“Os Irmãos Segreto”: documentário retraça os caminhos de pioneiros do cinema

Documentário sobre pioneiros do cinema no Brasil acompanha a jornada de três irmãos no Rio de Janeiro do século XIX.
13 de julho de 2026
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Os irmãos Pasquale, Gaetano e Afonso Segreto foram imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no final do século XIX e se tornaram os grandes pioneiros do entretenimento e do cinema brasileiro. Foto: reprodução.

Você sabe por que o Dia do Cinema Brasileiro é comemorado em 19 de junho?

Porque foi nessa data, em 1898, que supostamente foram feitas as primeiras imagens em movimento do Brasil, de dentro de um navio com uma câmera apontando para a Baía de Guanabara. Quem girava a manivela era Alfonso Segreto, com uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e nenhuma palavra em português no vocabulário. Um de três irmãos que dominaram a cena artística do Rio de Janeiro no começo do século XX — um dos irmãos, Pasquale, era chamado de Ministro do Entretenimento — Alfonso tem sua história contada, junto à dos “fratelli”, no documentário “Os Irmãos Segreto”.

Em San Martino di Cilento nascem Pasquale e Gaetano Segreto, no seio de uma família pobre. Uma década depois, nasce Alfonso. Os meninos crescem em meio ao caos da Unificação Italiana, entre lanternas mágicas trazidas por artistas mambembes e promessas de uma terra para cultivar no longínquo Brasil. Os dois irmãos mais velhos vêm para cá nos anos 1880.

Fica acertado que Gaetano e Pasquale vão trabalhar numa fazenda de café em São Paulo, mas os dois preferem fugir e viver nas ruas do Rio de Janeiro, onde são presos diversas vezes. Percebendo a sede por entretenimento da população da então capital do Brasil, os irmãos, que eram entregadores de jornal, entram para o ramo das diversões. Logo apresentam, na “nova máquina do tempo e do espaço”, cenas “mais reais que a realidade”. O sucesso os faz chamar Alfonso, que ficara na Itália. Agora, com vinte anos, ele faz uma parada em Paris para comprar uma câmera e rolos de filme e parte para o reencontro — e para entrar para a nossa História.

Na impossibilidade de entrevistar os irmãos ou pessoas que os conheceram, o documentário reconta a história com outros artifícios. Há fotos e imagens da época, sim, mas também imagens genéricas, como a vista do imigrante saindo do porto de Gênova num navio, tudo acompanhado de uma narração que, em português, ficou a cargo de Paulo Betti. Algumas sequências com filmes da época se alongam, como a da chegada ao Brasil, e com seu cansaço mostram como a travessia era extenuante.

O cinema é um meio visual, tanto que sobreviveu mais de 30 anos sem som, mas na sua própria gênese tem o fundamental: imagens em movimento. O documentário “Os Irmãos Segreto” é uma ode à imagem, incluindo as poucas preservadas rodadas por Alfonso Segreto.

Foi consultor do documentário Hernani Heffner, um nome essencial na preservação do audiovisual brasileiro. Por 24 anos foi conservador-chefe da Cinemateca do Museu de Arte Moderna — MAM no Rio de Janeiro, onde hoje atua como gerente, e sócio emérito e pesquisador da Associação Brasileira de Cinematografia. Ele é a autoridade máxima quando o assunto é preservação audiovisual no Brasil. E esse assunto é vital para conhecermos nossa História.


Nossa História do Cinema: um caso sério de esquecimento


A primeira exibição de filmes havia acontecido em 31 de julho de 1897 na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, mas a data de 19 de junho de 1898 foi escolhida para ser a inauguração do nosso cinema porque representava justamente isso: éramos nós, brasileiros, fazendo cinema, ou ao menos alguém fazendo um cinema sobre nós.

Quando se fala na História do Cinema, principalmente no que se vem convencionando chamar de Primeiro Cinema — aquele feito entre 1895 e 1915 —, podemos fazer muitas suposições e pouquíssimas afirmações. Isso porque a maior parte do que foi feito na época não chegou até nós. Foi perdido. As motivações para essa perda enorme são muitas. Filmes eram tidos como diversão passageira, de modo que não eram preservados. Os rolos eram destruídos após a exibição ou, se estivessem perto o suficiente, reaproveitados pelos cineastas. O nitrato, presente nos rolos, é altamente inflamável, e não foram apenas um ou dois incêndios que queimaram para sempre nossa memória cinematográfica.

No Brasil, a preservação audiovisual só começou a ser tratada com seriedade há alguns poucos anos, e episódios como o incêndio da Cinemateca em 2021, quando as atividades da instituição estavam praticamente paradas, mostram o ainda frágil estado do movimento de preservação. Vamos aos fatos: o filme mais antigo feito em solo brasileiro é de 1909, trata-se de um registro de um desfile. Todos os filmes da chamada Bela Época (1907–1911) se perderam, e o fragmento mais antigo de um filme de ficção data de 1913. O que sobra pode ainda estar em mau estado de conservação, com sinais de “decay” na película, causada pela ação do tempo e contato com certos materiais que desgastam a película. No próprio documentário podemos ver frames assim, de película cujo termo técnico para a condição é “síndrome do vinagre”.

Em meados da década de 1900, um incêndio também atinge o arquivo da Empresa Segreto. Centenas, talvez milhares de filmes, são consumidos pelas chamas. Chega a nós apenas um filme, já de 1910, mostrando um desfile de tropas que estavam sendo mandadas para o Sul para sufocar um levante.

Pode ser dito que é sintomático escolhermos a Vista da Baía de Guanabara de Alfonso Segreto como o filme inaugural da História do Cinema brasileiro. É um filme que provavelmente ninguém viu, afinal, reza a lenda de que a película pegou fogo pouco depois de Alfonso desembarcar. É sintomático porque estamos falando de um país cujo auge da produção cinematográfica não pode ser acessado pelas novas gerações, e que depois sofreu com problemas para fazer seu produto chegar ao seu público. Padecemos da má distribuição do filme nacional em um mercado cinematográfico, dominado desde 1911 pelo produto estrangeiro. Mas resistimos e assistimos hoje a um movimento de defesa do nosso cinema. Porque, como Carlos Drummond de Andrade escreveu numa crônica por ocasião de nossa primeira e por enquanto única Palma de Ouro em Cannes: “também fazemos cinema, não vamos apenas a ele”.

Letícia Magalhães

Letícia Magalhães

Historiadora e crítica de cinema. Contribuiu com sites como Filmes e Games e Leia Literatura. Mantém desde 2010 o blog Crítica Retrô, sobre filmes clássicos e antigos, e contribui para os sites Revista Eletrônica Ambrosia e Cine Suffragette, no qual é também editora. Foi vencedora do prêmio do Collegium do Festival de Cinema Mudo de Pordenone em 2021, escrevendo sobre o que mais gosta: cinema e história.

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