Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba. Foto: Giuliano Gomes.

“Falar sobre Holocausto precisa estar conectado ao que vivemos hoje”

Para o coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, falar sobre o Holocausto “é falar sobre o Racismo, estrutural e cada vez mais intenso, sobre a violência contra a mulher, a LGBTIfobia, a intolerância religiosa, o próprio Antissemitismo, a outros genocídios, o acolhimento a refugiados, a inclusão de pessoas com deficiência”.

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A reflexão sobre a violência nazista está no cerne da sua narrativa museológica. Mas ele não trata apenas de guetos e campos de concentração. Prestes a completar 10 anos, o Museu do Holocausto de Curitiba extrapola os anos do nazismo e se tornou, hoje, no Brasil, um espaço privilegiado para se pensar também outras formas de violência do mundo contemporâneo, a democracia, os direitos humanos e a cidadania. Prova de seu compromisso com o tempo presente é o evento “Além do silêncio: existências LGBTQIA+, memórias e narrativas de vida”, que em junho de 2021 irá discutir sobre LGBTQIAfobia e resistência. É um museu que foca na vida, na resistência aos preconceitos, de ontem e de hoje, nas trajetórias de vidas que inspiram e celebram a diversidade.

Para saber mais sobre a concepção pedagógica do Museu do Holocausto de Curitiba, entrevistei o seu coordenador-geral, Carlos Reiss. Ele foi o principal responsável pela concepção pedagógica do espaço, participando ativamente da produção de materiais didáticos, ações educativas, curadorias de exposições e treinamento dos mediadores. Especialista em História e Ética Judaicas, ele é formado em Comunicação Social pela UFMG, estudou Relações Internacionais na Universidade Hebraica de Jerusalém e Geopolítica na Universidade Tuiuti do Paraná. Confira como foi esse papo.

Muita gente ainda estranha um Museu do Holocausto no Brasil, como se a história que esse tipo de museu conta não tivesse muito a ver conosco. Por que você acha que existe esse estranhamento, e qual a grande missão do museu no país?

Após décadas de uma visão particular tanto do estudo quanto da transmissão do genocídio, hoje vivemos um momento de universalização dessa memória. Significa fazer com que o sentimento de pertença alcance a todos e as lições que nós, humanidade, criamos nos sejam úteis. A grande missão do Museu é justamente essa, a de construir uma memória coletiva do Holocausto que seja universal, ou seja, que não esteja restrita a sobreviventes, seus familiares ou a comunidades específicas, como a judaica.

A essência dessa universalização é entender que as lições criadas a partir de um evento histórico tão relevante precisam ser compartilhadas – mesmo em locais onde não há qualquer relação histórica direta com o nazismo ou Holocausto. O que não é o caso do Brasil, que recebeu cerca de 25 mil sobreviventes do Holocausto e do regime nazista, participou da 2ª Guerra Mundial e possui um histórico de restrições migratórias, acolhimento de apátridas, antissemitismo e até eugenia.

Outra questão é a necessidade de criarmos paralelos e discutir sobre as mazelas que nos afligem hoje. O Holocausto ainda é visto como um recorte da História conectado exclusivamente à 2ª Guerra Mundial. Falta dar sentido a estas histórias, descartando o viés conteudista e massificado. Entender como a construção da memória do Holocausto pode se conectar, por exemplo, às memórias da escravidão e da ditadura militar. E, principalmente, como combater o ódio, a intolerância e os negacionismos. A ideia de que pessoas se sintam superiores a outras continua existindo, assim como os ingredientes que levaram à construção dos campos nazistas. A conscientização só vai existir se traçarmos paralelos constantes com a atualidade e desenvolvermos a empatia dos jovens. Para isso, precisamos de educadores que compreendam a transdisciplinaridade e como o tema perpassa por tantos aspectos das nossas vidas.

O museu tem uma preocupação educacional muito forte. Acredito, inclusive, que a maioria do público seja de professores e seus alunos. Você pode falar um pouco sobre essa preocupação? Qual a concepção pedagógica do museu?

O Museu trabalha com alguns pilares conceituais e teóricos que norteiam o dia a dia de todos os departamentos: as noções de transmissibilidade e de ineditismo do Holocausto, o universalismo, a personificação e o foco na vida, não na morte. Instituições museais mais antigas e tradicionais costumam ter os seus “educativos” relegados, abandonados numa sala no fundo do prédio. O que fazemos é dar o protagonismo absoluto à equipe pedagógica. É dela que chegam ou saem todos os projetos do Museu, é o que abriga o maior número de colaboradores.

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Um dos espaços do museu, fundado em 2011. Foto: reprodução do Facebook.

Temos também a vantagem e a liberdade de trabalhar com um modelo de educação muito mais aberto, sem as amarras da educação formal. A mediação educativa é um conceito muito mais amplo do que o de “guia” e descarta aquela ideia ultrapassada de que o visitante seria um mero receptor de informações. Nos comportamos pedagogicamente da mesma forma tanto dentro quanto fora da exposição: a mediação precisa ampliar essa visão e estimular o debate, a troca de conhecimento, a reflexão, a busca pelos paralelos e pelas analogias. Tudo isso demonstra não apenas a nossa preocupação, mas a centralidade que o educativo tem na instituição.

Qual a particularidade do Museu do Holocausto de Curitiba frente a outros museus do Holocausto, como o de Washington, nos EUA, e o do Yad Vashem, em Israel?

Além das que foram comentadas na pergunta anterior, na nossa concepção, transmitir o Holocausto por si só não é o fundamento principal. O Holocausto é a poderosa ferramenta educativa que usamos, por meio de histórias pessoais, para transmitir valores, o que Aristóteles vai chamar de virtudes: tolerância, democracia, liberdade, direitos humanos, equidade, diversidade, justiça, pluralidade, resistência, resiliência, o valor da vida.

Falar sobre Holocausto precisa estar conectado ao que vivemos hoje. É falar sobre o Racismo, estrutural e cada vez mais intenso, sobre a violência contra a mulher, a LGBTIfobia, a intolerância religiosa, o próprio Antissemitismo, a outros genocídios, o acolhimento a refugiados, a inclusão de pessoas com deficiência. Universalizar a memória da Shoá é decodificar a tragédia e retirar dela esses valores, que podem ser compartilhados. O diferencial é entender o mundo e o entorno que vivemos, dialogar com a sociedade, transformar vidas. Fugir da aura mítica dos museus e atuar como uma instituição com responsabilidade social, como todo museu deve ser. Esse, se me permite dizer, é o grande segredo desse Museu, o que o diferencia da maioria dos museus sobre esse tema no mundo.

O Holocausto nos ajuda a pensar diferentes genocídios, violências e processos de desumanização em geral. Esse talvez seja o elemento mais interessante e enriquecedor do ensino do Holocausto. Porém, alguns autores alertam para os limites e riscos de determinadas comparações, que poderiam, por exemplo, banalizar ou eclipsar determinadas situações específicas. Como tomar o Holocausto como índice sem incorrer nesses riscos?

Em primeiro lugar, é importante destacar a necessidade de “desbanalizar” a “banalização do Holocausto”. Para muitos, o ato de comparar passou a ser visto simplesmente como banalizar – como se o Holocausto estivesse em um pedestal mítico no rol dos eventos históricos e não pudesse ser tocado ou invocado, apenas cerimonializado. A noção de que ele seria incomparável é absurda – e muita tinta já foi gasta para explicar isto, de Bauman a Bauer, de Bankier a Milgram. A priori, fazer comparações entre fenômenos históricos (e humanos) não é, em si, um problema metodológico. É possível e necessário. Só assim, conseguimos dar sentido e utilidade contemporânea ao conhecimento.

Precisamos evitar a ideia de que comparar eventos ao Holocausto, apesar de tarefa complexa, seja proibido, o que contribuiria para uma sacralização. A História é uma ciência comparativa por excelência e o Holocausto, inserido nela, pode – e deve – ser usado em analogias. Comparar nem sempre é banalizar, pelo contrário: faz parte do processo de construção do conhecimento histórico e do entrelaçamento com outras ciências sociais. Este esforço sério e honesto resulta não em banalização, mas numa “desbanalização”.

Desbanalizar significa se comportar de acordo com as úteis lições que historiadores e educadores tiram deste período. De forma responsável, identificar elos e conexões entre o que passou e o que está passando, sem receio de sacrilégio e compreendendo para que nos serve a História. Quando falamos “nunca mais”, renovamos um pacto coletivo de identificarmos os sinais e lutarmos contra toda e qualquer forma de ódio, contra qualquer grupo. Nos comprometemos a manusear a memória do Holocausto e utilizá-la como agente transformador, sem vulgarizá-la. A desbanalização pressupõe dar sentido à essa memória no presente.

Cada caso é um caso, obviamente. Analogias vulgares são inoportunas, desrespeitosas e até criminosas. Entretanto, há analogias imprescindíveis, conscientes, criteriosas e historicamente alicerçadas, que nos ajudam a cumprir a promessa do “nunca mais” – e estas devem ser estimuladas. Precisamos diferenciá-las, compreendendo nosso protagonismo na construção de uma memória coletiva universal do Holocausto. Todos temos direito de invocá-lo.

Vivemos agora um recrudescimento da violência entre a Faixa de Gaza e Israel. De que forma você acha que momentos como esse influenciam a forma como as pessoas processam a memória e a história do Holocausto, especialmente no Brasil? É um desafio a mais para vocês no museu?

O Brasil vive um período crítico, em que as identidades relacionadas a judeus e ao Estado de Israel foram apropriadas de maneira simbólica por grupos que nada tem a ver com o povo, a cultura ou o país em questão. Junto a isso, a popularização de conceitos complexos como do nazismo, do fascismo, do genocídio e do Holocausto também tornam o trabalho do Museu cada vez mais importante – somado ao contexto mundial de ascensão de regimes extremistas, racistas e negacionistas.

Especificamente sobre o conflito no Oriente Médio, não vejo como sensato exigir que o Museu do Holocausto de Curitiba se posicione como instituição judaica.  Não representamos a comunidade judaica brasileira – seja em sua totalidade ou sequer parte dela. E mais: esta falsa obrigação não se limita ao Museu não refletir posições de qualquer grupo identitário. Tal exigência, inclusive a indivíduos judeus, árabes ou muçulmanos, reforça o falso estigma de dupla lealdade e de cosmopolitismo – combustíveis tanto do antissemitismo quanto da islamofobia. Somos uma instituição museal independente e essencialmente educativa, voltada à construção da memória do Holocausto no Brasil e à transmissão de lições às próximas gerações. Desenvolvemos uma curadoria interseccional e implicada no país onde vivemos. Seguindo a vocação de valorização da vida e de responsabilidade social, desejamos o fim da violência mútua – independente de narrativas de caráter nacional. Assim, cumprimos a missão de transmitir valores universais como a tolerância, a pluralidade, o respeito e a coexistência.

Como citar essa entrevista

REISS, Carlos. “Falar sobre Holocausto precisa estar conectado ao que vivemos hoje” (Entrevista). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/entrevista-com-carlos-reiss-do-museu-do-holocausto-de-curitiba/. Publicado em: 24 mai. 2021. ISSN: 2674-5917.

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

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