Gênero, “ética do cuidado” e neoliberalismo no meio acadêmico

A questão da “ética do cuidado” pode ser pensada dentro de uma chave feminista para enfrentar os desafios de um meio acadêmico cada vez mais pressionado pelo neoliberalismo.

Por Ester Conesa

T. diz que só mesmo tendo clones para participar de conferências, responder a e-mails e limpar a casa, tudo ao mesmo tempo. // K. fez terapia para administrar a ansiedade relacionada às pressões de ser líder de um grupo de pesquisa. // C. não tem certeza se deve se mudar com as crianças para fora do país, pois não parece claro que F. (seu/sua parceiro/parceira, um/uma cientista já estabelecido/estabelecida) possa lidar bem com as crianças. // B., bastante ansioso/ansiosa, está prestes a submeter três artigos e dois projetos, ao mesmo tempo, para sobreviver no meio acadêmico. // R. diz que “se o próximo passo na carreira tiver quer ser como sua vida de doutorando, prefere deixar o mundo acadêmico” // Mesmo com um brilhante currículo, S. conseguiu apenas um contrato temporário e malremunerado de docente, enquanto faz pesquisa por meios próprios.

Estas são apenas algumas das muitas e variadas experiências vividas por acadêmicos e acadêmicas atualmente. Claro que também há prazeres e recompensas no cotidiano de professores e pesquisadores. Mas o aumento das demandas de trabalho sob a justificativa de se ajustar às práticas competitivas de um “novo modelo de gestão” (“new managerial”)1 tem mudando as experiências e trajetórias daqueles que fazem parte do meio acadêmico.

Questões de gênero e neoliberalismo têm sido cada vez mais investigadas no âmbito acadêmico. Foto: Daria Nepriakhina / Unplash
Relação entre gênero e neoliberalismo têm sido cada vez mais investigadas no âmbito acadêmico. Foto: Daria Nepriakhina / Unplash

Professores e pesquisadores estão sendo cada vez mais pressionados por conceitos como “excelência”, encorajados a produzir mais “produtos acadêmicos contáveis por unidade de tempo pré-definida” (do inglês “countable academic outpu[s] per predefined unit of time”) 2 e a seguir indicadores supostamente objetivos. Sistemas de avaliação como estes são usados ​​para decidir desde a permanência no meio acadêmico até a promoção na carreira e a distribuição de financiamentos. Os acadêmicos, assim, estão presos a regimes de tempo que aceleram o ritmo de sua vida profissional.3 Além disso, muitos países europeus sofreram recentemente com cortes e redução dos direitos trabalhistas, inclusive em instituições científicas, tornando as condições de trabalho ainda mais difíceis. Em um ambiente com essas características, como a vida acadêmica continua sendo sustentável? Que modelo de ciência é este que estamos abraçando? E como a questão do gênero aparece nele?

A pressão desse novo regime de tempo tem atingido com mais força aqueles encarregados de cuidar das pessoas ao redor, quer na vida pessoal, quer na vida profissional. Devido a processos de construção social de gênero, essa função cuidadora é frequentemente assumida por mulheres. Embora este tipo de trabalho tenda a ser visto como um fardo e sem valor, a perspectiva da “ética do cuidado”4 o vê, na verdade, como um elemento central; estamos nos referindo aqui àquele conjunto de tarefas inevitáveis ​​que estruturam toda a nossa vida cotidiana. Mas como pode, então, uma “ética do cuidado” nos ajudar a olhar para o atual modelo científico?

Mulheres na academia, cuidado e o ideal “sem corpo”

Há uma vasta literatura especializada5 sobre a questão de gênero no meio acadêmico que mostra evidências de preconceitos contra as mulheres.6 O trabalho delas é frequentemente menos valorizado7 (mesmo quando elas têm o mesmo currículo que um homem8); elas são constrangidas em entrevistas com perguntas discriminatórias; elas tendem a trabalhar mais em meio-período, embora isso não seja levado em conta nas análises de currículo; e muitas vezes elas não são consideradas tão boas quanto os homens, ainda que produzam o mesmo ou mais que eles. Em geral, as mulheres tendem a encontrar mais dificuldades para crescer e precisam se esforçar mais dos que os homens, além de arcar com a função de cuidadoras que ainda desempenham mais (inclusive no meio profissional, dedicando mais tempo ao atendimento de estudantes e colegas, por exemplo). Talvez seja por isso que a promoção na carreira tenha se provado difícil ou até mesmo indesejável9, e mesmo aquelas mulheres que ocupam posições elevadas ou intermediárias têm menos parceiros(as) e/ou filhos(as) (porém, curiosamente, mais parceiros científicos) em comparação aos homens.10 Ainda que um modelo heteronormativo tradicional não seja algo defendido neste artigo, tais evidências nos ajudam a entender a importância do trabalho do cuidado em meio a condições frequentemente hostis.

Esse novo modelo de gestão da ciência com foco na produtividade nega ou torna invisíveis os aspectos do cuidado do trabalho e da vida fora do trabalho. Isso pode ser visto na crescente adoção de estratégias individuais de carreira11 e na instrumentalização de relacionamentos12. Adota-se um modelo profissional baseado no mérito pessoal e na competição, não levando em conta o trabalho cotidiano da academia e as complexidades de qualquer situação, posição ou instituição.

Isso pressupõe a figura de um ideal acadêmico incorpóreo ou “sem corpo” (disembodied)13, sem outras prioridades além do trabalho e que possui tempo ilimitado para melhorar o currículo e investir na construção de redes. Enquanto isso, outras responsabilidades, necessidades ou interesses, como práticas de cuidado ou compromissos sociais, tornam-se secundários ou inexistentes. Produzir publicações de alto impacto e garantir financiamento tornou-se quase o único foco no meio acadêmico.

Esses valores e práticas de origem neoliberal perpetuam o modelo masculino de “provedor” como o ideal de trabalhador bem-sucedido; esse modelo combina competitividade e agressividade com características de organizações e empresas consideradas de sucesso. Cria ema espécie de empreendedor acadêmico14 que apenas ajuda as universidades empreendedoras a escalar os rankings internacionais.

Adicionando medidas de austeridade ao ethos acadêmico neoliberal

Contribuindo para a complexidade desta situação, políticas de austeridade implementadas em tempos de crise exacerbaram e justificaram novos valores e práticas gerenciais. De um lado, o número de empregos e de trabalhos temporários cresceu, de outro, tem havido uma intensificação do uso de indicadores de “excelência”, bem como a pressão para se competir por financiamento de pesquisa externo e para se obter mais recursos privados, conforme sublinha o Observatory of University Funding States15. Os acadêmicos, portanto, estão “fazendo mais com menos”.16

Na Espanha, como em outros países, o congelamento de novas posições no mercado criou um gargalo para quem busca posições acadêmicas (já superando o processo de acreditação hiperburocratizado). Contratos temporários, de baixa remuneração e de meio período sustentam uma parte importante da carga de ensino nas universidades públicas. E enquanto cortava € 475 milhões em financiamento para a ciência, o governo declarou: “queremos apoiar apenas os projetos realmente competitivos que estão dando frutos”17. A situação não melhorou muito desde então, levando à chamada “fuga de cérebros” (embora o governo prefira agora classificar os pesquisadores no exterior como diplomatas18).

"Faça mais": produtividade no ambiente acadêmico tem mudado a rotina da produção cientifica em tempos de neoliberalismo. Foto: Carl Heyerdahl / Unsplash
“Faça mais”: produtividade no ambiente acadêmico tem mudado a rotina da produção cientifica. Foto: Carl Heyerdahl / Unsplash

As medidas de austeridade reforçam, assim, o ethos neoliberal do cientista incorpóreo, pronto para dedicar sua vida inteira ao trabalho, mesmo que esteja em condições precárias. Não importa como as vidas são sustentadas materialmente, emocionalmente ou familiarmente. Na Espanha, uma vez que os cortes também foram aplicados aos cuidados de saúde e sociais para pessoas idosas, pessoas com deficiências, crianças, etc., esse cuidado foi transferido para as famílias e, novamente, é assumido principalmente por mulheres19.

Ética do cuidado na academia pressionada pelo neoliberalismo

Numa perspectiva feminista da “ética do cuidado”, o cuidado é entendido como um processo complexo que torna a vida possível: “um tipo de atividade que engloba tudo aquilo que fazemos para manter e consertar o nosso ‘mundo’ para que possamos viver nele o maior tempo possível”.20 A abordagem da “ética do cuidado” coloca o cuidado no centro da vida, interagindo com esta noção de uma maneira política e filosófica.21

No contexto acadêmico, essa abordagem ajuda a tornar visíveis as relações de poder por trás do ideal masculinizado de autonomia e competitividade. Uma perspectiva de ética defende a ideia de interdependência e vulnerabilidade. Como abordagem analítica, oferece a possibilidade de se expor e de se estudar a questão de gênero no cuidado em suas múltiplas camadas: pessoal, coletiva, familiar, no local de trabalho, no nível de tomada de decisão, dentro das instituições etc. A ética do cuidado nos permite focar a dimensão temporal no ambiente acadêmico e a politização do sofrimento22 quando o cuidado é ausente, invisível, desvalorizado ou deslocado para as periferias dessas múltiplas camadas. Nesse sentido, Rosalind Gill23 e Mountz et al24. destacaram os “estados afetivos”25 prejudiciais e os “efeitos corpóreos ou materializados no corpo” (embodied) 26 causados ​​pela rápida academia neoliberal e suas relações de poder de gênero, classe, raça e outras variáveis. De fato, Mountz et al., que faz parte do Coletivo de Geografia Feminista dos Grandes Lagos, também defende a ética feminista do cuidado como uma forma de questionar a universidade neoliberal.

Como uma noção ética e política, a ética do cuidado também ajuda a pensar sobre responsabilidade. Nesse sentido, enquanto para alguns o uso da noção de cuidado pode reforçar relações de poder de gênero – uma vez que ainda é uma prática principalmente relegada a círculos privados e feminizados – neste contexto, ela é utilizada como meio de promover a politização do cuidado. Ou seja, para enfrentar sua distribuição desigual e colocar os processos que sustentam a vida27 em seu centro, a fim de deslocar um mundo centrado no lucro.28 Na academia, isso pode se referir não apenas aos processos de responsabilidade compartilhada em nível micro, mas também aos níveis governamentais e institucionais.29

O que está no centro da vida acadêmica e o que está na periferia? Quem é capaz de trabalhar 60 a 70 horas por semana para atender às expectativas acadêmicas empreendedoras? Qual é o papel das práticas de gênero na academia? Ou condições de trabalho prejudicadas? Como lidamos com eventos inesperados (isto é, acidentes, doenças, cuidados familiares) ou fazemos planos de vida sem segurança no emprego e em meio a pressões competitivas? Qual é o papel dos colegas ou grupo de apoio a redes, recursos e hierarquias no “modelo de sucesso na carreira”? Que modelo de ciência queremos? E para quem?

Notas

[1] DEEM, Rosemary. ‘New managerialism’ and higher education: The management of performances and cultures in universities in the United Kingdom. International Studies in Sociology of Education, v. 8, n. 1, pp. 47-70, 1998.

[2]MÜLLER, Ruth. Racing for What? Anticipation and Acceleration in the Work and Career Practices of Academic Life Science Postdocs. FQS: Forum Qualitative Social research. v. 15, n. 3, art. 15, set. 2014. Disponível em: http://www.qualitative-research.net/index.php/fqs/article/view/2245/3726. Acesso em 25 mar. 2019.

[3] VOSTAL, F. Accelerating Academia: The Changing Structure of Academic Time. Palgrave Macmillan UK, 2016; e FELT, Ulrike. More work is required to make academic “timescapes” worth inhabiting and to open up space for creative work. LSE Impact Blog. Publicado em 29/05/2017.

[4] Nota dos tradutores. Saiba mais sobre esse assunto em: HELD, Virginia. The Ethics of care: personal, political and global. New York: Oxford University Press, 2006.

[5] SAVONICK, Danica; DAVIDSON, Cathy N. Gender Bias in Academe: An Annotated Bibliography of Important Recent Studies. LSE Impact. Publicado em 08/03/2016.

[6] Nota dos tradutores. Ver também: https://www.cafehistoria.com.br/mulheres-pagam-preco-alto-pela-cidadania-academica/.

[7] WENNERÅS, Christine; WOLD, Agnes. Nepotism and sexism in peer-review. Nature, v. 387, n. 22, Macmillan Publishers, mai/1997.

[8] STEINPREIS, Rhea E.; ANDERS, Katie A.; RITZKE, Dawn. The Impact of Gender on the Review of the Curricula Vitae of Job Applicants and Tenure Candidates: A National Empirical Study. Sex Roles, v. 41, n. 7/8, Plenum Publishing, 1999.

[9] RAMOS, Ana M. González; BOSCH, Núria Vérges. International mobility of women in science and technology careers: shaping plans for personal and professional purposes. Gender, Place & Culture. A Journal of Feminist Geography. v. 20, n. 5, Taylor and Francis, 2013.

[10] BAKER, Maureen. Career confidence and gendered expectations of academic promotion. Journal of Sociology, v. 46, n. 3, pp. 317-334, The Australian Sociological Association (TASA), SAGE Journals, 2010.

[11] CLARKE, Caroline A.; KNIGHTS, David. Careering through academia: Securing identities or engaging ethical subjetivities? Human Relations, v. 68, n. 12, pp. 1865-1888, The Tavistock Institute, SAGE Journals, 2015.

[12] MÜLLER, op. cit.

[13] BAILYN, Lotte. Academic Careers and Gender Equity: Lessons Learned from MIT, Gender, Work, Organization, v. 10, n. 2, Blackwell Publishing, mar./2003.

[14] MÜLLER, op. cit.

[15] European University Association, Public Funding Observatory 2016 Report, out./2016.

[16] Ver: DEEM, op. cit. e HENKEL, Mary. Academic Values and the University as Corporate Enterprise. Higher Education Quarterly, v. 51, n. 2.

[17] VELA, Carmen [Secretária de Ciências]. Turn Spain’s budget crisis into an opportunity. Nature. Coluna World View. Publicada em 06/06/2012.

[18] MORO-MARTÍN, Amaya. How dare you call us diplomats. Nature. Coluna World View. Publicada em 14/03/2017.

[19] MUÑOZ, Lina Gálvez; MODROÑO, Paula Rodríguez. La desigualdade de género en las crisis económicas. Investigaciones Feministas, v. 2, Universidad Complutense, Madrid, 2011.

[20] ABEL, Emily K.; NELSON, Margaret K. (editoras) Circles of Care: Work and Identity in Women’s Lives. Nova York: State University of Ney York Press, 1990.

[21] TRONTO, Joan C. Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. Nova York, Londres: Routledge, 1993.

[22] PRÓLOGO: El malestar social en una sociedade terapêutica. Espai en Blanc, n. 1-2, 2006.

[23] GILL, Rosalind. Breaking the silence: The hidden injuries of neo-liberal academia. In: FLOOD, R.; GILL, R. (eds.). Secrecy and Silence in the Reasearch Process: Feminist Reflections. Londres: Routledge, 2009.

[24] MOUNTZ, Alison et al. For Slow Scholarship: a Feminist Politics of Resistance through Collective Action in the Neoliberal University. ACME: An International Journal for Critical Geographies, v. 14, n. 4, 2015.

[25] GILL, op. cit.

[26] MOUNTZ et al, op. cit.

[27] CARRASCO, Cristina. La sostenibilidad de la vida humana: un assunto de mujeres? In: LEÓN T., Magdalena. (org.) Mujeres y trabajo: câmbios impostergables. Porto Alegre: Veraz Comunicação, 2003. Coleção Grupos de Trabajo: Género.

[28] Ver: CARRASCO, Cristina; MAYORDOMO, Maribel. Beyond Employment: Working time, living time. Time & Society, v. 14, n. 2-3, pp. 231-259, Sage Journals, set./2005. E: OROZCO, Amaia Pérez. Subversión feminista de la economia. Aportes para un debate sobre el conflito capital-vida. Madrid: Traficantes de Sueños, 2014.

[29] CONESA, Ester. (Sem) Tempo para cuidar e responsabilidade. Das práticas neoliberais no meio acadêmico à responsabilidade coletiva em tempos de crise. In: RAMOS, Ana M. González; REVELLES-BENAVENTE, Beatriz. (eds.) Teaching Gender: feminist pedagogy and responsibility in Times of Political Crisis. Routledge, 2017.

Ester Conesa é doutoranda na Universitat Oberta de Catalunya (UOC). Seu trabalho sobre gênero e academia está voltado para o novo gerencialismo, precariedade, tempo, práticas de subjetivação, riscos psicossociais e ética do cuidado. Esses temas são desenvolvidos de forma aprofundada em seus trabalhos recentes: “Novo gerencialismo e austeridade no contexto acadêmico espanhol e europeu. Dois lados da mesma moeda?” (2018); “Pesquisadores acelerados: riscos psicossociais em instituições de gênero na academia” (2018)  e “(Sem) Tempo para cuidar e responsabilidade. Das práticas neoliberais no meio acadêmico à responsabilidade coletiva em tempos de crise” (2017). Conesa já trabalhou como assistente de pesquisa na Universidade Rovira i Virgili (URV) e tem um mestrado em Pesquisa em Psicologia Social na Universitat Autònoma de Barcelona (UAB), ambas na Espanha. Seu ORCID iD é 0000-0003-3781-5783.

Nota: Este artigo foi publicado originalmente no Blog LSE Impact, da London School of Economics com o título de “How are academic lives sustained? Gender and the ethics of care in the neoliberal accelerated academy”, via Creative Commons  Attribution 3.0 Unported License. Tradução: Bruno Leal e Ana Tavares

Como citar este artigo

CONESA, Ester. Gênero, “ética do cuidado” e neoliberalismo no meio acadêmico  (Artigo). Tradução de Ana Paula Tavares Teixeira e Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/etica-do-cuidado-neoliberalismo/Publicado em: 25 mar. 2019. Acesso: [informar data].

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