Província da Liberdade: os escravos libertos da Inglaterra enviados para a África

Projeto britânico que levou escravos recém-libertados para a “Província da Liberdade”, atual Serra Leoa, no final do século XVIII, pode ter relação com os desafios econômicos que o país africano enfrente no presente. Comércio de escravos na região e ambiente hostil criado pelos britânicos fez com que a utopia dos libertados estivesse desde o início fadada ao fracasso.

Por Abraham Farfan e Maria del Pilar López-Uribe

Serra Leoa, inicialmente conhecida como a “Província da Liberdade”, foi uma colônia fundada por abolicionistas britânicos que acreditavam que as vítimas africanas da Diáspora Africana poderiam ser repatriadas para o mesmo continente de onde foram raptadas. No entanto, uma contradição estava presente no cerne desta iniciativa: embora o projeto tenha sido recebido com grande entusiasmo pela população britânica e contado com apoio financeiro do governo inglês, as potências europeias – especialmente o Império Britânico – seguiam fortemente envolvidas com o tráfico de escravos na região.

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Uma ilustração de 1835 de africanos libertados chegando à Serra Leoa. Fonte: Do livro de 1835, “Um sistema de geografia escolar derivado principalmente de Malte-Brun” , de Samuel Griswold Goodrich.

O comércio de escravos era a atividade econômica mais importante na África Ocidental naquela época, e muitos grupos étnicos locais foram tanto vítimas quanto vitimizadores dentro da rede de comércio de escravos. Foi com essa dura realidade que os escravos recém-libertados que voltaram à sua terra de origem com a esperança de se estabelecer e viver em liberdade se depararam. A tão esperada e recentemente conquistada liberdade estava novamente ameaçada.

O Império Britânico e o comércio de escravos no século XVIII

À medida que crescia seu poder naval e conquistava territórios na América do Norte, Caribe e Ásia, o Império Britânico foi se tornando a principal potência europeia no comércio de escravos, posição anteriormente ocupada pelo Império Português. Para os britânicos, o trabalho escravo era a base das lucrativas plantações de cana e de fumo nas colônias caribenhas. Estima-se que o Império Britânico foi responsável pelo transporte de 3,5 milhões de escravos africanos para o “Novo Mundo”, número que corresponde a um terço do total de vítimas do tráfico humano transatlântico entre 1670 e 1833, ano em que a escravidão foi completamente abolida dentro dos confins do Império.

Ao mesmo tempo que os comerciantes e proprietários de plantations britânicos no Caribe se beneficiavam, respectivamente, do comércio de escravos e do trabalho forçado, os movimentos abolicionistas cresciam em termos de poder e influência no Reino Unido. Entre os membros destes movimentos estavam figuras proeminentes da sociedade londrina, quakers e do clero. Esses movimentos eram contra a escravidão e o envolvimento de potências europeias nela, chegando a fazer protestos públicos contra aquele tipo de comércio.

A lei britânica eventualmente respondeu às reivindicações dos abolicionistas, mas de forma lenta e ambígua: em 1772, por exemplo, um tribunal decidiu que a escravidão não poderia ser aceita pela lei britânica, proibindo-a na Inglaterra. No entanto, esta decisão não se aplicava aos territórios britânicos ultramarinos, onde vivia a maioria dos escravos pertencentes a cidadãos britânicos. Desta forma, embora a escravidão tenha sido abolida em solo inglês, ela continuou sendo a pedra angular das economias coloniais, permanecendo o Império, portanto, fortemente envolvido no comércio de escravos por muito mais décadas.

A fundação de Serra Leoa

Em 1772, um número significativo de escravos que tinham sido levados para a Inglaterra para trabalhos domésticos – sobretudo nas casas de ingleses ausentes, proprietários de plantations nas colônias – foram libertados. Eles foram chamados de “London’s Black Poor” (“Pobres negros de Londres”), denominação que incluía também os afro-americanos (“Black Loyalists”) que lutaram no lado britânico na Revolução Americana com a promessa de receber em troca a nacionalidade inglesa em troca, embora continuassem a viver em condições deploráveis ​​em Londres. Embora não existam números confiáveis ​​sobre a população negra na época, estima-se que cerca de 15.000 negros viviam na Inglaterra nesse período.

Em 1786, o “ Comitê para o Alívio dos Pobres Negros” (“Comittee for the Relief of the Black Poor”)  propôs um esquema de repatriamento dos “Pobres Negros de Londres” para algum território na África onde eles pudessem viver em liberdade e governar a si próprios. O projeto foi bem recebido, inclusive pelo governo britânico, que contribuiu para a causa abolicionista financiando-o e fornecendo outros materiais, como roupas, ferramentas e armas. Mas, embora houvesse apoio oficial, as razões para esse apoio eram provavelmente uma combinação de hipocrisia e intolerância. O verdadeiro objetivo pode muito bem ter sido livrar-se da população africana que habitava as ruas de Londres e que era então considerada uma ameaça à pureza da raça branca.

Em 10 de maio de 1787, navios britânicos desembarcaram nas costas de Serra Leoa, em uma área conhecida como Baía do Francês. Dentro deles estavam 380 escravos recém-libertados cujo desejo era fundar a “Província da Liberdade” e ser arquitetos de seu próprio destino. A tarefa não era fácil: apesar da liberdade recém-adquirida, muitos dos escravos libertos nasceram em plantations, tinham pouca ou nenhuma educação, e o inglês rudimentar que conheciam era de pouca utilidade na comunicação com seus antigos senhores. O continente africano no qual chegaram era tão novo para eles quanto para os poucos europeus que os acompanharam na viagem.

“O continente africano no qual chegaram era tão novo para eles quanto para os poucos europeus que os acompanharam na viagem.”

Abraham Farfan e Maria del Pilar López-Uribe

Após o desembarque, o chefe “Tom”, da etnia Tenme, negociou com os abolicionistas e vendeu a eles as terras do primeiro assentamento. Disputas sobre o território adquirido surgiram rapidamente e, como as comunidades locais vendiam prisioneiros de guerra em troca de bens, armas e dinheiro, vários dos colonos (termo aplicado aos libertados) que viviam nesse primeiro assentamento foram capturados e vendidos novamente como escravos. Muitos outros viajaram para a Ilha Bunce, um enclave britânico 20 quilômetros rio acima de Freetown, capital de Serra Leoa, um dos centros de comércio de escravos mais importantes da África Ocidental.

Aquela primeira colônia durou apenas dois anos e meio, sendo dizimada por doenças, fome e hostilidade dos vizinhos. Granville Town, nome do primeiro assentamento, foi queimado em 1789 pelo rei “Jimmy”, chefe local do grupo étnico Tenme e sucessor de “Tom”.

Anos depois

Nos anos que se seguiram a essa série de fracassos, os abolicionistas britânicos assumiram o controle direto do território e fizeram grandes esforços para salvar a colônia. Granvilletown foi fundada na área conhecida como “Cline Town” – perto da Baía de Fourah – pelos colonos sobreviventes. Além disso, quase 1.200 “Black Loyalists” que haviam sido realocados para a Nova Escócia, no Canadá, logo após a Revolução Americana, e que enfrentavam a  discriminação racial e invernos rigorosos, cruzaram o Atlântico com o apoio do Império Britânico e contribuíram para a fundação de Freetown. Um terceiro grupo de escravos libertos da Jamaica, conhecido como Cimarrones, juntou-se à segunda colônia; finalmente, cerca de 85.000 africanos destinados a serem escravos na América foram recapturados pela Marinha britânica na costa da África e libertados em Serra Leoa após a abolição oficial da escravidão pelo Império Britânico. No final do século XIX, a união étnica entre primeiros colonos, ondas de migrantes e escravos recapturados e libertados no território constituía o que hoje é a maior etnia de Serra Leoa: a população Krio.

Um elemento caracterizou as colônias que vieram depois de 1789: o povo de Serra Leoa estava agora sujeito ao Império Britânico. Se os primeiros colonos foram capturados na rede de tráfico de seres humanos existente entre potências europeias e etnias locais, eles chegaram a uma colônia onde não havia a liberdade política, social e econômica originalmente prevista.

Da “utopia” ao estado moderno de Serra Leoa

Atualmente, as instituições políticas e sociais de Serra Leoa continuam sendo frágeis, e o país segue enfrentando o complexo desafio de implementar as reformas estruturais necessárias. A proteção dos direitos de propriedade sobre a terra é fraca, o sistema judicial não atende a padrões adequados de independência e neutralidade e os indicadores de desenvolvimento relacionados à educação, saúde e padrão de vida da população são baixos.

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Uma escola em Koindu destruída durante a Guerra Civil ; no total, 1.270 escolas primárias foram destruídas na guerra. Foto: USAID.

Embora diversos estudos tenham demonstrado a relação entre o passado colonial e os altos níveis de pobreza da atual Serra Leoa, há uma lacuna na literatura especializada quanto a relação entre o fracasso dos anos iniciais dos assentamentos de libertados, quando se pretendia criar um colônia livre do jugo europeu, e o tempo presente. A verdade é que a perversa relação comercial que os europeus mantinham com a população local era um obstáculo que não podia ser superado, e a empreitada de fundação da “Província da Liberdade” dificilmente teria sobrevivido em um ambiente de tamanha hostilidade; muito menos prosperar e se tornar a utopia sonhada por muitos.

Abraham Farfán é estudante de Economia na Universidad de Los Andes com especialização em Filosofia. Assistente de Pesquisa em História Econômica no CEDE (Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico) e Desenvolvimento Econômico no IPA (Inovações para Ação contra a Pobreza).

María del Pilar López-Uribe é Professora Assistente de Economia na Universidad de los Andes em Bogotá, Colômbia, Pesquisadora do Centro Latino-Americano, Pesquisadora Sênior Visitante do Centro Africano Firoz Lalji e Corpo Docente Afiliado do Departamento de Desenvolvimento Internacional na London School of Economics.

Texto traduzido do blog Africa at LSE, da Londo School of Economics, a partir de uma licença Creative Commons.

Como citar este artigo

FARFÁN, Abraham; LÓPEZ-URIBE, María del Pilar. Província da Liberdade: os escravos libertos da Inglaterra enviados para a África. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/escravos-libertados-enviados-africa/. Publicado em: 21 set. 2020. ISSN: 2674-5917.Texto publicado originalmente em espanhol no blog Africa at LSE, da London School of Economics. Tradução: Bruno Leal.

2 Comentário

  1. Menos conhecido do que o movimento similar dos afro-estadunidenses livres, levados à Libéria para lá se estabelecerem, o movimento dos London’sBlack Poors e Black Loyalists à Serra Leoa é também uma das mostras de um processo que era ambíguo. Por um lado havia os interessados em proporcionar condições de vida melhores aos recém libertos. Por outro, o medo de uma população que ameaçava os postos de trabalho dos brancos pobres (no caso estadunidense) e vista como um possível perigo para a maioria branca. Desconhecia que muitos tivessem sido reescravizados pelo tráfico negreiro local. Ainda mais ignorado pelo grande público, a relocação de black loyalists em Nova Escócia (Canadá) onde a população recém chegada se deparou com os invernos mais rigorosos do Canadá Atlântico. Só acrescento que ambos os processos migratórios têm seus ecos na atualidade: a capital liberiana se chama Monróvia em homenagem ao presidente estadunidense Monroe, grande apoiador da “volta à África”. A comunidade liberiana descendente dos afro-estadunidenses emigrados forma a elite local, e quase todos os presidentes liberianos pertenciam ao grupo, o que ainda na atualidade provoca grandes ressentimentos à população liberiana pertencente a grupos étnicos tribais locais. Os krio formam a elite serra-leonesa e falam um crioulo de base anglófona que nos contatos cotidianos compete com o inglês padronizado, a língua oficial.

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