A Revolução Francesa dos historiadores: os trabalhos que formaram o nosso conhecimento sobre o tema

A historiografia da Revolução Francesa é tão antiga quanto a própria revolução. As abordagens ao longo da história foram profundamente marcadas por contextos sociais, econômicos e políticos.

Por Daniel Gomes de Carvalho

A Revolução Francesa foi um processo revolucionário que, na interpretação clássica, entende-se de 1789 a 1799, e foi caracterizado por suas várias reviravoltas, golpes de Estado e períodos distintos. Assim como o próprio movimento revolucionário, também são díspares e controversas as avaliações que são feitas sobre a Revolução, que recebeu diversas alcunhas: “esplêndida aurora” (Georg Wilhelm Friedrich Hegel), “equivalente aos mitos e epopeias da Grécia antiga” (Thomas Carlyle), “a maior catástrofe que caiu sobre a raça humana” (Goldwin Smith), “mãe de todos nós” (Albert Soboul) ou “centro estratégico da história moderna” (Alfred Cobban).

François Furet diz que os trabalhos dos historiadores (historiografia) são tão conflitivos e complexos quanto os próprios acontecimentos que marcaram a Revolução: “seu desenvolvimento é comparável ao desenvolvimento da própria Revolução: atravessada de contradições e de batalhas espetaculares, como se o caráter teatral do evento tivesse sido legado a seus historiadores, única parte não dividida de uma herança conflituosa.”[1]

Ocorre que a Revolução Francesa teve a sorte de possuir grandes historiadores, que foram capazes de imputar aos acontecimentos interpretações que perduraram por décadas. Contudo, apesar das divergências, parece existir um consenso, ainda que tácito, entre os estudiosos da Revolução: ela foi um “caos político”. Mas entenda-se caos não como desordem, mas no sentido que a mitologia grega atribuiu à palavra: um caos criador e criativo, que reformulou a linguagem política e deu o tom, com fortes doses de ineditismo, ao debate político contemporâneo. Conservadorismo e progressismo, ditadura revolucionária e império das leis, partilha da propriedade e imposto progressivo, liberalismo conservador e democrático, moderação e moderantismo, dentre várias outras categorias do debate político contemporâneo, estavam presentes no calor dos acontecimentos franceses.

Assassinato de Marat - Revolução Francesa.
O assassinato de Jean-Paul Marat por um simpatizante dos girondinos,  Charlotte Corday, no dia 13 de julho de 1793. Tela de Jean-Joseph Weerts (1847-1927). Wikipédia.

Essa fertilidade dos fatos revolucionários fez a Revolução Francesa ter sido especialmente permeável aos acontecimentos políticos dos últimos séculos: ora para o bem, ora para o mal, os acontecimentos revolucionários têm sido frequentemente revistos à luz das grandes guerras, do stalinismo, da crise do socialismo real e, mais recentemente, das novas demandas igualitárias, das propostas de uma historia “global” e mesmo dos direitos dos animais[2].

Neste artigo, meu objetivo é mapear e explicar o desenvolvimento da chamada “historiografia clássica “da Revolução Francesa, isto é, os principais autores e obras que marcaram o nosso conhecimento sobre o tema. Para isso, o artigo será divido em cinco fases: 1) A Revolução por seus testemunhos (1790-1820); 2) Hegemonia Democrático-Liberal e Socialista (1820-1856); 3) Hegemonia Conservadora (1856-1885); 4) A Institucionalização da Revolução e a Hegemonia Jacobina (1885-1964); 5) Hegemonia Revisionista-Liberal (1964 -1989).[3]

Da década de 1990 até hoje, a historiografia da Revolução Francesa tem vivido uma nova “fase”, marcada por novos objetos, novos autores, novas abordagens e novas interpretações. Mas essa sexta fase historiográfica será objeto de uma bibliografia comentada, a ser publicada em breve aqui no Café História.

A Revolução por seus testemunhos (1790-1820)

A Revolução Francesa foi um movimento que, de forma impressionante, historiou-se a si mesma. No mundo britânico, foram feitas as primeiras reflexões de impacto sobre os processos revolucionários. Dentre os vários testemunhos e intérpretes da Revolução, é preciso destacar a obra-prima do irlandês Edmund Burke (1729-1797), Reflexões sobre a Revolução em França, publicada em 1790.

Burke pretendeu mostrar que entre a Revolução Inglesa e a Revolução Francesa havia não uma diferença de grau, mas de natureza: enquanto aquela resgatava os direitos tradicionais britânicos, esta fazia tábua rasa de toda as tradições gestadas com sabedoria há séculos, destruindo a comunidade humana e tornando os homens nada mais que “moscas de verão”.

Outro nome de destaque no período é o do britânico Thomas Paine (1737-1809), já célebre pelo seu Common Sense (1776), elaborou a mais conhecida resposta à Burke com o livro Os Direitos do Homem (1791-1792), uma defesa em alto tom da Revolução. Burke, para ele, criou um “Adão Político”, de modo que a defesa da tradição significaria que a comunidade dos mortos deveria governar os vivos – e os vivos, argumenta Paine, têm o direito a reinventar-se.

Hegemonia Democrático-Liberal e Socialista (1820-1856)

No século XIX, os grandes historiadores foram autodidatas ou futuros homens de política, e não historiadores formados em universidades francesas – para muitos deles, a história é, abertamente, uma arma política. Os fatos, além disso, pareciam imitar a história da Revolução, como disse o próprio Karl Marx em suas célebres passagens no 18 Brumário de Luís Bonaparte. Na França, terminada a chamada Era Napoleônica, em 1814-1815, o ciclo revolucionário se repetiu. Assim como 1789 derrubou a monarquia Bourbon de Luís XVI, a Revolução de 1830 derrubou o regime autoritário de Carlos X; assim como 1793 alçou os jacobinos e seu discurso de democracia social ao poder, a Revolução de 1848, acrescentando a “fraternidade” à “liberdade e igualdade”, derrubou o regime “burguês” de Luís Felipe de Orléans; o golpe de Estado de Luís Bonaparte, em 1851, finalmente, mimetiza o golpe do tio Napoleão.

A historiografia liberal do período apoia-se na publicação póstuma (1818) de Madame de Staël (1766-1817), Considerações sobre a Revolução Francesa. Em defesa da Revolução contra uma historiografia contrarrevolucionária, a filha de Jacques Necker, o encarregado da economia na França de Luís XVI, esforçou-se por desvincular Revolução e jacobinismo. Para ela a Revolução Francesa teve um caráter dual: os valores de 1789, análogos aos da Inglaterra livre, não poderiam ser confundidos com as “distorções jacobinas”.

Adolphe Thiers (1797-1877), Francois-Auguste-Marie-Alexis Mignet (1796-1884) e François Guizot (1787-1874), expoentes da escola histórica da Restauração, engajados em resgatar os valores revolucionários contra Carlos X, viam o Terror não como uma “falsa Revolução”, mas como uma necessidade história, gestada, infelizmente, pelos próprios excessos da monarquia e da aristocracia. Contudo, encerrado o regime de Carlos X, e instaurado o regime “burguês” de Luís Felipe de Orléans, a historiografia revolucionária conheceu um novo giro.

Em 1829, a publicação do livro de Philippe Buonarroti (1761-1837), Conspiration de Babeuf (1829), alimentou uma nova visão da Revolução Francesa, o qual capta e enfatiza seu aspecto radical e “antiburguês.” Radicais e socialistas das décadas de 1830 e 1840, assim, passaram a enxergar na igualdade defendida pelos jacobinos uma maneira de mobilizar as massas contra a burguesia – por isso, Robespierre passa a ser valorizado, por exemplo, por pelo socialista católico Philippe Joseph Benjamin Buchez (1796-1865) e pelo líder cartista Bronterre O’Brien (1804-1864),

Em 1847, apareceram duas obras que resumem o espírito de 1848: as Histórias da Revolução Francesa, do socialista moderado Louis Blanc (1811-1882), e a História dos Girondinos de Alphonse de Lamartine (1790-1869), expoentes da historiografia romântica. Nenhuma delas, contudo, é comparável à História da Revolução Francesa de Jules Michelet (1798-1874), livro mais importante de toda a historiografia da Revolução Francesa. Ele rejeita, a um só tempo, o fatalismo de Mignet, o socialismo de Blanc e Buchez e as concepções monárquicas e aristocráticas vigentes do período, da mesma forma exalta 1789 contra a violência jacobina de 1793 e não hesita em dizer: “eu não teria sido jacobino.”

Hegemonia Conservadora (1856-1885)

Após a Revolução de 1848, a ascensão de Luís Bonaparte é um golpe fatal para a historiografia romântica que esperava ver na Revolução de 1830 uma realização da liberdade. A historiografia, então, conheceu uma nova transformação.

Dentre as várias obras críticas da Revolução Francesa (Thierry, Montégut, Rémusat) gestadas nesse momento, é a de Alexis de Tocqueville (1805-1859), O Antigo Regime e a Revolução (1856), a mais original e mais significativa dentro da mentalidade liberal. A obra é verdadeiramente paradigmática, sendo a primeira a dar densidade ao conceito de Antigo Regime e ao de Pré-Revolução. Modelo ímpar de análise sociológica, Tocqueville depreende-se da ótica dos fatos e testemunhos para mostrar a centralização como herança da Revolução Francesa – entre o Antigo Regime e a Revolução, por isso, havia mais continuidades do que se poderia supor.

À desmistificação da Revolução Francesa segue-se a desmistificação de Maximilien de Robespierre, bem como a promoção de Georges Jacques Danton, feita por nomes como Eugène Despois (1818-1876) e Alfred Bougeart (1815-1882). O duplo choque da derrota na Guerra Franco-Prussiana (guerra que termina com a derrota da França e vitória da Alemanha, agora unificada) e da Comuna de Paris, em 1871, vieram a acentuar o pessimismo da historiografia liberal, como faz Ernest Renan (1823-1892), autor de La Réforme intelectuelle et morale, 1871), ao relacionar o Terror e a Comuna.

Alex de Tocqueville, um dos principais historiadores da Revolução Francesa.

O célebre filósofo liberal oerleanista, Hippolyte Taine (1823-1893), em Origines de la France contemporaine, reforçou essa crítica. Para ele, a ideia puramente “filosófica” de um homem abstrato, anterior à história, que guiaria os homens revolucionários, estaria na fonte de muitos de seus delírios. Antítese do espírito romântico, para Taine a natureza humana é má e o povo com sua escória um monstro em potência, de maneira que a arte do bom governo consiste em refrear os instintos dessa fera social.

A institucionalização da Revolução e a Hegemonia Jacobina (1885-1964)

Na década de 1880, já afastado Napoleão III e derrotada a Comuna de Paris, os republicanos assumiram a direção da França, e a historiografia da Revolução Francesa conheceu um novo giro. A chamada Terceira República (1870-1940) institucionalizou a Revolução: os novos programas escolares difundem os Direitos do Homem e a Tomada da Bastilha torna-se Dia Nacional da República Francesa.

Em 1885, criou-se a cadeira de História da Revolução Francesa na Sorbonne. Alphonse Aulard (1849-1928), jornalista e membro do partido radical, foi, por mais de 40 anos, o titular dessa cadeira. Republicano e sob impacto do pensamento positivista, exaltava a Revolução como progressista e certa, ao passo que o jacobinismo teria sido fruto das circunstâncias criadas pelo rei e pela aristocracia.

Se Aulard, assim, representava uma tentativa de institucionalização da Revolução, duas histórias erguem-se contra ele. Augustin Cochin (1876-1916), autor de a Crise de l’histoire révolutionnaire, Taine et M. Aulard, publicado em1909, utilizando-se dos métodos sociológicos modernos, mostra uma revolução que não é fruto nem de uma conspiração, nem das circunstâncias, mas da tirania impessoal das “sociedades de pensamento”, que manipulam e enganam o verdadeiro povo.

Com impacto mais efetivo que Cochin, Jean Jaurés (1859-1914), em sua História Socialista da Revolução Francesa, tornou-se o primeiro expoente do que depois será a historiografia jacobina: entre a Revolução Francesa de ontem e a revolução socialista de amanhã há uma filiação direta e positiva. Modelo de tomada de poder por uma classe, a Revolução Francesa é um ensinamento vivo para classe operária. Robespierre, volta ao centro dessa história: “estou com Robespierre e é a seu lado que vou me sentar entre os jacobinos”, diz, em oposição à Michelet. As reformas sociais dos jacobinos, nesse sentido, eram mais democráticas que o voto censitário dos grupos girondinos.

Georges Lefebvre (1874-1959) assumiu em 1937 a cátedra de Revolução Francesa e tornou-se, o principal historiador do assunto na primeira metade do século XX. Ele, a um só tempo, demonstrou a venalidade de Danton e desmentiu o “socialismo” dos robespierristas, os quais nunca se opuseram à propriedade privada. Com Lefebvre, que cunhou o termo “história vinda de baixo”, a tradição socialista enraizou-se na academia – a Revolução Francesa é como produto do conflito entre as forças de produção capitalista e as antigas relações sociais de origem feudal, em suma, entre nobreza e burguesia, nesse momento ainda aliada ao povo. Embora burguesa em seu sentido maior, dentro da Revolução Francesa estariam contidas várias outras revoluções (nobiliárquica, camponesa e das camadas urbanas).

A hegemonia desta visão jacobina sobre a Revolução Francesa foi tamanha que comemoração do sesquicentenário (150 anos) foi vista pelos mais conservadores como obra de “ateus e comunistas”. O governo de Vichy simpático ao fascismo, queimou todos os exemplares do 1789 de G. Lefebvre, e o Instituto de Internacional de História da Revolução Francesa se transferiu para os Estados Unidos durante a 2ª Guerra Mundial.

A tradição de G. Lefebvre foi perpetuada na França por Albert Soboul (1914-1982). Sua narrativa na História da Revolução Francesa[4]de 1984 , obra póstuma, é até hoje reproduzida de forma quase idêntica nos livros didáticos de ensino médio e fundamental no Brasil.  Na Inglaterra, tal visão foi sustentada por Richard Cobb (1917-1996) e George Rudé (1910-1993) e, na Itália, por Armando Saitta (1919-1991). Após a morte de Soboul, a cátedra da Sorbonne de Revolução Francesa é ocupada pelo ex-comunista Michel Vovelle (1933-2018), cuja pesquisa, original e altamente relevante, se concentrou no campo da história cultural ou das “mentalidades”.

Hegemonia Revisionista-Liberal (1964 -1989)

Na década de 1950 foi lançada uma obra que, nem revisionista, nem marxista, teria impacto imenso na historiografia em finais do século XX e início do século XXI: The Age of Democratic Revolution: A Political History of Europe and America, 1760-1800, de Robert Roswell Palmer (1909-2002), derivada de seus trabalhos com outro historiador, Jacques Godechot (1907-1989).

Para ele, as Revoluções Americana e Francesa possuem mais semelhanças do que diferenças, de modo que seus motivos centrais também estavam presentes na Grã-Bretanha, Irlanda, Holanda, Bélgica, Suíça, Alemanha, Hungria, Polônia, Itália, Espanha e Rússia.

A obra opunha-se tanto a uma historiografia nacionalista, que negava o caráter revolucionário da Independência das Treze Colônias (futuro Estados Unidos), quanto a uma historiografia marxista que reduzia o período revolucionário a uma “etapa” burguesa. Trata-se de um levante internacional fundamental para a construção das sociedades democráticas, e não mera antessala do socialismo. Por muito tempo, Palmer foi visto como um apologista da OTAN. Contudo, terminada a Guerra Fria, as noções de uma Revolução Transatlântica foram retomadas, de forma que as ideias essenciais da pesquisa de Palmer nunca foram tão estudadas quanto na atualidade.

Mas o debate na segunda metade do século XX foi dominado pela disputa entre marxistas e revisionistas, e a visão de Palmer – seu livro, infelizmente, não foi traduzido para o português ou para o francês – levaria mais algumas décadas para se impor. Duas obras, lançadas pouco depois do primeiro volume de Palmer, representam o tom do debate do período.

Em primeiro lugar, On Revolution (1961), de Hannah Arendt (1906-1975), exemplo mais radical de separação entre as Revoluções Norte-americana e Francesa. Para a autora, na Revolução Norte-americana, buscava-se a liberdade, isto é, participação nas coisas públicas, ao passo que na Revolução Francesa surgiu a noção de libertação, isto é, de que a Revolução e o Estado devem nos alforriar da necessidade. Segundo ela, quando a política é regida pela necessidade abre-se caminho para a tirania: “pode ser mais obsoleto do que a tentativa de libertar a humanidade da pobreza por meios políticos; nada pode ser mais inútil e perigoso”[5].

Em segundo lugar, Eric Hobsbawm (1917-2012) lançou o clássico A Era das Revoluções (1962), no qual, embora em perspectiva distinta à Arendt, enfatizava também a excepcionalidade da Revolução Francesa, vista por ele de forma muito semelhante a Lefebvre. Sem negar a importância fundamental do livro, é notória a desqualificação do levante das 13 Colônias (atuais Estados Unidos), completamente excluído de seu clássico conceito de “dupla revolução”, qual seja, de que a Revolução Francesa teria sido determinante para moldar a política contemporânea, ao passo que a Revolução Industrial inglesa teria sido sua base econômica.

François Furet: historiador referência entre os chamados “revisionistas” da Revolução Francesa.

Mas, não obstante a força da obra de Arendt, a alcunha de “pai do revisionismo” deve-se ao historiador britânico Alfred Cobban (1901-1968), The social interpretation of French Revolution, de 1964, seguido, principalmente, por Denis Richet (1927-1989) e François Furet (1927-1997), autor de A Revolução Francesa.

O revisionismo critica essencialmente a ideia de que a Revolução Francesa foi uma revolução social necessária ou “burguesa”, um passo inevitável no desenvolvimento histórico da sociedade moderna e a transferência de poder de uma classe para outra. A Revolução é, sobretudo, um fenômeno político-ideológico, um discurso a ser desconstruído.

O argumento revisionista é baseado em quaro pilares: 1. A teoria da elite: no final do Antigo Regime francês, mais do que luta de classes entre burguesia e nobreza, o que predominava era uma integração crescente entre ambas, a ponto de constituírem uma única elite de notáveis ilustrados. O conflito não era de classes, mas entre sociedade e Estado; 2. A derrapagem da Revolução: dada a crescente disfuncionalidade do Estado e sua incapacidade em se reformar, a elite recorre à Revolução (política, que é a primeira Revolução), mas com a entrada em cena das massas, a revolução vai sofrer uma derrapagem, um acidente de percurso, isto é, vai escapar ao controle dos notáveis. 3. O arcaísmo e o inconsciente sexual dos sans-culottes: as massas populares urbanas trouxeram à cena política sentimentos e comportamentos arcaicos, passadistas e violentos, alguns de origem sexual. 4. Não há unidade do processo revolucionário mas três revoluções, de forma que só a primeira (liberal e democrática) anuncia a sociedade do amanhã[6].

No contexto de crise do “socialismo real”, entre os anos 1970 e 1990, o revisionismo ganhou espaço. No segundo centenário da Revolução Francesa, foram escritos mais textos contra a Revolução do que a seu favor. Furet tornou-se nas palavras do, The Economist (24/12/88), o “rei do bicentenário”.                                            

A vivacidade da revolução francesa

Walter Benjamin nos disse que “a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de ‘agoras’.” A historiografia da Revolução Francesa, de forma bastante peculiar, sempre serviu aos mais diversos “agoras”, e também, claro, soube servir-se deles. Nos últimos trinta anos, como veremos na parte II deste artigo, não foi diferente. Tocqueville, por isso, continua tendo razão quando diz: “As grandes revoluções que são bem sucedidas (…) chegam a ser incompreensíveis justamente pelo seu sucesso.”

Notas

[1] FURET, François La gauche et la révolution au milieu du XIX siècle. Edgar Quinet et la question du Jacobinisme 1865-1870. Editora Hachette, Paris, 1986, p.7.

[2] Por exemplo, SERNA, Pierre, Comme des bêtes. Histoire politique de l’animal en Révolution (1750-1840), Paris, Fayard, 2017.

[3] Quando é utilizado o termo hegemonia (de hégémon, que designa liderança), não se pretende falar em totalidade, mas tão somente de predominância, levando em conta a circulação dos textos nos meios acadêmicos e educacionais. Cada uma dessas fases serão explicadas do ponto de vista histórico.

[4] SOBOUL, Albert.A Revolução Francesa. São Paulo: Difel, 2003.

[5] ARENDT, Hannah. Da Revolução.Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988, p. 90.

[6] FLORENZANO, M. ; Os Pes-De-Barro do Revisionismo. Novos Estudos, v. 47, p. 211-217, 1997.

Referências Bibliográficas

ARENDT, Hannah. Da Revolução.Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988.

FLORENZANO, M. ; Os Pes-De-Barro do Revisionismo. Novos Estudos, v. 47, p. 211-217, 1997.

FURET, François La gauche et la révolution au milieu du XIX siècle. Edgar Quinet et la question du Jacobinisme 1865-1870. Editora Hachette, Paris, 1986.

SERNA, Pierre, Comme des bêtes. Histoire politique de l’animal en Révolution (1750-1840), Paris, Fayard, 2017.

SOBOUL, Albert.A Revolução Francesa. São Paulo: Difel, 2003.

Daniel Gomes de Carvalho é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Professor do departamento de História da Universidade de Brasília (UnB) e atua na divulgação do conhecimento de humanidades para o grande público no canal Se Liga Nessa História.

Como citar este artigo

CARVALHO, Daniel Gomes de. A Revolução Francesa dos historiadores: os trabalhos que formaram o nosso conhecimento sobre o tema (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/historiografia-da-revolucao-francesa/. Publicado em: 6 out. 2019.

4 Comentário

  1. Texto muito bom, elucidativo. Nos mostra as abordagens dos muitos “agoras” vividos ao longo do tempo. Aliás, este é o papel da historiografia: levar a refletir sobre o a interpretação do fenômeno com os olhos daquele presente. Obrigado, professor Daniel, por nos presentear com esta discussão tão séria e oportuna!

  2. Muito bom o artigo. Como disse o historiador José Murilo de Carvalho, “não há nada que mude tanto como o passado”. Ou, então, a resposta (mal traduzida?) de Xou-En-Lai a Nixon, em 1972. Perguntado sobre o que achava dos “tumultos” na França, o líder chinês teria respondido: ” Ainda é cedo para avaliarmos”…

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