Recuperando a identidade “colombiana”: a derrubada do monumento Belalcázar

Charlotte Eaton explora o significado da recente derrubada da estátua de Sebastián de Belalcázar na cidade de Popayán, na Colômbia. A pesquisadora analisa ainda a decisão das autoridades colombianas de encomendar esta e outras estátuas a escultores espanhóis na década de 1930. Ela argumenta que a importância desse ato de destruição, tomado por um grupo de manifestantes indígenas, está na recuperação de uma identidade colombiana da qual foram sistematicamente excluídos.

Por Charlote Eaton (via LSE Blog)

A onda de apoio ao movimento Black Lives Matter após o assassinato de George Floyd, em meio deste ano, levou à derrubada de estátuas de vários proprietários de escravos e beneficiários da colonização em todo o mundo ocidental. No entanto, eventos semelhantes nas regiões mais diretamente afetadas pelo imperialismo e a escravidão, como a América Latina e a África, ou não ocorreram ou não receberam a mesma cobertura que suas contrapartes euro-americanas. Isto é, até 17 de setembro de 2020, quando manifestantes indígenas em Cauca, Colômbia (a região mais indígena do país) derrubaram uma estátua do colonizador espanhol e escravista Sebastián de Belalcázar, que estava localizada no “Morro de Tulcán”, local de uma pirâmide indígena

A derrubada do monumento marca um momento decisivo na história de uma nação que até 1991 não reconhecia a igualdade de direitos e a participação dos povos indígenas na sociedade. No entanto, os laços entre a estátua e o legado colonial na Colômbia são muito mais profundos do que a figura a quem o monumento celebra, e contam uma longa história. Traçando a origem desta escultura, podemos ver como sua queda representa a recuperação da história e do patrimônio colombiano, de diferentes formas.

Conquistador Sebastián de Belalcázar - Morro del Tulcán. Foto: Wikipedia.
Conquistador Sebastián de Belalcázar – Morro del Tulcán. Foto: Wikipedia.

Juan Sebastián de Belalcázar foi um conquistador espanhol que “fundou” as cidades agora colombianas de Cali, Pasto e Popayán, no sul do país. Na verdade, ele viajou inicialmente para a América Central no início dos anos 1500, mas, em 1534, ele partiu em sua própria missão para “conquistar” Quito, no Equador, antes de seguir para Cali em 1536 e Pasto e Popayán no ano seguinte. Em 1540, o rei Carlos I da Espanha o nomeou governador de Popayán.

Belalcázar foi uma figura controversa até mesmo para os padrões coloniais. Durante a expedição de Quito, o conquistador chegou a uma aldeia chamada Quinche e descobriu que todos os homens estavam lutando com o exército nacional. Ele, então, ordenou que todas as mulheres e crianças fossem massacradas como uma lição a fim de que eles voltassem para casa, um ato que mais tarde foi classificado pelo cronista Antonio Herrera e Tordesilhas como uma “crueldade indigna para um castelhano”. 

Monumentos de Belalcázar nos anso 1930

Na primavera e no verão de 1936, o governador do departamento colombiano de Cauca pediu autorização para encomendar uma estátua de bronze de Belalcázar montada a cavalo para a cidade de Popayán. O artista escolhido foi o escultor espanhol Victorio Macho, que eles haviam contratado anteriormente para criar uma estátua um pouco menos grandiosa do mesmo conquistador espanhol, mas para a cidade de Cali. O governo colombiano autorizou e o contrato foi assinado em 25 de junho. 

As especificações mínimas para a estátua eram de 5,4 metros de altura, 2,5 metros de comprimento e 1 metro de largura, e seu custo original foi estabelecido em 65.000 pesetas (aproximadamente US$ 8.500). No entanto, a Guerra Civil Espanhola, que estourou menos de um mês depois, causou a interrupção da construção do monumento e causou um atraso considerável em sua entrega.

É estranho que o governador de Cauca e o governo colombiano estivessem tão ansiosos para que um artista espanhol fizesse a estátua. Eles não sabiam que a Espanha estava prestes a se envolver em uma guerra civil, mas mesmo no momento da assinatura do contrato, o ministro colombiano em Madri expressava preocupação sobre por que seu país não contratava artistas colombianos para projetar e construir tais esculturas. “Seria”, afirmou ele, “um estímulo magnífico para a arte nacional”, e claramente teria evitado os pesadelos logísticos mencionados acima. Ainda assim, apesar de todos os problemas com o monumento de Belalcázar, em maio de 1937 o governo colombiano decidiu nomear Macho também como escultor oficial de um monumento em homenagem ao herói militar liberal General Rafael Uribe Uribe.

Essas negociações claramente levantam questões sobre o complexo legado colonial da Colômbia. Em primeiro lugar, o fato de o governo liberal e relativamente nacionalista de Alfonso López Pumarejo (1934-1938) ter aprovado um monumento a um conquistador espanhol indica que a exaltação da herança colonial do país não foi domínio exclusivo dos conservadores, como muitas vezes se sugere. Em segundo lugar, uma coisa é contratar um artista espanhol para criar uma estátua de um conquistador espanhol, mas é outra coisa completamente diferente é contratar o mesmo artista espanhol para projetar um monumento a um colombiano herói. Como disse o ministro colombiano em Madrid na época: “Que bom seria se dentro da nova República as estátuas de bronze que comemoram nossos homens fossem projetadas por compatriotas que podem amá-los e apreciá-los”.

A decisão de escolher um artista espanhol, no entanto, foi reflexo de uma tendência mais ampla do governo da época em trazer europeus para ajudar na elaboração de programas culturais. A chamada República Liberal -(criada em 1930) deu grande ênfase ao revigoramento da cultura e da educação colombianas. Infelizmente, a forma como isso foi imaginado foi como uma “elevação” da cultura que havia no país, imbuindo-a de tendências, ideias e, como neste caso, e pessoas europeias. Isso, mais uma vez, sugere que no final da década de 1930 a Colômbia ainda não havia se livrado de seu legado colonial.

Como os comentários do Ministro colombiano deixam claro, nem todos são defensores dessa abordagem. No entanto, curiosamente, entre as preocupações expressas sobre o uso de artistas espanhóis para criar monumentos colombianos, não havia referência ao fato de que a estátua de Belalcázar seria erguida em um local indígena. Na verdade, este ponto está completamente ausente na correspondência diplomática sobre o assunto, apesar das questões óbvias associadas ao uso de um sítio indígena para homenagear um colonialista espanhol com uma história de brutalidade para com as populações indígenas. Embora as pessoas possam ter lamentado o fato de o artista escolhido não ser colombiano, sua ideia de “colombiano” evidentemente não se estendia para incluir a população indígena cuja história, tradições e cultura estavam sendo tão grosseiramente pervertidas. Isso não é surpreendente, dado que o lado mais sombrio da política de “elevação cultural” foi a obliteração das tradições indígenas e afro-colombianas do país. Embora o governo defendesse a retórica da democracia, da participação popular e de um maior senso de identidade nacional colombiana, a realidade é que a sociedade que ele idealizou continuava sendo hierárquica e exclusiva.

Infelizmente, essa forma restritiva de democracia continuou até 1991, quando a constituição foi reescrita para incluir o reconhecimento e a proteção da diversidade étnica e cultural da Colômbia. Assim, a ação desse grupo de manifestantes indígenas assume um significado ainda maior. Em primeiro lugar, e mais notavelmente, eles reivindicaram um local que era deles e vingaram o insulto de ter uma figura colonial ali comemorada. No entanto, ao derrubar a estátua de um conquistador espanhol dos anos 1500, quando o que agora é conhecido como Colômbia foi alterado drasticamente, e que fora criada por um artista espanhol na década de 1930, período no qual as tentativas de criar uma cultura nacional “colombiana” dependiam fortemente de influências europeias, esse grupo indígena também cumpriu o desejo do ministro de tornar o local “colombiano”, embora não da maneira que ele imaginava. Ser “colombiano” envolve o reconhecimento desse legado colonial problemático e envolve aspectos de outras influências externas após a independência. Mas, o mais importante, envolve reconhecer os muitos grupos, setores e indivíduos, que por tanto tempo foram ignorados nas visões da elite sobre a identidade colombiana. Esses colombianos têm desempenhado um papel muito ativo na contestação e na mediação das influências mencionadas, a fim de contribuir para a construção de uma sociedade da qual tantas vezes foram oficialmente excluídos. O tombamento da estátua de Belalcázar em Popayán é mais um exemplo dessa ação.

Charlotte Eaton é doutorando em História Internacional na London School of Economics (LSE). Sua pesquisa explora as percepções colombianas da guerra civil espanhola nas décadas de 1930 e 1940. Ela é bacharel em espanhol pela University of Bristol e mestre em Teoria e História das Relações Internacionais pela LSE. 

Referências

José Roberto Paéz Flor, Cronistas Coloniales Tomo II: Apartes de la historia de Ecuador, Perú, Chile y Panamá, Chapter 5, Book 6 (New York, Ediciones LAVP) 1960

John Hemming, Conquest of the Incas, (Basingstoke and Oxford, PaperMac) 199

Como citar este artigo

EATON, Charlotte. Recuperando a identidade “colombiana”: a derrubada do monumento Belalcázar. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/derrubada-de-estatua-recuperando-identidade-colombiana/. Publicado em: 19 out. 2020. ISSN: 2674-5917.Este artigo foi originalmente publicado em inglês no LSE Blog History International, sob licença Creative Commons. Tradução Bruno Leal.

3 Comentário

  1. Por aqui deveríamos começar derrubando homenagens prestadas com nomes de cidades,ruas,estradas,pontes,prédios públicos e outros feitas aos ditadores militares do periodo pós 64.Já seria um bom começo!

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