Dois historiadores falam sobre biografia e escrita biográfica

Em nossa primeira entrevista dupla, conversamos com os historiadores Alexandre Avelar e Benito Bisso Schmidt, duas referências no tema Biografia.

Entrevista por Bruno Leal

É altamente provável que você, leitor ou leitora, já tenha lido alguma biografia em sua vida. Você não está só. Nos últimos anos, as biografias voltaram a ocupar um papel de destaque nas livrarias e na lista dos mais vendidos. Diante deste fenômeno editorial, como será que as biografias são encaradas atualmente na comunidade historiográfica? Qual a importância desse gênero para os estudos históricos? Qual seria a diferença, do ponto de vista da escrita da História, entre um trabalho de “biografia” e outro, de “trajetória”?

Essas e outras questões são discutidas pelos historiadores Alexandre de Sá Avelar, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e Benito Bisso Schmidt, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ambos têm publicado diversos artigos e livros sobre o tema e juntos são autores do ótimo “Grafia da Vida – Reflexões e experiências com a escrita biográfica”, publicado pela Editora Letra e Voz em 2012. Confira a nossa conversa com Avelar e Schmidt – a nossa primeira entrevista dupla não poderia ter sido mais interessante e enriquecedora.

Biografia
Pincel de escrita chinês, século XIII, Southern Song dynasty (1127–1279). Foto: The Met (NY), Gift of Florence and Herbert Irving, 2015. An:2015.500.1.22a, b.

Bruno Leal: Nas últimas décadas, houve uma espécie de “redescoberta” da biografia. Qual a importância deste gênero para o campo dos estudos históricos?

Alexandre Avelar: A pergunta é excelente porque eu penso que ela pode ajudar a pensar algumas questões. Inicialmente, é preciso considerar que o gênero biográfico sempre teve um público leitor bastante cativo, interessado nas particularidades das vidas dos grandes personagens ou nos exemplos que eles poderiam oferecer. Em segundo lugar, apesar dos historiadores terem demonstrado, não poucas vezes, fortes desconfianças em relação à biografia, eles jamais deixaram de se interessar pelo papel do indivíduo na História. Em seu O pequeno X, Sabina Loriga demonstrou muito bem como este interesse se desenvolveu ao longo do século XIX, época em que predominavam noções mais essencialmente coletivas como “povo”, “estado” ou “nação”. Também seria interessante indagarmos se há uma biografia que não seja, em alguma medida, histórica. Haveria possibilidade de narrar a vida de algum indivíduo sem o recurso à alguma forma de ordenamento temporal?

Dito isso, é claro que, nas últimas quatro ou cinco décadas, a biografia ocupou um espaço cada vez mais amplo nas agendas dos historiadores. A vitalidade ou importância deste gênero está, a meu ver, relacionada a duas importantes questões trazidas pelas biografias mais recentes. A primeira é uma relativa “democratização” dos personagens biografados. Os indivíduos comuns, destituídos de qualquer interesse aparente, passaram a ter suas vidas contadas. Há um livro muito interessante, que espero que seja traduzido logo no Brasil, em que o historiador francês Ivan Jablonka reconta a vida de uma jovem de 18 anos, Laetitia Parrais, que foi brutalmente assassinada na França, em 2011. A justificativa de Jablonka para a escrita desta biografia é bastante sugestiva: trata-se, para ele, de restituir a vida de Laetitia, até então praticamente conhecida apenas pelo encontro fatal com seu algoz. Enfim, uma jovem comum tendo a vida contada por um historiador importante com o objetivo de que o grande público não se lembre dela apenas como vítima de um crime covarde. Vale lembrar que este livro recebeu um prêmio literário concedido pelo jornal Le Monde, o que, por si só, já deveria nos despertar curiosidade, pois não é todo dia que um historiador recebe um prêmio desta natureza. Poderíamos, obviamente, multiplicar os exemplos. A outra razão da importância da biografia para os estudos históricos, atualmente, reside no que eu chamo de uma “inversão da lógica da representatividade”. Muitas biografias procuravam demonstrar como certos indivíduos poderiam sintetizar estruturas sociais. Agora nós temos trabalhos muito importantes nos quais os indivíduos demonstram justamente o desvio, o que foge à regra, o que rompe as homogeneidades aparentes, como dizia Sabina Loriga.

Benito Bisso Shcmidt (UFRGS). Foto: acervo pessoal do entrevistado.

Benito Schmidt: Eu concordo plenamente com o Alexandre. Creio que as biografias já gozam de plena legitimidade no âmbito do conhecimento histórico (assim espero!) e têm auxiliado na renovação de várias áreas, como a história política, a história da escravidão e do pós-abolição, a história do movimento operário, a história das religiões, etc. Isso não somente no Brasil, mas em vários países do mundo. Claro que, seguidamente, apesar da “democratização” referida pelo Alexandre, ainda se verifica uma hierarquia de legitimidade em função dos personagens biografados. Por exemplo, se resolvo biografar Getúlio Vargas, parece que não preciso justificar a importância da pesquisa, pois, aparentemente, ela já estaria dada pela importância “em si” do personagem para a História brasileira. Agora, se decido biografar um desconhecido, tudo preciso ser justificado, e a questão da “representatividade”, indicada pelo Alexandre, precisa ser acionada. Creio que precisamos desestabilizar esta escala e mostrar que, em princípio, qualquer personagem merece ser biografado, desde que ele nos ajude a responder questões interessantes sobre o passado, que nos auxilie a conhecer melhor outras sociedades e outros tempos.

De modo geral eu diria que a grande importância, epistemológica e política, da biografia é, como nos ensinaram os praticantes da micro-história, restituir a imprevisibilidade dos processos históricos e as margens de ação dos indivíduos, mesmo em situações de extrema opressão.

Bruno Leal: Qual seria a diferença entre biografia e trajetória? Ambos os termos têm sido bastante utilizados no campo acadêmico hoje em dia.

Alexandre Avelar: Particularmente, tenho defendido cada vez mais a ideia de que devemos diluir as fronteiras entre esses termos. Em geral, os estudantes que lidam com biografias têm dificuldade em admitir que estão, justamente, fazendo um trabalho biográfico. O recurso, nestes casos, é dizer que estão lidando com uma “trajetória”, geralmente para expressar um recorte da vida do personagem. Quer dizer, parece que o termo “biografia” só é adequado para designar uma vida em sua totalidade. Essa ambição totalizante precisa ser definitivamente superada.

Benito Schmidt: Concordo mais uma vez. Parece que o termo trajetória “absolve” a pesquisa dos “pecados” tradicionalmente associados à biografia, como a excessiva linearidade e o descolamento do indivíduo da sociedade em que viveu. Mas, atualmente, que historiador procede desta forma? As melhores biografias certamente estão atentas aos riscos da “ilusão biográfica”, levantados por Pierre Bourdieu na década de 1980, ou seja, da ideia de que a vida seria coerente, um todo sem desvios. Se podemos observar essa perspectiva ilusória em algumas biografias de grande circulação, onde proliferam os “desde pequeno” e os “sempre”, nas biografias escritas por historiadores profissionais, cada vez mais, se observa a atenção à complexidade, às possibilidades perdidas, às incertezas.

Bruno Leal: Quando o historiador examina uma autobiografia ou obras memorialistas, existe alguma diferença em termos de abordagem e metodologia? Ou o que vale para a análise de biografias vale também para esses outros “subgêneros” (sem qualquer juízo de valor, diga-se de passagem – apenas pela falta de outra palavra)?

Alexandre Avelar: Acho que os cuidados são semelhantes, na medida em que a biografia e a autobiografia são recortes, escolhas a partir das quais a vida é narrada.

Benito Schmidt: Oba! Vou poder discordar um pouco! Uma coisa é fazer uma biografia e outra é analisar biografias, autobiografias e memórias como fontes, em geral para a análise de como um indivíduo foi construído ou se autoconstruiu narrativamente. E cada um desses gêneros exige cuidados específicos. Por exemplo, nas autobiografias e memórias o sentido de verdade está muito ligado à noção de sinceridade, de deixar falar o “eu mais profundo”. Já no caso das biografias, escritas, por exemplo, por historiadores ou jornalistas, a noção de verdade aparece associada ao rigor da pesquisa, às entrevistas realizadas, aos arquivos perscrutados. Enfim, a biografia é uma escrita do outro e a autobiografia e as memórias são escritas de si.

Bruno Leal: Em 2012, vocês organizaram o livro “Grafia da Vida – Reflexões e experiências com a escrita biográfica”, publicado pela Editora Letra e Voz. Vocês podem falar um pouco sobre esse projeto? Nesses últimos cinco anos, vocês apontariam alguma nova questão ou uma nova tendência no campo de estudos sobre escrita biográfica?

Alexandre Avelar: Este livro nos foi muito caro e sua boa recepção indica a relevância da biografia no debate historiográfico contemporâneo. Nossa proposta se organizou em três seções. Tentamos mapear as questões teóricas mais relevantes sobre a biografia em uma delas. Na outra, alguns autores apresentaram seus estudos sobre personagens escolhidos. E a última, talvez a mais instigante, era composta pelo que chamamos de “bastidores de pesquisa”, ou seja, as formas pelas quais alguns historiadores conduziram suas pesquisas biográficas, desde a escolha do personagem, passando pelo estabelecimento das fontes, até o texto final. Entregamos recentemente à mesma editora um novo livro que dará continuidade àquelas reflexões, com contribuições muito importantes de vários historiadores. Detalhe: nenhum deles escreveu no primeiro livro, o que demonstra, mais uma vez, a vitalidade do gênero biográfico. Eu assinalaria que há duas questões mais fortemente acentuadas agora: os dilemas éticos envolvidos nesta “operação biográfica” e a busca por novos experimentos narrativos que possam, enfim, demonstrar a natureza forçosamente ambígua da biografia, entre o relato verídico e a ficção.

Benito Schmidt: Eu acrescentaria ainda que vários(as) dos(as) autores(as) convidados(as) recentemente publicaram biografias e, nos textos enviados para a coletânea, relataram os bastidores dessas pesquisas: suas motivações, impasses, dilemas, buscas infrutíferas, bem como contaram sobre a recepção dos livros que escreveram. Creio que este tipo de relato é muito útil para aqueles(as) que se jogam na aventura biográfica, pois permite conhecer melhor as possibilidades e problemas do gênero, os quais, muitas vezes, não são explicitados nos textos finais das pesquisas. Outros(as) historiadores(as) convidados(as) contaram sobre as biografias que marcaram suas vidas, suas trajetórias pessoais e profissionais. São textos muito delicados que evidenciam o poder da escrita biográfica na conformação da nossa imaginação histórica. Espero que o novo livro seja tão bem recebido como o primeiro foi!

Alexandre Avelar (UFU). Foto: acervo pessoal do entrevistado.

Bruno Leal: Os historiadores não são os únicos a escreverem biografias. Na verdade, jornalistas e escritores em geral são aqueles que mais tem feito sucesso nesse segmento do mercado editorial. O que distingue (ou deve distinguir) as biografias escritas por historiadores?

Alexandre Avelar: Há excelentes biografias escritas por jornalistas. Mesmo que não se trate de uma hierarquização, é preciso estabelecer diferenças. As biografias desenvolvidas pelos historiadores situam-se em um espaço portador de regras e protocolos próprios de investigação e que são, comumente, estranhos ao jornalistas. Em outras palavras, os historiadores pensam suas biografias a partir de problemas concretos de pesquisa que devem ser respondidos ao longo do texto. Esta preocupação não existe para os jornalistas que, assim, são mais “livres” para compor as narrativas de vida dos seus personagens.

Benito Schmidt: Também não penso em hierarquizações, mas em perspectivas diferenciadas. Uma biografia feita por um(a) historiador(a) não é, em termos gerais, diferente de outros trabalhos de pesquisa histórica: envolve a construção de um problema assentado em referenciais teóricos e metodológicos, em uma revisão da historiografia e em uma pesquisa sólida de fontes. Além disso, nós sabemos que não existem biografias “completas” ou “definitivas”, mas possibilidades interpretativas sobre o passado determinadas por locais específicos de produção. Nesse sentido, creio que lidamos com uma noção de “verdade” mais complexa do que aquela acionada pelos(as) jornalistas(as).

Bruno Leal: Recentemente, o historiador Paulo César de Araújo foi processado pelo cantor Roberto Carlos após a publicação da biografia “Roberto Carlos em Detalhes”. O assunto gerou uma enorme repercussão pública, envolvendo magistrados, jornalistas, historiadores e a classe artística. Um dos temas mais sensíveis do debate girou em torno da questão da privacidade. Como vocês acompanharam essa controvérsia?

Alexandre Avelar: Como princípio, a proibição da circulação de qualquer obra deve ser combatida. Não podemos aceitar a censura como modo de resolução de conflitos na esfera judicial. Dito isto, a polêmica em torno da biografia escrita por Paulo César Araújo deveria, a meu ver, suscitar o debate sobre questões significativas para os historiadores-biógrafos: quais os limites de suas incursões na vida privada dos seus personagens? O que deve ser dito? Há a necessidade de tudo ser dito?

Benito Schmidt: O texto que escrevi para a coletânea lida com esta questão, pois examina o julgamento do STF sobre a questão das biografias. Atualmente, ao menos em tese, não se pode censurar previamente biografias. Portanto, o caso da biografia do Roberto Carlos não deve se repetir, o que acho ótimo. Mas também penso que devemos, ao realizar trabalhos deste tipo, realizar uma profunda reflexão ética sobre as implicações sociais e políticas de nossas pesquisas (e isso não vale somente para as investigações biográficas!). Claro que não podemos controlar a recepção de nossos estudos, e nem isso seria desejável, mas, no caso das biografias históricas, insisto, o importante não é contar “tudo”, “doa a quem doer”, mas responder problemas com relevância historiográfica.


Alexandre de Sá Avelar – Possui graduação em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ (1997), mestrado em História pela mesma instituição (2001) e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense – UFF (2006). Desenvolveu estágio pós-doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) em 2016-2017. É Professor Associado I da Universidade Federal de Uberlândia. Tem experiência na área de História, com ênfase em Estado e Sociedade, Teoria da História e Historiografia, atuando principalmente nos seguintes temas: historiografia, intelectuais, escrita da História e biografia.

Benito Bisso Schmidt – Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (1990), mestrado em História pela mesma instituição (1996) e doutorado em História Social do Trabalho pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (2002), com estágio no Centre d’Histoire Sociale du XXe Siècle (Université Paris 1 – Panthéon-Sorbonne) (2001). Atualmente, é Professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS. Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Ensino de História – PROFHIST (desde 2014). Foi Maître de Conférences na École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS, Paris (2005 e 2011); titular da Cátedra Simón Bolívar do Institut des Hautes Études de l’Amérique Latine – IHEAL (Université Paris 3 – Sorbonne Nouvelle) (2014), e Professor Convidado no Department of Romance and Latin-American Studies da Universidade Hebraica de Jerusalém (2014) e no Mestrado em Ciências Humanas da Universidad de la República (Uruguai) (2016). Integra o Grupo de Pesquisa “Teoria e Metodologia da História” e o Laboratório de Ensino de História e Educação (LHISTE), ambos vinculados ao CNPq. Ministra disciplinas na área de Teoria e Metodologia da História e pesquisa temas como: gênero biográfico, história social da memória, história do trabalho, história das relações de gênero e ditaduras na América Latina.

Bruno Leal Pastor de Carvalho – Professor Substituto de Teoria da História no Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do Instituto de História pelo programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD), vinculado ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É doutor em História Social pela UFRJ (2015), mestre em Memória Social pela UNIRIO (2009) e especialista em História Contemporânea pela PUCRS (2010). Graduado em História pela UERJ (2006) e em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela UFRJ (2006). É fundador e editor do portal Café História, além de cocoordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ (NIEJ). É membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais. Seu campo de interesses inclui: holocausto, crimes de guerra, história pública digital e divulgação de história.


Como citar essa entrevista

AVELAR, Alexandre; SCHMIDT, Benito Bisso. Dois historiadores falam sobre biografia e escrita biográfica (Entrevista). Entrevista concedida a Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/biografia-e-escrita-biografica/. Publicado em: 21 nov. 2017. Acesso: [informar data].

2 Comentário

  1. Excelente, ótimo trabalho!
    Só um detalhe: o título da entrevista no “como citar” está trocado. Vale fazer a correção antes que alguém cite errado…

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