O Triunfo da Morte
Artigo

A ideia de “fim do mundo”: paralelos entre os medos do mundo medieval e o medo do novo coronavírus

“Em 1967, o historiador medievalista francês Georges Duby lançou um pequeno, mas magistral livro, intitulado O ano mil. Nele, Duby mostra que, não só às vésperas do ano mil, mas em grande parte do medievo, o medo do fim do mundo e o discurso apocalíptico e milenarista faziam parte do cotidiano das pessoas, podendo ser intensificado por fatores ou momentos específicos. Duby, em outra obra sobre o mesmo tema, a Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos, lembra ainda que, ao final do ano mil, os homens e mulheres medievais estavam em uma “inquieta” e “permanente” espera pelo fim do mundo. O imaginário medieval era habitado pela ideia de fim do mundo e, na leitura de Duby, este medo era elemento chave para manter e reproduzir os laços hierárquicos da sociedade feudal, sobretudo a ideia de uma sociedade tripartida entre os que rezavam, os que guerreavam e os que trabalhavam. O discurso milenarista se baseava na noção de que o Apocalipse mostrava que, depois de mil anos, desde a morte de Cristo, o Anticristo viria para atormentar o “mundo dos homens”. Duby explica: “todo o mundo acreditava nisso e aguardava o dia da cólera que provocaria, evidentemente, o tumulto e a destruição de todas as coisas visíveis”. Em outras palavras, o medo do fim do mundo era um dos pilares deste mundo. A peste bubônica do século XIV parece ter sido outro signo muito forte do fim do mundo a atormentar homens e mulheres do medievo. “A peste negra”, como ainda é conhecida no senso comum, a despeito do enorme preconceito que este nome emana, foi a maior tragédia que o período medieval conheceu. Estudos calculam que a bactéria Yersinia pestis, presente em pulgas infectadas e causadora da “peste”, mataram cerca de 50 milhões de pessoas na Europa, o que, na época, corresponderia a algo entre 25 e 60% da população do continente.”