Blogs da Comunidade Científica: reconhecendo o valor e mensurando o alcance

Blogs da Comunidade Científica oferecem diversos benefícios para o meio acadêmico. Manu Saunders, pesquisadora na área de Ecologia da Universidade da Nova Inglaterra, explica quais são esses benefícios.

Por Manu Saunders  1

Os blogs amadureceram: de diários pessoais, em seus primórdios, eles passaram a ser, atualmente, ferramentas valiosas para o jornalismo alternativo e para a educação pública. E não é só: os blogs também evoluíram para um gênero acadêmico independente, marcando presença nas áreas de Ciências Humanas, Economia e Ciências Sociais.  Se por um lado a academia – como coletivo de pesquisadores – se apropriou dos blogs, por outro, os pesquisadores individualmente foram mais lentos em assumir o “blogar” como atividade. A maioria, no entanto, já reconhece o seu valor para a divulgação científica para grande público, mesmo aqueles que não possuem blogs. Vale dizer, contudo, que a divulgação científica é apenas um dos benefícios dos blogs para a comunidade acadêmica.

Em artigo recente, eu e alguns colegas (sete outros ecologistas que também são blogueiros ativos) traçamos uma distinção entre blogs de divulgação científica e blogs de comunidade científica. Os blogs de divulgação científica são aqueles escritos por diversos tipos de autores, como redatores, jornalistas ou acadêmicos, e têm como principal objetivo escrever histórias científicas para não especialistas. Em contraste, os blogs da comunidade científica são escritos por acadêmicos, voltados principalmente para uma audiência acadêmica e discutem, predominantemente, questões de pesquisa e de ensino. Evidentemente, muitos blogs acabam tendo alguma sobreposição entre as duas categorias.

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Blogs são cada vez mais reconhecidos como ferramenta acadêmica. Foto:
NordWood Themes (by Unplash).

Como um gênero autônomo, os blogs da comunidade científica têm um grande valor para a Academia, embora ainda não sejam formalmente reconhecidos na literatura acadêmica e recebam atenção limitada em discussões mais amplas sobre blogs. Os blogs dão aos pesquisadores a oportunidade de fortalecer suas habilidades de escrita e desenvolver novas colaborações (caso em questão: nosso artigo foi um resultado direto de interações através dos blogs uns dos outros). Eles oferecem oportunidades de networking e são uma fonte de aconselhamento e mentoria para estudantes, mulheres, indivíduos isolados e grupos pouco representados na ciência. Além disso, os blogs funcionam como um fórum de discussão sobre os processos e os desafios do “fazer ciência”, bem como uma oportunidade para ampliar a discussão em torno da diversidade no meio acadêmico.

Os blogs podem ser citados como fonte primária e usados para discutir com a comunidade científica um artigo recém-publicado. Mais importante ainda, os blogs possuem um formato alternativo que permite a publicação de conteúdos que não são considerados de “alto impacto”. Por exemplo: opiniões, estatísticas, resultados negativos, estudos iniciais ou observações de história natural – conteúdos em geral rejeitados por muitos periódicos.

Alcance e impacto

Pesquisadores são frequentemente solicitados a medir o alcance e o impacto de suas pesquisas a fim de obter financiamento, promoções ou oportunidades de emprego. Escrever para um blog pode ser um caminho para aumentar o alcance e o impacto das pesquisas. Há, contudo, um conjunto de fatores que influenciam o alcance e o impacto que é importante conhecer. Como ecologistas blogueiros, acabamos usando nossa própria experiência. Analisamos os dados de cada um de nossos blogs para destacar a seguir alguns desses fatores.

Nossos sete blogs se diferenciam uns dos outros de várias formas. Dois são blogs de autoria coletiva, enquanto cada um dos demais possui autor único. O blog mais antigo surgiu no final de 2009, enquanto os mais jovens surgiram no início de 2016. Como autores, variamos desde pós-doutorandos em início de carreira até professores titulares, e apresentamos perspectivas de cinco países diferentes, todos com diferentes estruturas acadêmicas e de Ensino Superior (EUA, Canadá, Reino Unido, Suécia e Austrália). Através dos dados dos nossos blogs, identificamos algumas das principais tendências que ajudam a entender as complexidades envolvidas na quantificação do alcance e impacto de blogs.

Analisando os dados

No geral, notamos uma relação bastante positiva entre a frequência de publicação mensal de um blog (número de publicações por mês) e a maioria das métricas de audiência padrão – número de visitantes, visitantes totais, visualizações por mês, etc. No entanto, quando olhamos essas relações mais de perto, ficou claro que atingir um público amplo vai muito além da equação “mais posts = maior alcance”. O alcance de uma postagem de blog depende de uma relação complexa entre frequência com que se publica, a identidade do autor e o impacto de cada publicação individualmente.

Como a única blogueira do hemisfério sul no grupo, eu fiquei interessada em ver que os blogs norte-americanos geralmente receberam mais visualizações do que os blogs do Reino Unido e da Austrália. Isso provavelmente reflete a presença histórica de uma cultura de blogs arraigada na América do Norte, bem como os desajustes de fuso horário que influenciam as interações das redes sociais globais.

O alcance de um blog depende em grande parte da frequência com a qual se publica e em que mídia a postagem é compartilhada pelos leitores.

Nós também analisamos os dados das dez postagens de maior destaque de cada blog para obter informações sobre como podemos medir o alcance e o impacto de cada postagem. Não nos surpreendeu a dificuldade encontrada para fazer isso. O número de engajamentos no site, tais como comentários e pingbacks de outros blogs, que são geralmente usados para medir esse tipo de coisa, contam apenas metade da história. O alcance de um blog depende em grande parte da frequência com a qual se publica e em que mídia a postagem é compartilhada pelos leitores. Nossos dados sugeriram que uma postagens sozinha pode ter um alcance muito maior do que o blog como um todo. Isso significa que o número de seguidores do blog, uma métrica simples usada frequentemente para quantificar o alcance de um cientista nas mídias sociais, nem sempre é indicativo de alcance e impacto reais.

Os dados que coletamos com nossos blogs nos permitiram quantificar o alcance das publicações, mas disseram muito pouco sobre o seu impacto. O impacto é particularmente difícil de medir e muitas vezes é baseado em sistemas de valores pessoais. Como blogueiros, nós medimos o impacto basicamente por meio das interações diretas com os leitores, que nos disseram como eles foram afetados por determinados posts – porém, muitos desses leitores não publicaram comentários nos posts. A postagem mais lida do meu blog, por exemplo, discute a importância da observação da natureza para os ecologistas – eu fiquei surpresa com o número de pessoas que me abordaram pessoalmente para dizer que se sentiam inspiradas pelo texto. Uma análise de conteúdo simples mostrou que, coletivamente, as postagens mais populares eram aquelas que abordavam tópicos relevantes para academia, tais como bolsa de estudo e ensino superior – um sinal de que a discussão de questões acadêmicas amplamente relevantes tem uma grande audiência e, potencialmente, maior impacto.

Apesar dos inúmeros benefícios que os blogs da comunidade científica fornecem aos indivíduos e à comunidade científica mais ampla, ainda existem poucos processos de reconhecimento formal na academia de forma a incentivar os cientistas a utilizarem os blogs como uma ferramenta acadêmica. Esperamos que este artigo amplie a discussão em torno do valor de desenvolvimento comunitário dos blogs.


Esta publicação do blog baseia-se no artigo coescrito pela autora, “Bringing ecology blogging into the scientific fold: measuring reach and impact of science community blogs”, publicado na Royal Society Open Science (DOI: 10.1098 / rsos.170957).


Manu Saunders é pesquisadora na área de Ecologia da Universidade da Nova Inglaterra, na Austrália. Sua pesquisa foca na biodiversidade e nos serviços de ecossistema em paisagens agrícolas. Ela possui um blog chamado Ecology is Not a Dirty Word.


Como citar este artigo

SAUNDERS, Manu. Blogs de comunidade científica: reconhecendo o valor e mensurando o alcance (Artigo). Tradução de Ana Paula Tavares Teixeira e Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/blogs-comunidade-cientifica/. Publicado em: 26 Fev. 2018. Acesso: [informar data].


[1] Este artigo foi publicado originalmente no LSE Impact Blog traduzido a partir da liberdade de edição conferida pelo Creative Commons do LSE Impact Blog.

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