A “cultura da velocidade” no meio acadêmico

Como o ímpeto da velocidade no campo da pesquisa pode levar ao individualismo e influenciar na maneira como escolhemos nossas questões.

Neste artigo recentemente publicado em inglês no blog LSE Impact Blog, a pesquisadora Ruth Müller chama nossa atenção para os efeitos sociais e epistêmicos de uma “cultura da velocidade” existente hoje no meio acadêmico. A pesquisa de Müller analisa como essa cultura produziu dois modos específicos de se comportar e de se relacionar dos pesquisadores: o modo da “Aceleração Antecipatória” (Anticipatory Acceleration)  e o da “Individualização Latente” (Latent Individualization). Ambos podem ter efeitos significativos na maneira como escolhemos nossas questões de pesquisa e na forma como estruturamos nossas redes acadêmicas. Quem sai ganhando nessa corrida da qual participamos?

Por Ruth Müller, do LSE Impact Blog

Livre tradução: Ana Paula Tavares e Bruno Leal

No meio acadêmico contemporâneo, tal como nas sociedades industrializadas em geral, tornou-se quase inquestionável a ideia de que quanto mais rápido, melhor. Afinal, quem poderia se opor a obter mais conhecimento em menos tempo? As narrativas sobre o papel indispensável da ciência em nossa sociedade são quase sempre narrativas sobre uma necessidade urgente: precisamos entender mais para curar, prevenir, construir, superar, sobreviver.

Em particular, hoje, diante de desafios globais cada vez mais urgentes, tais como as mudanças climáticas, a rápida perda da diversidade ecológica e a crise econômica parece haver a necessidade de uma resposta instantânea – o progresso científico rápido é muitas vezes retratado como a única resposta possível. Um exemplo deste tipo de retórica são os documentos recentes da política científica da União Europeia, como o intitulado Horizonte 2020 (veja aqui). No entanto, ao mesmo tempo, algumas vozes na academia estão questionando se uma maior velocidade na ciência realmente nos ajudará a chegar aonde queremos ir.

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Aceleração ao tempo e produtivismo: fenômenos relacionados. Foto: Sonja Langford, Unplash

O meio acadêmico, segundo alguns argumentam, já está dominado por uma “cultura de velocidade” que, embora produza um número cada vez maior de publicações, não valoriza reflexões e raciocínios mais lentos. Os defensores de uma “ciência lenta” (slow science) se preocupam com o fato de que a ciência que opera sob as condições de uma aceleração constante pode até se mover rapidamente, mas o faz sem pensar e, portanto, não necessariamente em direção aos objetivos certos. “Tenha um pouco mais de paciência conosco enquanto pensamos”, disseram os autores do The Slow Science Manifesto (2010) (veja aqui) aos seus leitores, buscando enfatizar a necessidade de um pensamento lento e completo sobre metas, meios e processos para o bom avanço da ciência.

Meu interesse pela ciência lenta é acadêmico e pessoal. Baseia-se na minha pesquisa sobre como as estruturas de carreira e as condições de trabalho no meio acadêmico afetam as práticas de produção de conhecimento dos pesquisadores das chamadas “Ciências da Vida”. Comecei a empregar o termo “ciência lenta” em 2010, em conversas com Jenny Reardon, Jake Metcalf e Martha Kenney no Science & Justice Research Center, na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Embora o termo pareça ter surgido simultaneamente em diferentes contextos nacionais e intelectuais, recordo-me que ele foi inventado de forma bastante divertida e casual em uma conversa que tivemos com a pesquisadora acadêmica feminista de estudos de ciências Donna Haraway. Naquele contexto, ele surgiu como um possível antídoto para o frenesi da velocidade na academia contemporânea. Embora o termo “ciência lenta” possa abarcar muitas coisas diferentes – o que é tanto uma força como uma fraqueza –, no âmbito do meu trabalho, ele pode ser visto como uma síntese dos imaginários sobre uma contracultura que se opõe a uma atual cultura de pesquisa orientada para a obtenção de métricas rápidas, que tenho encontrado em minha pesquisa. Tal cultura parece adorar e recompensar a concorrência, a mobilidade, o individualismo e a velocidade acima de tudo; o que demonstra, conforme diz Barbara Adam, um “fetichismo de velocidade”.

No contexto das atuais culturas de avaliação acadêmica, o ritmo acelerado do trabalho acadêmico refere-se a um aumento da quantidade de produção acadêmica contável em um período de tempo definido, por exemplo, no espaço de um ano. Trata-se de dados obtidos, artigos escritos, volumes editados, propostas de financiamento enviadas às agências de fomento, palestras ministradas, alunos aprovados, etc. Embora a qualidade da produção seja certamente uma questão importante nas universidades, a questão da quantidade – a questão de “quantas atividades desenvolvemos em um dado tempo?” – está se tornando um critério de avaliação cada vez mais importante, particularmente no que diz respeito a questões de contratação de profissionais ou de progressão de carreira.

Em meu trabalho, examinei os efeitos desse foco no aumento do ritmo das atividades acadêmicas sobre as práticas de trabalho dos jovens pesquisadores das ciências da vida, particularmente pesquisadores de pós-doutorado. À luz da produção contável por unidade determinada de tempo, identifiquei dois padrões de comportamentos que parecem se destacar: “Aceleração Antecipatória” e “Individualização Latente”. Essas orientações temporais refletem modos mais amplos de sociabilidade que caracterizam as sociedades contemporâneas, baseados na “antecipação”, na “aceleração” e na “individualização”. Tais modos afetam profundamente o processo social e epistêmico do trabalho acadêmico. Embora esta análise seja baseada em pesquisas qualitativas nas ciências da vida, considero as ideias valiosas também para outros campos da academia.

Aceleração Antecipatória

Os jovens pesquisadores de ciências da vida frequentemente trabalham em modo de aceleração antecipatória. Eles aceleram suas práticas de trabalho não exatamente porque estão sob uma pressão concreta quanto ao seu tempo de produção (por exemplo, uma pessoa em outro lugar do mundo trabalhando exatamente no mesmo tópico ou a demanda de um prazo específico), mas principalmente (quase sempre) por conta de uma profunda orientação antecipatória, que sugere que não importa o quanto estejam fazendo atualmente, pode não ser o suficiente e ainda pode ser otimizado. A aceleração antecipatória deste tipo tende a privilegiar questões e abordagens de pesquisa previsíveis em termos de seus resultados – ou, para promover projetos com maior grau de incerteza epistêmica e, portanto, com maior potencial para a novidade – tende a demandar estratégias individuais de gerenciamento de risco altamente elaboradas e exaustivas. A aceleração antecipatória visa tornar o futuro mais controlável e, assim, melhorar a posição de alguém em uma competição intensa e ameaçadora. No entanto, os esforços para superar o medo por meio de um aumento do investimento muitas vezes falham. Em vez disso, as longas horas de trabalho e os altos riscos individuais geralmente levam a perspectivas estreitas sobre o futuro e um “ciclo vicioso” de dependência emocional e investimento no sucesso acadêmico.

Individualização Latente

Um segundo “modo de ser” recorrente que eu encontrei entre pesquisadores das ciências da vida é a “individualização latente”. Este termo tenta capturar como – sob a condição de alta mobilidade internacional, competição baseada em métricas e sua consequente aceleração antecipada – as tomadas de decisão de jovens pesquisadores em suas respectivas instituições e grupos também são quase sempre profundamente influenciadas tendo em vista um futuro individual, isto é, o futuro eu do pesquisador que não fará mais parte desses contextos coletivos do seu eu presente. A palavra latente aqui utilizada descreve o estado de algo que ainda não existe no presente, mas que por já existir como um futuro provável, atua sobre o presente. Neste caso, é o futuro dos próprios pesquisadores, que terão que prevalecer em um mercado de trabalho acadêmico internacional por conta deles mesmos, o que se torna um ponto de referência crucial para as ações e decisões deles no presente.

Essa orientação para seus futuros individuais indica como os pesquisadores –  particularmente durante o período de um desafiador pós-doutorado –  se relacionam com suas instituições, grupos de pesquisa e colegas. Apesar da existência e do desejo de vínculos emocionais, como amizades e lealdade, essas redes também são muitas vezes recursos fundamentais para sua sobrevivência acadêmica. Assim, só é positivo fazer parte de um laboratório de pesquisa se viabilizar a produção de resultados amplos e de alta qualidade em um curto período de tempo. Uma colaboração só é desejável se garantir publicações de alto impacto ou em quantidade no próximo ano ou dois. Orientar um aluno só é aconselhável se as chances são de que a prática de orientação também produza a coautoria nos artigos do estudante. As necessidades do latente eu do futuro estão governando de forma decisiva o presente e, muitas vezes, tendem a tornar as relações sociais com indivíduos, grupos e instituições instrumentais e provisórias.

O que esta “Cultura da Velocidade” significa para o meio acadêmico

Ao caracterizar como o ritmo acelerado afeta o modo de ser e de se relacionar no meio acadêmico, quero chamar a atenção para os efeitos de uma “cultura da velocidade”. Se os pesquisadores precisam passar por um número crescente de avaliações com base na sua produtividade, vão desenvolver hábitos que lhes permitam lidar com essas demandas. A partir do que encontrei em minha pesquisa, acredito que isso pode significar uma redução da complexidade dos problemas de pesquisa e uma insistência em atender aos critérios de desempenho previamente definidos, ao invés dos critérios de originalidade. Além disso, tal fenômeno também pode promover um foco exaustivo em objetivos individuais e uma tendência a se instrumentalizar o “outro”. O primeiro pode ser uma ameaça à inventividade acadêmica; o segundo, por sua vez, pode ser uma ameaça para a coesão social, para o colegiado e para a troca de conhecimentos entre as instituições acadêmicas. Isso também pode levar a uma perda de propósito e aumento das frustrações entre os pesquisadores. Isso já é visível, na verdade. Muitos pesquisadores entram no campo da pesquisa acadêmica com um profundo fascínio pela exploração e pelo conhecimento, e pelo desejo de contribuir para o bem maior. Diante da cultura de aceleração baseada em métricas da academia contemporânea, muitos se perguntam: Cui boni currismus? – Em função de quem ou de que estamos correndo? Para nós próprios, em termos de nossas carreiras? Para a ciência? Para a economia? Para bem público? Por enquanto, podemos responder tais questões e suas alternativas somente de forma provisória e não sem despertar algum cinismo. No entanto, isso mostra que é hora de nos colocarmos estas questões.


Ruth Müller é professora assistente de Política de Ciência e Tecnologia no Munich Center for Technology in Society (MCTS) na TU München. Ela é também pesquisadora no campo interdisciplinar de Estudos de Ciência e Tecnologia (STS), com foco em biologia molecular (MSc) e sociologia (PhD). Entre seus interesses de pesquisa estão o estudo das interações entre a política científica, as normas e valores institucionais e a produção de conhecimento acadêmico; desenvolvimento de carreira acadêmica; e a sociologia e epistemologia das ciências da vida e da biomedicina.


Como citar esse artigo

MÜLLER Ruth. A “cultura da velocidade” no meio acadêmico (Artigo). Tradução de Ana Paula Tavares Teixeira e Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/cultura-da-velocidade/. Publicado em: 25 Set. 2017. Acesso: [informar data].


Este artigo foi traduzido a partir da liberdade de edição conferida pelo Creative Commons do LSE Impact Blog e é parte de uma série intitulada Accelerated Academy (veja mais aqui), além de baseado em dois artigos da autora, que podem ser conferidos aqui e aqui.

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