Testemunhas de Jeová contra o nazismo

Como e por que uma pequena comunidade cristã na Alemanha se viu obrigada a lutar contra a perseguição pelo nacional-socialismo

Por Bruno Leal

Durante o Terceiro Reich (1933-1945), os Testemunhas de Jeová foram ao lado dos judeus, homossexuais, comunistas e adversários políticos do nazismo, entre outros grupos, vítimas da perseguição do nacional-socialismo. Segundo o historiador François Bédarida, foram assassinados na Alemanha e em territórios ocupados pelos alemães, entre dois e três mil Testemunhas de Jeová, de uma população de dez mil. Mas por que tamanha intolerância contra o grupo?

De acordo com os seus princípios religiosos, os Testemunhas de Jeová não podem jurar obediência a nenhum líder político. Seu compromisso é único e exclusivamente com Jeová e Jesus Cristo. Em 1933, quando Hitler chega ao poder, esse aspecto teológico dos Testemunhas de Jeová se tornou um problema bastante grave. Os Testemunhas de Jeová então residentes na Alemanha não só não podiam jurar obediência ao novo Führer, como também não podiam fazer a saudação hitlerista ou permitir que os seus filhos aderissem à Juventude Hitlerista. Também não podiam pegar em armas. Esse conjunto de recusas ao nazismo fez com que os “Bibelforscher” (ou estudantes da Bíblia, como também eram conhecidos as Testemunhas de Jeová na Alemanha da década de 1930), passassem a ser vistos como opositores do regime nazista.

Fotos da prisão de Else Woieziek, uma Testemunha de Jeová sentenciada a morte e executada em 1944. Düsseldorf, Alemanha. Foto: Landesarchiv Nordrhein-Westfälisches Hauptstaatsarchiv e United States Holocaust Memorial Museum.

O cerco contra esta pequena comunidade cristã foi crescendo à medida que o nazismo foi se tornando mais forte na Alemanha. Seus textos foram queimados, seus líderes foram presos por insubordinação, os adeptos proibidos de se reunirem ou de fazerem conversões. A própria população alemã foi encorajada pelo governo nazista a delatar Testemunhas de Jeová ao regime. A questão, no entanto, é que a repressão nazista não fez com que o grupo recuasse em seus princípios e devoções. Ao contrário de muitas lideranças protestantes e católicas, que acabaram por se ajustar e até mesmo colaborar com o nacional socialismo, os Testemunhas de Jeová não fizeram concessões ao Reich, chegando até mesmo a protestar contra o regime de Hitler.

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Monumento em memória de Carl von Ossietzky na cidade de Berlim. Foto: OTFW, Berlin | Wikipedia

Carl von Ossietzky, intelectual, pacifista convicto e testemunha de Jeová, foi o maior símbolo desta luta. Ossietzky escreveu diversos manifestos contra a opressão e perseguição dos nazistas aos Testemunhas de Jeová. Seu trabalho ficou tão conhecido, inclusive fora da Alemanha, que em 1935 a Liga Alemã dos Direitos Humanos propôs para o seu nome para o Prêmio Nobel da Paz. E ele venceu. Constrangido com a situação, e tentando manter a imagem da Alemanha no estrangeiro, o marechal Goring foi pessoalmente ao campo de concentração de Dachau, onde Ossietzky encontrava-se preso, para comunicar que seu nome fora atribuído ao Prêmio Nobel da Paz e dizer que ele poderia deslocar-se à Suécia para a cerimônia. A condição era não criticar o nacional-socialismo. Ossietzky, porém, recusou a proposta e permaneceu no campo de concentração, o que foi considerado na época, para ele, pessoalmente, a sua grande vitória moral. Morreu de tuberculose em 4 de Maio de 1938.

A resistência das Testemunhas de Jeová teve um custo bastante alto para a comunidade. Ainda em 1935, a organização foi banida da Alemanha. E a perseguição se intensificou: os nazistas chegaram a plantar documentos falsos – como era comum na época – apresentando os Testemunhas de Jeová como instrumentos e co-participantes de uma conspiração judaica internacional. Transformaram-se, assim, pouco a pouco, em inimigos do Estado Alemão. Centenas de milhares de adeptos da religião foram enviados a campos de concentração dentro e fora da Alemanha. Os “triângulos roxo”, como eram conhecidos nos campos, devido ao emblema que levavam costurado à roupa de prisioneiro, morreram aos milhares após meses e até mesmo anos de trabalhos forçados, de violência física e psicológica.

Reconhecimento tardio

Durante muito tempo, a história dos Testemunhas de Jeová permaneceu desconhecida do grande público. Não apareciam nos livros escolares, no cinema ou em eventos sobre o holocausto. Nos últimos anos, porém, a historiografia, os governos e organizações não-governamentais reconheceram publicamente a história de luta e perseguição da comunidade dentro do contexto do nacional socialismo. No Brasil, o tema passou a aparecer nas aulas e nos materiais didáticos. No início dos anos 2000, foi tema até de uma significativa exposição chamada “Triângulos Roxos – As Vítimas Esquecidas do Nazismo”, que depois de passar por várias cidades europeias, esteve aberta ao público no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Sobral. O tema parecia, finalmente, incorporado a história contemporânea.


Para saber mais

Para quem deseja conhecer mais sobre o tema, o Café História sugere a leitura do livro “Jeovah’s Witnesses and The Third Reich”, de M.James Penton, a dissertação de mestrado “A Torre sob vigia: as Testemunhas de Jeová em São Paulo (1934 – 1954)”, defendida pelo historiador Eduardo Goes de Castro, da Universidade de São Paulo (USP), e também o documentário inglês “Triângulos Roxos: Testemunhas de Jeová e o Holocausto”, além da reportagem do RJTV referente a exposição “Triângulos Roxos – As Vítimas Esquecidas do Nazismo”.


Bruno Leal Pastor de Carvalho – doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Pesquisa os seguintes temas: criminosos nazistas, mídias sociais e divulgação de história. É fundador e editor do Café História. Atualmente, é pós-doutorando em História Social pela UFRJ.

3 Comentário

  1. Muito bom que o réconhecimemto histórico,mesmo que tardio, tenha ocorrido.Sem dúvida um grupo de muita coragem na defesa de suas convicções.

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