Da Áustria para o trono brasileiro: Dona Leopoldina de Habsburgo, uma imperatriz nos trópicos

“Dona Leopoldina” teve um papel político e social relevante no Brasil do início do século XIX. Visões estereotipadas de sua trajetória e atuação perdem espaço na medida em que o conhecimento historiográfico avança.

Por Renato Drummond Tapioca Neto

Nascida em Viena, na Áustria, em 22 de janeiro de 1797, Leopoldina de Habsburgo-Lorena (1797-1826) veio ao mundo dentro de um contexto político marcado pela Revolução Francesa e pela expansão do Império Napoleônico. Filha do imperador Francisco I, Leopoldina e seus irmãos tinham um papel importante no jogo de alianças matrimonias estabelecido por sua família, que ao longo dos séculos promoveu casamentos de vários de seus descendentes com membros das mais importantes casas reais da Europa. Foi graças a essa política de casamentos dinásticos que, no final de 1816, a arquiduquesa austríaca foi prometida ao herdeiro do trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, D. Pedro.

Embora se esperasse dela que fosse capaz de gerar sucessores para cimentar a aliança, Leopoldina acabou desempenhando um papel importante nos rumos da política brasileira, envolvendo-se no movimento pela causa da emancipação política da antiga colônia. Sua participação nessa questão foi confirmada não só pelos depoimentos de políticos que conviveram com ela, como Vasconcelos de Drummond e José Bonifácio, como também por uma série de cartas endereçadas à família e amigos. Recentemente, sua história tem sido revistada por uma série de biografias, exposições, peças de teatro e produções televisivas que ajudaram a tirar essa personagem da periferia para o centro dos acontecimentos.

Os Habsburgo

Os Habsburgo austríacos, uma das mais poderosas famílias nobres da Europa moderna, governaram durante séculos um vasto contingente de territórios localizados no leste europeu, unidos frouxamente sobre a coroa do Sacro Imperador Romano-Germânico. Em 1806, em decorrências das guerras levadas à cabo por Napoleão Bonaparte, essa unidade se rompeu, dando origem a Estados independentes. Para conservar um pouco do seu antigo poder, Francisco I criou o chamado Império Austro-Húngaro. Casado com a prima, Maria Teresa de Nápoles, Francisco I foi pai de 12 filhos, incluindo Maria Luísa, que se casou com o Imperador dos Franceses em 1810, Fernando I, seu sucessor, e Leopoldina.

Arquiduquesa Maria Leopoldina, por Friedrich Johann Gottlieb Lieder.
Arquiduquesa Maria Leopoldina, por Friedrich Johann Gottlieb Lieder.

Desde cedo, as crianças Habsburgo eram submetidas a um intenso programa de ensino, estipulado pelo predecessor de seu pai, Leopoldo II, que incluía o estudo das disciplinas básicas, como História, Alemão, Francês, Matemática Literatura e Desenho. Ao atingirem certa idade, elas podiam se aprofundar na sua área de maior interesse. Leopoldina, por exemplo, cursou Música, Física, Astronomia e as suas matérias preferidas, Botânica e Mineralogia. Além de sua língua materna e do francês, considerado o idioma diplomático do período, ela estudou também italiano, inglês e latim. Quando os termos de seu casamento com o príncipe D. Pedro foram acordados, ela se dedicou com afinco à aprendizagem do português.

Assim que Napoleão foi derrotado, D. João VI procurou uma aliança com Francisco I, objetivando inserir Portugal no contexto das decisões políticas tomadas no Congresso de Viena, em 1815, bem como se livrar da tutela inglesa, mantida desde que a família real havia escapado para o Brasil em 1808. Ao governo austríaco, por sua vez, interessava uma união com um país portuário localizado ao sul dos trópicos, cujo intercâmbio comercial favoreceria sobremaneira à economia do império.

D. João enviou até a Áustria o marquês de Marialva como embaixador para negociar os termos finais do contrato de casamento entre o príncipe D. Pedro e a arquiduquesa Leopoldina. O matrimônio foi celebrado por procuração em Viena, no dia 13 de maio de 1817. A nova princesa real teve o primeiro vislumbre de seu marido a partir de um retrato em miniatura que lhe fora entregue por Marialva, cravejado por diamantes. A joia pode ser vista em alguns retratos da soberana pintados por Jean-Baptiste Debret, francês que fez parte da Missão Artística comissionava pelo rei de Portugal. Junto com Leopoldina, partiram em agosto do porto de Livorno, na Itália, cientistas, naturalistas e literatos, que tinham por missão catalogar o máximo de informações possíveis sobre a fauna, a flora e as gentes que habitavam uma país até então pouco conhecido pelo continente europeu.

A vida no Rio de Janeiro

A viagem em direção ao Rio de Janeiro durou cerca de três meses, aportando apenas no dia 5 de novembro de 1817. A princesa real foi saudada com entusiasmo por sua família, bem como pela população da corte. Arcos do triunfo foram erguidos, com símbolos de amor, concórdia e prosperidade, para celebrar a chegada da esposa do príncipe. Dona Leopoldina, por sua vez, ficou maravilhada com toda aquela recepção, especialmente com a paisagem natural que o Rio de Janeiro lhe proporcionava a partir do mar: “a entrada do porto é estreita e acho que nem a pena nem pincel podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro; basta dizer-lhe que é a Suíça com o mais lindo e suave céu”, escreveu a jovem em carta ao pai, datada do dia 8 daquele mês.

Perfil da Imperatriz D. Leopoldina, por Jean Baptiste Debret.
Perfil da Imperatriz D. Leopoldina, por Jean Baptiste Debret.

A despeito da festa esfuziante para a recepção da nova princesa, Leopoldina descobriu aos poucos o quão incompatíveis eram os seus costumes em relação aos da família real portuguesa, bem como sua falta de adequação ao clima tropical: “o que me custa mais é estar todos os dias com certas pessoas, que seriam muito atuais no tempo de Henrique III, rei da França, o que é terrível”, disse ela sobre o padrão de moralidade encontrado no Paço do São Cristóvão, onde vivia na companhia do marido. Não obstante, Leopoldina também reclamava do “estilo de vida em que nunca se vai ao teatro, nunca a uma festa em que as pessoas não sejam as mesmas de todos os dias” e do “calor, o clima e a consequente preguiça”, que “não nos deixam nem ler nem escrever”.

No país para onde aquela princesa tinha sido enviada, o hábito da leitura não era tão arraigado como na Europa. Grande parte da população era analfabeta e bibliotecas eram coisa rara de se encontrar, sendo em sua maioria particulares e preenchidas com obras devocionais. Apenas em cidades como Salvador, Rio de Janeiro, Olinda, São Luís do Maranhão e em alguns municípios das Minas Gerais se podia encontrar um núcleo reduzido de leitores, com pouquíssimas livrarias. Em 27 de junho de 1810, estabeleceu-se na corte a Real Biblioteca, com livros vindos diretamente de Lisboa, embora com uso bastante limitado pelas pessoas. Ao marquês de Marialva, Leopoldina encomendava diversos livros sobre Botânica, Mineralogia, Literatura e Ciência Política. Sempre que possível, passeava a cavalo pelos parques da Quinta da Boa Vista, coletando espécimes de plantas, rochas e animais para a coleção real da Áustria. De lá, ela recebia em troca outros objetos, para compor o seu pequeno gabinete nas salas do Paço de São Cristóvão.

Em 1819, nasceu a primeira herdeira do casal, batizada de Maria da Glória, em referência à santa padroeira da família real. Mais tarde, aquela garotinha seria a rainha Maria II de Portugal. Os anos seguintes foram particularmente de tensão para a vida dos Bragança: em 1820, uma revolução de caráter liberal estourou na cidade do porto, forçando a partida de D. João VI, esposa e filhos, de volta para Lisboa em 1821. Ficou o príncipe D. Pedro na qualidade de regente do Brasil, auxiliado por sua esposa. Graças às recentes produções midiáticas, muito se disse sobre as infidelidades do príncipes com mulheres como a esposa do general Avilez e, mais notadamente, com Domitila de Castro, nobilitada pelo amante com o título de marquesa de Santos. Essa situação, que contribuiu para um quadro de melancolia desenvolvido pela princesa, acabou contribuindo para a imagem de esposa triste e traída suplantasse a figura pragmática e o papel decisivo que ela desempenhou, não apenas na decisão do príncipe em permanecer no Brasil, como também na causa da emancipação política do país. No dia 8 de janeiro de 1822, véspera do famoso “Dia do Fico”, Leopoldina escreveu uma carta ao secretário Schäffer, dizendo que: “O príncipe está decidido, mas não tanto quanto eu desejaria. […] Muito me tem custado alcançar isto tudo – só desejaria insuflar uma decisão mais firme”.

Arquiduquesa Maria Leopoldina, por Friedrich Johann Gottlieb Lieder.

“O príncipe está decidido, mas não tanto quanto eu desejaria.”

— Dona Leopoldina

Com efeito, em agosto daquele ano, D. Pedro precisou fazer uma viagem para São Paulo, para apaziguar os ânimos locais, alterados por causa da oposição entre a facção dos Andrada e a do presidente Oeynhausen. Deixou sua esposa na qualidade regente em seu lugar, com autorização para emitir despachos e presidir o Conselho de Estado, devendo em seguida remeter as suas decisões para a ratificação do príncipe. Naquele momento, os interesses de Leopoldina estavam aliados aos de José Bonifácio, que fora convencido em janeiro a assumir a pasta das Relações Exteriores, por intermédio da princesa. Tanto ela quanto o ministro se mostravam favoráveis à separação de Portugal, apesar da relutância de Pedro em tomar essa medida.

A independência

No dia 28 de agosto, aportou na Guanabara no navio Três Corações, trazendo “notícias desagradáveis” de Lisboa: as Cortes exigiam o retorno do príncipe e de sua família para Portugal, insultavam-no e apregoavam que juntas administrativas seriam instaladas em toda as províncias; que o reino do Brasil seria dissolvido e um novo governo nomeado por Lisboa. Diante desse cenário, Dona Leopoldina e José Bonifácio reuniram o Conselho de Estado, para deliberar sobre aquelas provocações. No sessão do dia 2 de setembro, o ministro fez uma árdua defesa da separação do Brasil de sua antiga metrópole e propôs que se enviasse uma carta para D. Pedro, exortando-o a tomar de vez essa decisão.

Dona Leopoldina, então Princesa Real Regente do Reino do Brasil, preside a reunião do Conselho de Ministros em 2 de setembro de 1822. Por Georgina Albuauqerque.
Dona Leopoldina, então Princesa Real Regente do Reino do Brasil, preside a reunião do Conselho de Ministros em 2 de setembro de 1822. Por Georgina Albuauqerque.

Tanto a princesa quanto Bonifácio escreveram para Pedro, dando-lhe a conhecer todas as injúrias feitas à sua pessoa pelas Cortes. Na sua missiva, o ministro dizia: “Senhor, ninguém mais do que sua esposa deseja a sua felicidade, e ela lhe diz em carta que com esta será entregue que Vossa Alteza deve ficar e fazer a felicidade do povo brasileiro, que o deseja como seu soberano, sem ligações e obediências às despóticas cortes portuguesas”. De sua parte, Leopoldina reiterava as palavras do amigo: “Ouvi o conselho de vosso ministro, se não quiserdes ouvir o de vossa amiga. Pedro, o momento é o mais importante de vossa vida. Já dissestes aqui o que ireis fazer em São Paulo. Fazei, pois. Tereis o apoio do Brasil inteiro…”. Depois da leitura dessas cartas, D. Pedro finalmente se decidiu pela emancipação política do país, muito embora essa só viesse a ser conquistada de forma plena a partir dos próximos anos, com muito trabalho diplomático. Vasconcelos de Drummond, recordando-se desse episódio, deixou para a posteridade a icônica frase: “Fui testemunha ocular e posso asseverar aos contemporâneos que a princesa Leopoldina cooperou vivamente dentro e fora para a independência do Brasil”. O ministro, por sua vez, ficou tão emocionado com o procedimento de Leopoldina e dirigiu ao conselheiro a expressão: “Meu amigo, Ela deveria ser Ele”.

Após a independência

Após a proclamação da Independência, seguida de guerras em algumas províncias para expulsar as tropas portuguesas do Brasil, como em Salvador, Leopoldina trabalhava com afinco pelo reconhecimento da soberania nacional, junto às cortes europeias. Ao pai, o imperador Francisco, datada de 6 de abril de 1823, a nova imperatriz se declarava “brasileira de coroação” e dizia que que era seu “dever fazer o papel de intercessora do nobre povo brasileiro, pois todos nós lhe devemos algo; nas circunstâncias mais críticas este povo fez os maiores sacrifícios, que demonstram amor à pátria, para proteger sua unidade e poder real”.

Em 1824, foi criada a primeira Constituição do Império, que adotava o sistema de tripartição de poderes, além da criação de um quarto, o chamado poder moderador, que era exercido apenas por D. Pedro I. Vivendo cada vez mais isolada dentro do Paço, com saudades da Europa e da família, Leopoldina encontrou consolo no trabalho de filantrópico, contraindo dívidas vultosas para ajudar as famílias carentes do Rio de Janeiro. Esse fato só foi descoberto em 1827, um ano depois da morte da soberana, quando suas dívidas chegaram ao conhecimento público e foram pagas por uma sanção especial da Câmara.

A Imperatriz D. Leopoldina e seus filhos, por Domenico Failutti.
A Imperatriz D. Leopoldina e seus filhos, por Domenico Failutti.

Ao longo de seus nove anos como princesa e imperatriz consorte do Brasil, Leopoldina engravidou 8 vezes e deu à luz 6 filhos, incluindo D. Pedro II, nascido em 2 de dezembro de 1825. Infelizmente, o esgotamento físico em decorrência das gravidezes sucessivas e o estado melancólico estimulado pela relação extraconjugal de seu esposo com a marquesa de Santos, acabou cobrando um preço grave à saúde da soberana.

No início de dezembro de 1826, ela abortou um feto do sexo masculino, enquanto D. Pedro I estava no Rio Grande Sul, liderando a campanha Cisplatina. O quadro clínico na imperatriz logo evoluiu para uma infecção, que foi mal tratada pela medicina da época. Milhares de pessoas fizeram vigília nas igrejas e nos portões do Paço, rogando pela vida da imperatriz. Apenar dos esforços médicos, no dia 11 o Diário Fluminense apareceu com a sua primeira página tarjada de preto. No editorial, a notícia mais temida: “Pela maior das desgraças se faz público que a enfermidade de S.M. a imperatriz resistiu a todas as diligências médicas, empregadas com todo o cuidado por todos os médicos da Imperial Câmara”. Faleceu um mês antes de completar 30 anos. Hoje, seu corpo jaz na cripta imperial, localizada em São Paulo, na mesma região onde D. Pedro I recebeu sua carta em 7 de setembro de 1822, instando-o a fazer a independência do Brasil.

Referências Bibliográficas

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. – São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

MAGALHÃES, Aline Montenegro; MARINS, Álvaro; BEZERRA, Rafael Zamorano. (Orgs.). D. Leopoldina e seu tempo: sociedade, política, ciência e arte no século XIX. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2016.

NORTON, Luís. A corte de Portugal no Brasil: notas, alguns documentos diplomáticos e cartas da imperatriz Leopoldina. 3ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

PRANTNER, Johanna. Imperatriz Leopoldina do Brasil. Tradução de Hanns Pellischek e Elena Dionê Borgli. – Petrópolis: Vozes, 1997.

Renato Drummond Tapioca Neto é Historiador, licenciado pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Desde 2012, escreve e gerencia o site “Rainhas Trágicas”, publicado como livro em Portugal pela Vogais Editora, em 2016.

Como citar este artigo

NETO, Renato Drummond Tapioca Da Áustria para o trono brasileiro: Dona Leopoldina de Habsburgo, uma imperatriz nos trópicos (Artigo). In: Café História. Publicado em 14 set. de 2020. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/dona-leopoldina-imperatriz-nos-tropicos/. ISSN: 2674-59.

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