Fundo prevo e mulher em primeiro plano com máscara para se proteger da pandemia do novo coronavírus
Artigo

A medicina não é suficiente: por que precisamos das ciências sociais para acabar com essa pandemia

“Para enfrentar a crise atual, os cientistas recomendam analisar o que foi feito em epidemias passadas. Um documento publicado pela plataforma Ciências Sociais em Ação Humanitária – promovido pelo UNICEF e pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento – sintetizou 15 lições aprendidas das epidemias passadas de gripe e da SARS (uma doença respiratória causada por outro coronavírus em 2003). Muitos dessas lições podem ser aplicadas no contexto atual, como, por exemplo, a transparência da informação. A retenção de informações do público, segundo este documento, pode ser muito prejudicial, pois se as pessoas não obtiverem esses dados de fontes oficiais, elas dependerão de meios não confiáveis. Na pandemia de Influenza A de 2009 (H1N1), a neutralidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) foi questionada porque o público pensava que o risco havia sido exagerado em benefício das empresas farmacêuticas, que se beneficiariam do acúmulo de vacinas. Para evitar que isso se repetia, os especialistas que prepararam o documento recomendam que as autoridades sejam transparentes sobre o que se sabe sobre a epidemia e também sobre as limitações dos dados. “Instituições, governos nacionais ou a OMS devem ser transparentes quanto ao seu compromisso com especialistas e a indústria farmacêutica para explicar como eles lidam com conflitos de interesse”, afirmam.”

Liberdade acadêmica tem sido tema de debates globais. Foto: Fred Kearney.
História Importada

O ataque global à academia

“Morte cívica” foi o conceito que os apresentadores Seçkin Sertdemir e Esra Özyürek propuseram a fim de explicar a condição dos acadêmicos demitidos por decreto de emergência na Turquia. Após a tentativa de golpe de 15 de julho de 2016, o regime do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), liderado por Tayyip Erdoğan, promulgou vários decretos com os quais funcionários públicos considerados de oposição ou pertencentes a uma seita religiosa, os chamados Gülenists, foram sumariamente demitidos. Sertdemir e Özyürek explicam que diferente de morte civil, a morte cívica implica retirar dos acadêmicos os seus direitos civis e políticos. Isso inclui proibi-los de terem emprego no setor público, colocá-los em uma lista que os impede de trabalhar no setor privado, confiscar seus passaportes e envergonhá-los publicamente, publicando seus nomes em jornais locais, vinculando-os a histórias e manchetes escandalosas. Foi doloroso ouvir que, para escapar dessa desumanização e evitar “se tornar descartável”, alguns acadêmicos se juntaram a outras pessoas que também tentavam escapar Turquia em barcos, tornando-se, assim, refugiados. Como sabemos muito bem, esta tem sido uma linha tênue entre a vida e a morte.”