) no mês do orgulho LGBTQIAPN+. É a esperança que nos resta de assistir a essa bela e importante obra sem o subterfúgio de vias ilegais online.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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