Reflexões sobre a questão da “Raça”

Historiadora Monica Grin, professora do Instituto de HIstória da UFRJ, acaba de lançar o livro “Raça” – Debate Público no Brasil, tema desta entrevista do Café História.

Bruno Leal entrevista Monica Grin

Professora de História Contemporânea do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), ela acaba de lançar o livro “Raça” – Debate Público no Brasil, publicado pela Editora Mauad X/FAPERJ. Nesta entrevista exclusiva, Monica Grin fala sobre a origem do livro, dá sua opinião sobre as ações afirmativas em vigor no Brasil e discute questões caras aos sociólogos e historiadores, como o multiculturalismo.

Professora, seja bem-vinda ao Café História. Entrando já em nossa primeira pergunta, a senhora acaba de lançar o livro “Raças” – Debate Público no Brasil. Por que este tema e por que agora?

Esse tema é resultado de uma década de reflexão, quando finalizei minha pesquisa de doutorado e constatava já em 2000 a emergência de uma nova modalidade de tratamento de emergência do tema racial no Brasil: a “raça” se insinuando não mais como categoria biológica, como no passado, mas como sujeito de direitos na república brasileira. Esse tema é recuperado agora, porque entre o fim da minha tese (em 2000) e hoje, pode-se depreender uma perspectiva histórica que reforça a minha hipótese, de dez anos atrás, de que estaríamos diante de um processo de racialização em curso no Brasil. O presente livro é uma evidência de como esse processo pode ser observado hoje em vários contextos: desde juízos formulados pela opinião pública, passando por políticas públicas (adoção de cotas raciais), até debates intelectuais.

Monica Grin - Questão da Raça
Monica Grin é professora do Instituto de História da UFRJ. Foto: acervo pessoal da entrevistada.

Em sua opinião, professora, como a historiografia brasileira abordou até agora a questão da raça, no Brasil? Trata-se de uma questão já bastante analisada ou que ainda necessita de novos olhares?

“Raça”, da perspectiva da historiografia, é sempre tratada como uma categoria classificatória já presente no Brasil desde a escravidão. Depois ela foi objeto de criticas à república brasileira que, através do racismo e das raciologias, teria privilegiado o imigrante em detrimento do negro, transformando o negro em um sub-cidadão, ou “quase-cidadão”. Há também os registros nos quais a “raça” dilui-se sob o signo do mito da democracia racial, que ora é objeto de rigorosa critica, especialmente criticas dirigidas a Freyre e à sua versão “condescendente” do racismo no Brasil, ora é objeto de celebração, como expressão de uma cultura racial que se fundaria na miscigenação, na tolerância e na harmonia raciais. O maior problema são os excessos de um lado e de outro. Essa questão possui hoje um novo estatuto e devemos pensá-la como uma questão que se afirma politicamente, através da luta do movimento negro de inspiração norte-americana. Trata-se de compreender hoje a forma da luta antirracista como uma luta não de eliminação da “raça”, mas como uma luta de promoção da “raça”. Hoje debate-se leis que tendem a promover a “raça”, como a lei das cotas raciais e a lei do Estatuto da Igualdade Racial. Portanto, essa questão merece novos olhares, especialmente vinda da pesquisa histórica.

Estamos chegando ao fim da Era Lula (2003-2010). Durante este período tivemos alguma mudança no debate público sobre a questão racial? Como este debate se diferencia, por exemplo, daquele ocorrido no Governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002)?

No governo Lula, o debate sobre “raça” em geral e sobre a “raça” como sujeito de direitos ganhou principalmente uma versão institucional. Desde 2003 o governo Lula conta com uma Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial (SEPPIR) que promove sistematicamente políticas focais ou particularistas dirigidas especialmente aos negros. A institucionalização da questão racial é parte do processo de racialização que venho identificando no Brasil há uma década. O governo FHC iniciou, no entanto, as primeiras articulações de projetos de políticas públicas dirigidas especificamente para os negros. Foi no governo FHC que essa história teve inicio, como questão política da República, e que os compromissos com o movimento negro, sobretudo a partir de Durban, em 2001, iniciam-se.

Há algum tempo, a comunidade científica desconstruiu a falsa ideia de que a humanidade é formada por diferentes raças. Como podemos explicar a sobrevivência desta ideia, não apenas no senso comum, mas também no interior de movimentos sociais e até mesmo em espaços acadêmicos?

É espantoso mesmo! O que se diz é que não se trata mais daquela raça biológica, já condenada pela ciência. Trata-se de transformar a “raça” em uma categoria política cuja eficácia na luta contra o racismo seria indiscutível. É como se a promoção da raça fosse o melhor antídoto para se combater o racismo. Combate-se o racismo através da sua própria criatura, a “Raça”. Os exemplos históricos que mostram os estragos que qualquer promoção racial promoveu na Europa com o nazismo, nos EUA com a segregação racial e na África do Sul com o Apartheid, parecem não sensibilizar os intelectuais que defendem políticas públicas racializadas.

No meio intelectual e acadêmico, o debate recente sobre as cotas para negros e indígenas em universidades públicas gerou manifestos pró e contra a medida. Como a senhora se posiciona diante desta questão?

O inconveniente de se tratar essa questão quer de uma perspectiva histórica, quer de uma perspectiva sociológica, é que o tema convida a posicionamentos políticos. Não sou militante de causa alguma, mas posso manifestar o meu desconforto com todas as formas de promoção racial aqui ou em qualquer lugar.

Em entrevista recente ao jornal O GLOBO, o professor da USP Demétrio Magnoli fez duras críticas ao multiculturalismo. Para Magnoli, este tipo de ideologia gera um mosaico de comunidades e reforça políticas discriminatórias e racistas, muitas das quais servem de base para políticas demarcatórias e excludentes, como aquela do governo de Nicolas Sarkozy, na França. Professora, a senhora concorda com esta visão?

Desde 2000, com a finalização da minha tese de doutorado (que foi sobre multiculturalismo), venho identificando problemas de introdução desse paradigma no Brasil. Tenho salientado que o multiculturalismo em nome do reconhecimento da diferença étnico-racial e em nome da redistribuição com base em reparações históricas por violências cometidas no passado, vem introduzindo no Brasil uma das mais nefastas ideologias raciais: a de que a sociedade brasileira seria dividida basicamente em duas “raças”: a branca e a negra, e que tal divisão é a melhor maneira de identificar qual “raça” deve ser sujeito de direitos no Brasil, com base em direitos de reparação histórica a que governo brasileiro deve aceder. Ademais, o multiculturalismo exibe sua força quando, uma vez disseminado em vários órgãos do governo brasileiro, ou instituições brasileiras, acaba por transformar temas caros à nossa cultura, em objeto de tribunal racial. Parte da obra de Monteiro Lobato (e quantos outros virão) é considerada pelos adeptos do multiculturalismo que hoje estão à serviço do Estado brasileiro, como politicamente incorreta, uma vez que se refere de forma “racista” a sua personagem negra, Tia Anastácia, por exemplo.

África do Sul, Estados Unidos, França. Todos esses países são citados quando ao assunto é a questão racial. No que a discussão racial nestes países se aproxima ou se distancia da discussão racial travada no Brasil?

A experiência pós-apartheid da África do Sul e de Ações Afirmativas nos EUA do pós-segregação, são, em geral, associadas aos exemplos ativados por segmentos do movimento negro e da inteligentsia que apoiam a promoção racial no Brasil. No caso da França, aqueles que são adeptos das políticas republicanas universalistas, tendem a olhar para o caso Francês como um caso de resistência republicana aos apelos do multiculturalismo.

Professora, hoje, na internet, há muitos blogs e fóruns de discussão, inclusive em domínios brasileiros, que negam o holocausto nazista, que acusam os judeus de dominar a economia e os meios de comunicação. São discursos frágeis, em sua maioria, mas que acabam convencendo muitas pessoas não especialistas no tema. Como podemos classificar este tipo de discurso? Antissemita? Antissionista? Ambos? O que diferencia, atualmente, essas duas classificações? Devemos nos preocupar com um recrudescimento do antissemitismo?

Sou sempre muito crítica em relação aqueles que se apoiam em teses conspiratórias que veem o antissemtismo em todos os lugares e em todos os tempos de uma e da mesma maneira. Hoje o antissemitismo possui outros ingredientes que já não estão fundamentados nas dinâmicas antissemitas de contextos como da guerra e do período pré-guerra. O antissemitismo hoje está mais associado ao anti-sionismo, à crítica as formas como o Estado de Israel lida com os seus “outros” não judeus. Isso não significa negar que na Internet há manifestações racistas e que tal fato atrai os incautos. Sabemos que há no Brasil, no entanto, lei que pode perfeitamente penalizar essas manifestações.

Professora, muito obrigado pela sua atenção. Para encerrar, que referências bibliográficas a senhora recomendaria para os leitores do Café História que desejam se aprofundar no assunto?

FRY, P. e MAGGIE. Divisões Perigosas; FRY, P. A Persitência da Raça. O Atlântico Negro; MAIO, M. e VENTURA, R. Raça: uma questão; entre outros.


Monica Grin é professora no Instituto de História e no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordena o Núcleo Federal Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ e é autora de artigos e livros na área de estudos judaicos contemporâneos e de relações raciais.

Bruno Leal é fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social (UFRJ, 2015). Mestre em Memória Social (UNIRIO, 2009), Especialista em História Contemporânea (PUCRS, 2010), Graduado em História (UERJ, 2006) e Comunicação Social (UFRJ, 2006). Foi professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra, com especial ênfase no destino dos criminosos nazistas. Foi cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, o NIEJ entre 2011 e 2018. É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais.


Como citar esta entrevista

GRIN, Monica. Reflexões sobre a questão da “Raça”. In: Café História – História feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/reflexoes-sobre-a-questao-da-raca. Publicado em: 18 nov. 2010. Acesso: [informar data].

1 Comentário

  1. O conceito de raça como categoria genotípica, efetivamente não apresenta fundamentos científicos e deve ser condenado. Mas o termo não substitui tampouco é sinônimo ao de etnia, já de uso recorrente em todas as ciências humanas. No entanto as ações afirmativas são – e devem sê-lo – uma reparação histórica a segmentos que popr décadas ou mesmo séculos, foram despojados de seus direitos humanos mais básicos. Sempre fui favorável a cotas étnicas, todavia estas não podem ser cruzadas com critérios de outra base. Cota étnica não é cota social. Assim a exigência de que o pleiteante a uma vaga por cota étnica provir da escola pública é absurda, pois o critério étnico se cruza com o social. O pertencimento a um dado grupo, num país de intensa miscigenação étnica como obrasileiro, não deve ter como critério ÚNICO a auto-declaração. São frequentes os casos de pessoas que não têm qualquer origem na etnia declarada e que se definem como pertencendo à mesma APENAS para requerer um vaga pela cota étnica. Tais casos, teoricamente, deveriam ser delatados pela própria comunidade, mas é óbvio que ninguém o faria. O termo etnia é mais amplo, pois abrange aspectos culturais além da etnicidade. Portanto, é mais difuso.

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