“Cangaço Novo- Temporada 2”: o sertão em guerra, agora ainda mais violento

O calor, a poeira, as estradas vazias e as cidades pequenas criam um ambiente que parece vivo, mas também inóspito.
27 de maio de 2026
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"Uma das coisas que acho mais importante nessa segunda temporada é a série ter conseguido ampliar sua escala sem perder a identidade." Foto: divulgação.

Quando Cangaço Novo estreou em 2023, a sensação que tive era de que finalmente alguém fizera uma série brasileira de ação que entendia a nossa cultura sem tentar parecer uma cópia de produções norte-americanas. E essa foi uma agradável surpresa em meio ao bolo de produções que maquiavam – ou romantizavam – as mazelas nacionais.

A primeira temporada funcionou para nós quase como uma história de origem: acompanhamos Ubaldo (Allan Souza Lima) chegando na cidade fictícia de Cratará e descobrindo o passado da família. Paralelamente, Ubaldo era lentamente absorvido pela lógica brutal daquele sertão dominado por bancos, milícias, sede (de poder) e violência. A temporada nos dava uma sensação constante de descoberta enquanto o universo dos personagens nos era apresentado. Fatalmente, mergulhamos de cabeça com eles.

Já nessa segunda temporada percebemos que muda bastante essa dinâmica. Aqui já não existe mais espaço para apresentação de personagens. O mundo da série já está estabelecido, os atores entendem as próprias regras e a narrativa parece muito mais interessada nas consequências da violência brutal do que na ascensão (e queda) dos personagens dentro dela. Se a primeira temporada tinha um clima de western, ou mais precisamente um “Nordestern” moderno misturado com filme de assalto, a segunda se aproxima muito mais de uma tragédia política e familiar. Vemos praticamente uma luta armada por território, uma guerra quase civil.

Ainda fruto dos criadores da primeira temporada, Mariana Bardan e Eduardo Melo, a série continua utilizando o sertão nordestino não apenas como cenário, mas como uma verdadeira força narrativa. A aridez da paisagem, a seca, os espaços abertos, a sensação de abandono estatal total, a violência e a corrupção estrutural continuam presentes o tempo inteiro. Mas existe agora uma diferença importante no tom. A primeira temporada trabalhava mais a surpresa e o impacto das transformações do personagem Ubaldo. Já nessa nova fase, a narrativa aposta muito mais no desgaste emocional dos personagens e nas rachaduras internas daquele grupo aparentemente coeso.

Depois da morte de Ernesto, a família Vaqueiro passa a enfrentar conflitos ainda maiores envolvendo os Maleiros e as estruturas políticas corrompidas da cidade. O roteiro amplia o foco da narrativa e deixa os assaltos quase em segundo plano em vários momentos. Os cangaceiros continuam com sua missão Robin Wood, utilizando o fruto de assaltos para beneficiar a população local, mas o verdadeiro centro da temporada está na disputa por poder, nos jogos políticos e nas relações familiares corroídas pela ambição e a violência. Isso torna a história mais densa e menos dinâmica do que antes, mas também mais madura e próxima da realidade brasileira.

Personagens marcados e direção ambiciosa

Allan Souza Lima continua excelente no papel do jovem Ubaldo. Na primeira temporada, ele funcionava como alguém perdido entre dois mundos, dividido entre a vida urbana e seu moralismo, e a herança brutal e sem freios do sertão. Agora, após a morte do pai, o personagem parece completamente envolto pela realidade das dinâmicas de Cratará. Existe um peso físico maior na atuação, como se Ubaldo estivesse permanentemente cansado de carregar responsabilidades que nunca quis ter. Mas a carga de ressentimento e ódio transborda pelos poros e assume o controle de tudo.

Agora, Alice Carvalho, como Dinorah, que passeia sempre no limite, vai além. A personagem já roubava várias cenas na primeira temporada por misturar violência com toques absurdos de humor, mas agora ela assume um protagonismo ainda mais forte. Dinorah continua impulsiva, perigosa e carismática, só que agora existe uma camada emocional mais amarga por trás da violência dela, uma violência que se torna ainda mais física e que acaba perdendo o foco em algumas situações. Alice Carvalho nos traz isso muito bem, pois nunca transforma a personagem em alguém simplesmente cruel ou explosiva sem outras facetas. Existe sempre uma sensação de muita dor e trauma acompanhando cada uma de suas decisões. Dinorah desconfia até de sua sombra e o sentimento quase sempre domina suas atitudes.

Thainá Duarte, que nos apresenta uma atuação física impressionante, também ganha novos momentos excelentes como a Dilvânia. Vemos sua força principalmente em cenas mais silenciosas e emocionais. O interessante é que a série entende muito bem como trabalhar essas três figuras centrais de formas diferentes. Ubaldo é o peso da responsabilidade familiar tradicionalmente patriarcal. Dinorah é o impulso e a revolta, seu comportamento é quase o de uma revolucionária. Já Dilvânia funciona quase como alguém tentando sobreviver emocionalmente em meio ao caos e busca alento na espiritualidade.

O elenco de apoio continua forte, com nomes como a sensacional Marcélia Cartaxo, a quase onipresente em sucessos do cinema nacional Hermila Guedes e Bruno Bellarmino como o vilão Gastão Maleiro, ajudando a expandir ainda mais aquele universo. Entre as novidades, temos a entrada para o bando de Xamã como o Carioca e Lucas Veloso como o Fafafá.

Na direção, com a saída de Aly Muritiba, temos Fábio Mendonça assumindo ainda mais espaço nesta temporada. A série continua visualmente impressionante, mas agora existe uma ambição maior nas cenas de ação e na escala da produção.  Aqui fica o questionamento se essa decisão de incluir mais cenas de ação está relacionada à entrada da Amblin de Steven Spielberg na coprodução junto à O2. Algumas sequências parecem muito mais grandiosas do que na primeira temporada, envolvendo explosões, incêndios e confrontos armados bastante intensos. O elenco chegou a comentar em entrevistas que essa nova fase seria mais violenta e emocionalmente pesada, e é isso que vemos.

Outra grande estrela da produção é a música.  A trilha sonora original instrumental principal é de Beto Villares e Érico Theobaldo, mas temos a participação do BaianaSystem que criou especialmente para a série uma trilha de 14 minutos dividida em 4 atos, uma pequena opereta onde Alice Carvalho também brilha cantando. De artistas consagrados como Zé Ramalho (Como Uma Pedra a Rolar), Belchior, Tom Zé e até Nação Zumbi, além da participação de João Gomes cantando “Ave Maria Sertaneja”, música famosa na voz do grande Luiz Gonzaga.

Um Brasil raro de ver na televisão

Existe algo muito específico na identidade visual de Cangaço Novo que continua fazendo a série parecer diferente de quase tudo produzido no audiovisual brasileiro, vemos algo novo e ao mesmo tempo tão familiar. Enxergo  como os  três pilares principais da narrativa o cangaço – no formato da organização criminosa local- a corrupção das instituições – representada por políticos e empresários – e a forte espiritualidade do povo – aqui entra a personagem Dilvânia com muita força.

A fotografia trabalha o sertão de maneira muito ampla, quase mítica em alguns momentos, mas sem perder a sensação de realidade.  Beiramos o realismo fantástico sem sucumbir totalmente a ele. O calor, a poeira, as estradas vazias e as cidades pequenas criam um ambiente que parece vivo, mas também inóspito. Ao mesmo tempo, fica bem claro que a série nunca romantiza os conflitos e os espaços. Cratará continua sendo um lugar sufocante, marcado por abandono político, desigualdade e violência cotidiana. É o microcosmo que produz figuras como os irmãos Vaqueiro, ou a família Maleiro, quase como consequência inevitável das circunstâncias. Isso talvez seja uma das principais forças do roteiro. Os personagens não parecem existir separados daquele contexto social – eles são fruto e parte do meio.

Outra coisa muito positiva da produção é utilizar muitos atores locais para construir autenticidade. Isso ajuda bastante na sensação de naturalidade da série. Em vários momentos, parece que estamos assistindo pessoas que realmente pertencem ao espaço, e não apenas atores interpretando personagens dentro de um cenário turístico e pitoresco do sertão. E essa brasilidade é, para mim, muito bem-vinda, é o que sinto falta em muitas produções brasileiras atuais.

Uma das coisas que acho mais importante nessa segunda temporada é a série ter conseguido ampliar sua escala sem perder a identidade.  Muitas continuações acabam abandonando justamente aquilo que fazia a obra original funcionar bem.  Em Cangaço Novo não vi isso acontecer. A segunda temporada aumenta o nível da ação, aprofunda os conflitos políticos – inclusive colocando a crise hídrica e a questão da posse no centro da história – e deixa os personagens ainda mais emocionalmente quebrados, mas sem transformar tudo em um espetáculo genérico de fogos de artifício.

No fim, Cangaço Novo continua sendo, para mim, uma das produções brasileiras mais interessantes dos últimos anos, justamente porque entende muito bem o seu propósito e se mantém fiel às suas origens. A série consegue fazer a mistura de (Nord) western, drama familiar, crítica social e ação sem parecer artificial. Muitos podem considerar a segunda temporada menos “surpreendente” do que a primeira, pois já nos familiarizamos com os personagens, mas em compensação, ela entrega uma narrativa mais madura, mais amarga e emocionalmente mais pesada. Poucas séries brasileiras recentes conseguem criar um mundo tão específico e ao mesmo tempo tão reconhecível. Cangaço Novo consegue. E talvez seja exatamente isso que faz a produção parecer tão viva.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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