Descolonizar a Idade Média: Heloísa não foi uma mulher “à frente de seu tempo”

Conhecida pela erudição e inteligência, além da relação proibida com Abelardo, na Idade Média, Heloisa de Argenteuil (1090-1164) é considerada por muitos, hoje, uma “mulher à frente de seu tempo”. A expressão, contudo, é problemática. Existiria alguém à frente do seu próprio tempo?

Por Nilton Mullet Pereira

Dizer que algo se situa à frente de seu tempo é dizer que “algo está fora do lugar”. Esse enunciado bastante comum em nosso cotidiano expressa os sentidos de um tempo progressivo e linear, além de uma forma de situar pessoas e acontecimentos num lugar que lhes seria de direito. Tenho chamado essa operação de tirania do contexto, isto é, uma história que está presa à continuidade e que dispensa os desvios, os abusos e as descontinuidades.

Esse modo de pensar a história é uma operação de uma temporalidade colonizada, produto do olhar iluminista e eurocêntrico sobre os outros e, particularmente, sobre a Idade Média, que é a vista como a “infância das nações” ou como uma época afeita à fantasia, à religiosidade e as guerras. Quando falamos em uma Idade Média “colonizada”, queremos dizer que ela se tornou um outro negativo da razão moderna e da sociedade burguesa e iluminista. E é dessa engenhosa operação que o tempo se tornou evolução, progresso e linha, excluindo mulheres como Heloísa de Argenteuil (saiba mais sobre a sua história aqui) para fora da Idade Média, estando à frente do seu tempo.

Idade Média - Heloisa de Argenteuil
Abelardo e sua pupila Heloise, por Edmund Leighton, 1882.

A suposição de que há corpos e acontecimentos fora do lugar está fundada na ideia de que um período, uma época, uma mentalidade ou coisa parecida, é monolítica, como se somente existisse uma experiência do tempo em cada momento histórico determinado. Significa dizer ainda que algo é incapaz de ser explicado pelo seu contexto.

A Idade Média, portanto, seria reduzida ao tempo das guerras, das violências, dos homens, da religião e do domínio inconteste da Igreja Católica. Nesse espaço, nem Heloísa nem o amor profano seriam possíveis ou simplesmente estariam à frente do seu tempo. 

O que quero argumentar é que nada existe fora do seu tempo. Uma existência em si cria sua própria temporalidade. Logo, a experiência temporal é diversa, somente pensamos em eras, épocas, contextos, em razão do processo de produção de uma narrativa histórica que é tributária de uma política do tempo, recortando a realidade em função de lutas e disputas de poder.

Portanto, se formos pensar numa época como a Idade Média e procurar nos aproximarmos da diversidade de experiências que lá se deram, a fim de aprender com tudo o que foi lá criado, pensaríamos o tempo medieval como uma quantidade inumerável de experiências, irredutíveis a uma linha ou a um contexto. Logo, é possível supor que na Idade Média tivemos tanto a violência, a guerra e o patriarcado, quanto a universidade, a paz, o amor profano e Heloísa e muito mais que ainda nem sabemos.

Heloísa, portanto, não era uma mulher à frente de seu tempo, ela apenas parece ter sido um acontecimento, um corte em uma temporalidade dominante, de onde se supunha que as mulheres poderiam ser objetos do pai, depois do marido e, por fim, do padre, sem uma subjetividade e, sobretudo, incapazes de pensar, estudar, escrever, filosofar.

Mas, o fato é que Heloísa foi uma existência, acontecimental, certamente, mas uma existência nem à frente, nem num contexto, nem em débito com sua época. Heloísa simplesmente nos faz suspender a ideia de uma época, de uma mentalidade, de um contexto ou de uma Idade Média da qual se pode escolher 4 ou 5 características para descrever. Heloísa nos põe inquietos, pois ela pensou, amou, sofreu por amor e enfrentou os perigos de uma mulher que ama e é amada.

O que inquieta é justamente o fato dela nos fazer duvidar das explicações e das interpretações generalizantes e contínuas que damos a uma época como a Idade Média. A solução mais fácil é destacar Heloísa do medievo e colocá-la à frente do seu tempo.

Ora, isso só pode ser aceito como verdade no interior de um pensamento e de uma temporalidade colonizada, que observa o passado desde um presente mais evoluído e que, a partir de uma arrogância iluminista, enterra o medievo nas trevas, destacando dele toda e qualquer existência que esteja desviada da linha contínua e reta. Se falo, portanto, em temporalidade colonizada, é porque o presente tem a capacidade de colonizar o passado.

Heloísa pertence a Idade Média, da mesma forma que a Igreja Católica

De qualquer modo, aceitar que Heloísa é tão medieval quanto a própria Igreja Católica, é um modo de “descolonizar a Idade Média”, mas também a nossa própria experiência do tempo e o modo como narramos o passado. O medievo é bifurcado, labiríntico, atravessado por experiência múltiplas. Heloísa é apenas uma delas. Radicalmente acontecimental, porque não se deixou reduzir aos clichês, nem ao contexto, nem ao modelo masculino e misógino. Heloísa amou Abelardo. Foi amada por ele. E o amor dos dois ultrapassou os limites de uma identidade, de uma materialidade e da própria carne, para se instalar na eternidade do acontecimento, a dividir o presente em passado e futuro, escapando sempre as definições e as narrativas que a tentaram prender e a identificar como uma mulher à frente do seu tempo.

Entretanto, muito menos se pode pensar em uma Heloísa de Abelardo, modo como de costume são apresentadas as mulheres. A Heloísa medieval, a Heloísa acontecimento, teve uma existência independente do grande filósofo Abelardo, acusado e condenado por heresia pela Igreja e que desenvolveu e problematizou um dos temas mais relevantes da história da filosofia, a questão dos Universais. A Heloísa de que falo é essa descrita pelas mãos de Patrícia Rangel , num artigo interessante chamado “A abadessa infiel e o cavaleiro apóstata”, onde a autora se pôs a demonstrar as ideias e os feitos de uma mulher, como a nos deixar a ver uma experiência singular e acontecimental, medieval sim, mas descontínua e surpreendente de Heloísa.

Portanto, uma vez liberado o tempo das representações cristalizadas que dele fizemos e de uma certa “tirania do contexto”, temos uma abertura para todas as Heloísas. Olhar para a Idade Média sem o peso da ideia de evolução e progresso nos permite acessar esse passado de outro modo e pensá-lo em sua potência para problematizar o presente e se abrir ao futuro. Uma vez que o tempo não é linha, mas “emaranhado”; não é sucessão, mas “coexistência”; não é ordem, mas “variação infinita”, uma série de consequências se introduzem na discussão sobre o papel da Idade Média nos currículos escolares da escola básica, por exemplo, e, nesse momento, Heloísa é tão  medieval quanto Abelardo, mas tão histórica e protagonista de si mesma quanto as mais pesadas estruturas feudais.

O encontro de uma sala de aula com Heloísa dá vazão a “histórias menores”, pensando o tempo como um emaranhado que faz os acontecimentos serem multitemporais, dialogando simultaneamente com presente e futuro, sendo o futuro  a dimensão ética guardada no elemento do passado que percorre o presente como resíduo. Aprender com Heloísa é tanto aprender sobre o medievo, quanto aprender sobre mulheres hoje, pois Heloísa é um passado vivo e acontecimental. Mas, para percebê-la, é preciso silêncio, porque aprender guarda, em si, o elemento indecifrável do silêncio – o silêncio que nos faz escutar o grito dos poetas-cantores galego-portugueses, de “menor categoria social”, entoando cantigas de escárnio; o silêncio que faz aparecer Joana d’Arc, mulher e guerreira; o silêncio que nos mostra a insubordinação dos Puros (cátaros); o silêncio que nos faz ouvir os gritos dos camponeses; o silêncio que rompe com a onipresença da Igreja e faz aparecer as heresias; o silêncio que abriga o grito dos poetas trovadores nordestinos, num ruminar da Idade Média em pleno Sertão.

Enfim, é um silêncio que, deixando em seu rastro o mistério da aprendizagem, oferece encontros improváveis com o medievo, afirma suas “pulsantes” experiências, deixando que se escutem as histórias menores e dando visibilidade aos resíduos que embaralham nossas concepções temporais.

Referências Bibliográficas

DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998.

DUBY, Georges. O cavaleiro, a mulher e o padre. Tradução de G. Cascais Franco. Lisboa: Editora Dom Quixote, 1988.

FOUCAULT, Michel. Soberania e Disciplina. In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

QUIJANO, Aníbal. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2005.

PELBART, Peter Pál. A vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea. São Paulo: Iluminuras, 2000.

RANGEL, Patrícia. A abadessa infiel e o cavaleiro apóstata. Belo Horizonte. Revista de Estudos Hum(e)anos. Número 0, 2010/01. P. 74 a 95.

ZUMTHOR, Paul. Correspondência de Abelardo e Heloísa/ texto apresentado por Paul Zumthor e traduzido por Lucia Santana Martins. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Nilton Mullet Pereira é licenciado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992), Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1998) e Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2004). Pós-doutorado em História Medieval, na UFRGS. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da área de Ensino de História. Professor do Mestrado Profissional em ensino de História – UFRGS. Pesquisa as relações entre a imaginação e aprendizagem histórica.

Como citar este artigo

PEREIRA, Nilton Mullet. Descolonizar a Idade Média: Heloísa não foi uma mu-lher “à frente de seu tempo”. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/descolonizar-a-idade-media/‎. Publicado em: 7 jul. 2019.

6 Comentário

  1. A asserção de que existem pessoas e acontecimentos fora de seu tempo não se baseia na visão de que uma era da História seja monolítica, mas de que haja elementos mais frequentes e encontradiços, que conferem ao dito período uma coesão interna, e portanto pessoas cujo comportamento ou eventos que sejam distoantes do todo, da maioria estão à frente de seu tempo, não significa em absoluto que tais indivíduos ou fatos sejam extemporâneos, mas que só podem ser compreendidos em sua real dimensão como “à frente de seu tempo” isto é, como parte inextricavelmente de seu contexto, porém com características quer só se tornariam costumeiras em um azo posterior. O que, isto sim seria descolonizar a idade Média, se pode e deve dizer, é que houve muitas outras mulheres, homens e fatos à frente de seu tempo. Lembro, só a titulo de prova do que afirmo aqui, que quando da eleeição de Benazir Bhuto como chefe estatal paquistanesa, muitos asseveraram que “era a primeira muçulmana a assumir um cargopúblico no mundo”. Quem fala uma imprecisão destas deveria estudar um pouco mais sobre história e saber que não é à toa que o espanhol por muito tempo foi a única línbgua neo-latina com o feminino de prefeito, alcaldina. Durante o período do califado omíada de Córdoba, pelo menos 3 mulheres muçulmanas e 4 cristãs ocuparam o cargo de “prefeitas”. Outrossim, hove uma maharani (feminino de marajá) que ocupou o cargo de chefia de Caxemira após a morte do esposo. Ambos, muçulmanos.

  2. Concordo com o autor. Temos uma perversa reinterpretação do passado pelo filtro da cultura vigente, dominante.
    Estudo histórias da tecnologia e me surpreendo que no passado, algumas vezes em eras remotas, já fizemos uso de tecnologias que estamos “inventando” agora. O que dizer? Que nós estamos “atrás” do nosso tempo?

  3. Argumentos originais são tentadores. Mas não há originalidade sem traços do que já ocorreu. O texto do professor ancora-se na já batida crítica pós-estruturalista ao iluminismo. Com todo respeito, sugiro que nestes tempos de obscurantismo tenhamos cuidado ao repetirmos expressões como “razão moderna”, “sociedade iluminista” de maneira pejorativa e sem o mínimo de problematização. Qual grande movimento intelectual não teve sérios problemas? Estamos sofrendo apagões cognitivos graves. Precisamos, sim, de mais luz.

  4. Prezado colega, irei sugerir um texto que escrevi a pouco sobre a necessidade e o enfado da História – acho que, de certo modo, responde um pouco tua preocupação. https://hhmagazine.com.br/sobre-o-enfado-e-a-necessidade-de-historia/
    De qualquer modo, não posso deixar de afirmar que também fico preocupado com leituras como a tua, que deposita num certo pós-estruturalismo toda a crítica ao iluminismo e ao cientificismo. Me parece importante ficares atento a toda uma crítica importante e necessária que essa, sim, ciência moderna tem recebido, mas de outras bandas que não o pós-estruturalismo. Necessário pensar toda a discussão dos Decoloniais latinoamericanos, dos movimentos sociais e identitários não-europeus, dos Pós-coloniais etc…
    Cuidado, nossa resistência aos ataques fascistizantes daqueles que banalizam a opinião e combatem o pensamento, não pode ser simplesmente uma aceitação ingênua e acomodada do iluminismo e todas as suas consequências, como se depois de todo o apagamento que produziram, agora se tornassem novamente a tábua de salvação! Não se trata, entretanto, de abandonar a crítica ou a hipercrítica e a própria historicidade, legados pela História Moderna. Seguimos! Cuidado, essa mesma necessidade de luz já produziu muita violência, destruição, genocídios, epistemicídios.

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