Tudo de novo no front: a “nova historiografia” da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial

Desde a década de 1940, escreve-se sobre a Segunda Guerra Mundial e seus reflexos no Brasil. Contudo, nos últimos dez anos tem ocorrido um importante processo de ampliação e revisão dos estudos historiográficos sobre o tema, especialmente, a respeito da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Por Wilson de Oliveira Neto

A Segunda Guerra Mundial (1939–1945) é um tema fascinante. Quando lecionava no Ensino Fundamental, a primeira pergunta que boa parte dos meus alunos me fazia era “quando estudaremos a Segunda Guerra Mundial”? Desde a época do conflito, há uma interminável produção de imagens e textos escritos sobre a guerra, especialmente, por parte da “indústria cultural”. Ao examinar a produção bibliográfica a respeito da experiência brasileira no conflito, o historiador Francisco Cesar Alves Ferraz chegou ao impressionante número de 1092 títulos publicados entre 1945 e 2015.

Soldados da FEB sendo saudados por moradores de Massarosa. Final de setembro, 1944. Foto: Durval Jr, Wikipedia.

Nos últimos dez anos, contudo, está em curso no Brasil um processo de ampliação e revisão dos estudos históricos sobre o país no contexto da Segunda Guerra Mundial, com destaque para a experiência militar brasileira na Campanha da Itália através da FEB. O que há de novo nesse front? Nesta bibliografia comentada, procurarei responder essa pergunta através do exame de um conjunto de obras de referência lançadas, principalmente, a partir de 2010. Espero que ela possa ajudar você!

Barbudos, Sujos e Fatigados, de Cesar Campiani Maximiano, 2010, Grua, 448p.

“Barbudos, sujos e fatigados, do alto de uma montanha recém-tomada, os homens do III Batalhão do Regimento Sampaio olhavam para a densa cordilheira apenina que se descortinava adiante”, descreve Cesar Campiani Maximiano, na introdução do livro “Barbudos, sujos e fatigados”. Descendente de veteranos da Revolução Constitucionalista de 1932 e da FEB, colecionador e autor, Maximiano é reconhecido como uma das principais autoridades sobre História da Força Expedicionária Brasileira e na afirmação da História Militar como um campo de estudos históricos no Brasil. Embora lançado em 2010, Barbudos, sujos e fatigados é o resultado de anos de pesquisa, cujas origens estão situadas na década de 1990. Na obra, suas principais fontes são depoimentos coletados entre os veteranos da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) que tiveram experiência direta em combates. 1 No livro, eles são contextualizados e analisados através de um profundo conhecimento sobre História Militar brasileira e sobre a Segunda Guerra Mundial, o que permitiu ao autor refutar antigos e arraigados lugares-comuns sobre a FEB, tais como a atribuição das falhas no adestramento dos expedicionários à doutrina militar francesa, vigente no exército brasileiro da época, ou a ideia de que a proximidade entre praças e oficiais da FEB foi resultado da influência do exército americano ao qual a FEB estava subordinada. A narrativa de Maximiano revela o domínio que o autor tem sobre a bibliografia e as fontes históricas a respeito da FEB. Essa qualidade possibilitou ao autor, por exemplo, criticar as “partes de combate”, registros oficiais feitos nos Boletins Internos da FEB2, muitas vezes distantes da experiência dos expedicionários que protagonizaram as ações de combate em que a 1ª DIE esteve envolvida.

A guerra que não acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000), de Francisco César Alves Ferraz, Editora Eduel, 2012, 380p.

A Segunda Guerra Mundial foi encerrada no começo de maio de 1945. Imediatamente, a FEB foi desmobilizada pelo governo brasileiro da época através de uma decisão política que não afetou somente a profissionalização do Exército, como também a reintegração social dos próprios ex-combatentes. Com o fim do conflito, a desmobilização dos expedicionários e o retorno deles ao Brasil, que fim eles levaram?  Quem responde a pergunta é Francisco Cesar Alves Ferraz, no livro “A guerra que não acabou”, lançado em 2012, que narra o processo de reintegração social dos ex-combatentes da FEB. “A Segunda Guerra Mundial chamou mais a atenção dos brasileiros, mas nunca se tornou o ponto de referência histórico como o foi na Europa e nos Estados Unidos”, explica o autor. Esse fato influenciou na forma como ex-combatentes, Estado e sociedade brasileiros se relacionaram ao longo das décadas seguintes à guerra. Tal como Maximiano, Ferraz é uma das principais referências sobre a História da FEB e seu livro envolveu o exame de uma diversificada documentação, produzida, especialmente, pelas associações de ex-combatentes espalhadas pelo país. O resultado é uma narrativa a respeito do labirinto de leis que não ajudou a reintegração social dos ex-combatentes; da forma como o Exército ignorou as experiências dos seus efetivos que foram à guerra; das origens e da trajetória do associativismo entre ex-combatentes e suas disputas políticas; e das relações entre os expedicionários e a memória. Esse último aspecto chama a atenção, pois uma das estratégias de reintegração social foi a valorização da experiência militar da FEB na Itália, através da preservação, divulgação e valorização da memória. Neste contexto, os ex-combatentes se tornaram “agentes da memória”, em um processo que envolveu o próprio Exército, especialmente, durante o Regime Militar (1964–1985). Para Ferraz, isto influenciou no modo como algumas obras produzidos no período da redemocratização construíram uma imagem caricaturada da FEB, como é o caso do livro As duas faces da glória”, do jornalista William Waack e o filme “Rádio Auriverde”, de Sylvio Back, lançados, respectivamente, em 1985 e 1991. O autor aponta que “ambos miraram na FEB, para acertar um alvo maior e mais poderoso, o regime militar inaugurado em 1964”. Neste sentido, o trabalho de Francisco César Alves Ferraz também é um significativo trabalho a respeito da memória como um campo de disputas.

Operação Brasil: o ataque alemão que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial, de Durval Lourenço Pereira, Editora Contexto, 2015, 336p.

E por que o Brasil foi à guerra? Ok, Ricardo Seitenfus, em “O Brasil vai à Guerra” tem razão quando afirma que, dificilmente, um país periférico e fornecedor de commodities permaneceria neutro por muito tempo diante de um conflito militar tão amplo quanto a Segunda Guerra Mundial. Mas quais foram as circunstâncias que levaram à assinatura da declaração brasileira de guerra, em 31 de agosto de 1942? A resposta é a série de ataques de submarinos do Eixo contra os navios da marinha mercante brasileira ocorrida durante o primeiro semestre de 1942. Esse fato é consenso entre os autores que estudam o envolvimento do país no conflito como a razão imediata para a declaração de guerra do Brasil contra a Alemanha e a Itália. Porém, ainda é possível ouvir por aí uma versão que ficou muito difundida no senso comum de que foram submarinos americanos que atacaram os navios brasileiros, em 1942, como uma maneira de forçar o país a entrar na guerra. Ouso afirmar que a refutação definitiva à essa opinião se encontra no livro “Operação Brasil”, escrito por Durval Lourenço Pereira e lançado em 2015.

General alemão Coronel Otto Von Kleiber se rendendo à tropa brasileira em abril de 1945. De costas para o fotógrafo, o Capitão Franco Ferreira. Foto: Sívio S. da Fonseca, Wikipedia.

O título decorre de um plano organizado pela Marinha de Guerra alemã contra o Brasil, que acabaria com a navegação de cabotagem no país, colocando em grave risco sua segurança. Embora redigido, sua execução nunca ocorreu, pois foi vetado pelo próprio Hitler. Ao narrar as circunstâncias em que ocorreu a declaração brasileira de guerra, o autor promove uma revisão de diversos aspectos dessa História que eram aceitos pelos estudiosos sem a devida crítica. Por exemplo, é comum considerar o General Góis Monteiro (1889-1956), chefe do Estado-Maior do Exército durante o Estado Novo, um militar “germanófilo”, simpatizante da Alemanha e do seu regime nacional-socialista. Porém, Pereira revela que tal rótulo foi imposto ao General pela imprensa americana, pois este, junto com o General Eurico Gaspar Dutra, negociou com dureza o envolvimento do Brasil na guerra em troca do fornecimento de material bélico moderno pelos Estados Unidos, através do Lend-and-Lease. Contudo, certamente, um dos aspectos mais importantes do livro é a comprovação documental de que foram submarinos alemães que atacaram e afundaram os navios mercantes brasileiros durante o primeiro semestre de 1942. Para tanto, o autor consultou a documentação produzida pela Kriegsmarine através do seu comando de operações. Com riqueza de detalhes, ele descreveu as ações contra a marinha brasileira, refutando as especulações que existem desde a década de 1940 sobre o assunto.

Extermine o inimigo: blindados brasileiros na Segunda Guerra Mundial, de Dennison de Oliveira, Editora Juruá, 2015, 218p.

As décadas de 1930 e 1940 foram marcadas pelo esforço do comando militar brasileiro em profissionalizar e modernizar seus recursos humanos e materiais. É nesse contexto que a política dos Generais Góis Monteiro e Dutra deve ser compreendida. Isso fica claro quando é estudada a história dos carros-de-combate no Brasil, conforme narra o livro “Extermine o inimigo”, de 2015, cujo autor é Dennison de Oliveira. A obra faz parte de um conjunto de produções, entre artigos e livros, com destaque para o livro “A aliança Brasil-EUA: nova história do Brasil na Segunda Guerra Mundial”, também lançado em 2015, decorrente do pós-doutorado do autor, que, através do estudo de documentação inédita de origem norte-americana, intensificou o processo de ampliação e renovação dos estudos históricos sobre os reflexos da Segunda Guerra Mundial no Brasil. No livro, Oliveira descreve e contextualiza a criação da primeira divisão blindada do Exército brasileiro e a experiência em combate motorizado adquirida na Campanha da Itália pelo Esquadrão de Reconhecimento da FEB, comandado pelo então Capitão Plínio Pitaluga (1910-2002), cujas memórias são o fio condutor da obra. , que envolveu o estudo de documentos brasileiros e americanos, disponibilizados pelo autor em links para arquivos disponíveis no Google Drive. Trata-se de uma “história hipertextual”, pois o autor disponibilizou documentos brasileiros e americanos por meio de links do Google Drive, permitindo ao leitor conferir as fontes usadas por Oliveira.

Série de selos postais alusiva à vitória aliada na Europa, em 8 de maio de 1945. No Brasil, os selos postais são uma importante fonte sobre a memória a respeito da FEB. Coleção: Wilson de Oliveira Neto.

Há diversos aspectos na obra que chamam a atenção, porém vale destacar dois: 1. Apesar do fornecimento maciço de blindados pelos Estados Unidos, tanto a falta de infraestrutura industrial como a de recursos humanos especializados foram sérios obstáculos à formação da primeira divisão blindada do exército, criada somente em 1957; 2. A atuação do Esquadrão de Reconhecimento da FEB durante o final de abril de 1945, na região de Fornovo di Taro, em uma missão de procurar e destruir a 148ª Divisão de Infantaria alemã, que resultou em um dos fatos mais notáveis da Campanha da Itália: a captura pela FEB de uma divisão de infantaria inteira, com quase 15 mil homens. Como afirma o autor, a tropa brasileira, bem adestrada, municiada e posicionada, estava a “exterminar o inimigo” quando houve a rendição da 148ª DI, entre 29 e 30 de abril de 1945. No livro, esse fato foi descrito com detalhes e reforça a ideia de que, apesar das deficiências iniciais de treinamento, a 1ª DIE se tornou, ao final do conflito na Itália, uma força combatente tão capaz e feroz quanto as demais sob o comando do 5º Exército americano. Na Itália, a FEB cumpriu todas as missões a ela confiada. Extermine o inimigo narra, possivelmente, a mais significativa dessas missões.

2017, um ano de lançamentos.

Cabe finalizar essa pequena orientação bibliográfica com quatro lançamentos da área em 2017. Obras inovadoras, sendo três delas resultados de trabalhos de pós-graduação em História: “Morrer na guerra”, de Adriane Piovezan, “O Piauí em tempos de Segunda Guerra”, de Clarice Helena Santiago Lira, “O triunfo da persuasão”, de Alexandre Busko Valim, e “Seduções impressas”, de Aline Vanessa Locastre.

Essas obras narram a História da Segunda Guerra Mundial sob a óptica brasileira e vão ao encontro das conclusões de Francisco Cesar Alves Ferraz: “há uma crescente produção envolvendo grupos maiores e mais diversificados de pesquisadores e autores e, por fim, mas não menos importante, um estimulante conjunto de abordagens mais interessantes, complexas e melhor fundamentadas”.


Notas

1 Quando do seu envio ao teatro de operações italiano, a FEB estava organizada na seguinte forma: 1ª Divisão de Infantaria Divisionária; Depósito de Pessoal; Órgãos Não-Divisionários. Os expedicionários que estiveram em combate pertenceram à 1ª DIE. Portanto, nem todo “pracinha”, mesmo que enviado à Itália, participou de ações de combate, entre 1944 e 1945.

2 Um “Boletim Interno” é um registro escrito produzido pelos setores de intendência de uma organização militar e é conhecido como “S4”. É produzido diariamente, como uma espécie de “diário” acerca dos fatos ocorridos. Em um contexto de guerra, são registradas as operações militares no item “partes de combate”. Há uma versão “reservada” chamada BIR – Boletim Interno Reservado, que é produzida pelos órgãos de inteligência e segurança das organizações militares, os “S2”.


Referências Bibliográficas

FERRAZ, F. C. A. Considerações historiográficas sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial: balanço da produção bibliográfica e suas tendências. Revista esboços, Florianópolis, v. 22, n. 34, p. 207-237, jul. 2016.

SEITENFUS, R. O Brasil vai à guerra: o processo de envolvimento brasileiro com a Segunda Guerra Mundial. Barueri: Manole, 2003, p. XV – XVI.


Wilson de Oliveira Neto é Doutorando em Comunicação e Cultura na ECO/UFRJ. Professor e pesquisador no curso de História da Universidade da Região de Joinville – Univille. Autor de trabalhos sobre o nordeste de Santa Catarina no contexto da Segunda Guerra Mundial e as relações entre guerra e fotografia, com destaque para o livro O Exército e a cidade, escrito em coautoria com Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes e Marília Gervazi Olska, lançado em 2008, pela editora da Univille. E-mail: [email protected].


Como citar essa Bibliografia Comentada

NETO, Wilson de Oliveira. Tudo de novo no front: a “nova historiografia” da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. (Bibliografia Comentada). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/nova-historiografia-brasil-na-guerra/. Publicado em: 4 dez. 2017. Acesso: [informar data].

2 Comentário

  1. Na expectativa de termos, num dia futuro, uma bibliografia completa desse tema único e específico, e de todas as sua conexões possíveis tanto em termos históricos quanto culturais e sócio-antropológicos, sugiro-lhes as seguintes notas de pé de página ou de fim de pesquisa:
    1. Na foto acima impressa, o oficial brasileiro que recebe o termo de
    rendição de seu correspondente inimigo, é o (então) Major Henrique Cordeiro Oest. Aqui abro um parêntesis: ver em Laurita Mourão, Mourão, o general de pijama vermelho, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 2002, pp. 128-129, um exemplo da qualidade moral do oficial brasileiro que foi o General Oest. Fecho o parêntesis.
    2. Vejam-se também, agora talvez com maior riqueza de fatos: Fernando Lourenço Fernandes, A estrada para Fornovo, a FEB Força Expedicionária Brasileira, outros exércitos & …, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2009. 3. De William Waack, As duas faces da glória, a FEB vista pelos seus aliados e inimigos, São Paulo, Planeta, 2015, do qual complemento com uma só afirmação: trata-se de um trabalho jornalístico, sob forma histórica, mas sem os complementos necessários para que o seja, tais como, uma absoluta, expressiva e completa indicação de onde os arquivos utilizados se encontram, e quando usadas as suas peças, porque não a sua tradução ipsis litteris, já que se trate de um trabalho aparentemente crítico e de opinião, conforme este jornalista sempre insistiu como parte integrante de seu ego profisionalista, em seus programas de televisão sobre outros assuntos similares e de natureza política e cultural, durante anos. Foi exatamente esse viés que o derrubou de seu pedestal de madeira de segunda.

  2. Faltou mencionar o livro “U-507 – O Submarino que afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial”, lançado em 2012, que dá nome e sobrenome ao submersível que levou o país a declarar guerra aos nazistas. O livro “Operação Brasil” é posterior ao “U-507” e trata do tema com muito maior profundidade.

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