“Vida Privada”: um suspense investigativo que se ancora em sua protagonista

20 de agosto de 2026

Em quase cem anos de história do Oscar, apenas três filmes ganharam os prêmios “Big Five”, consideradas as cinco mais importantes categorias da premiação: Melhor Ator, Atriz, Roteiro Original, Diretor e Filme. Os três filmes foram “Aconteceu Naquela Noite” (1934), “Um Estranho no Ninho” (1976) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991). Nesta última película, a ganhadora do Oscar de Melhor Atriz foi Jodie Foster. Nas décadas que se seguiram, ela continuou e continua uma figura frequente em produções de prestígio na televisão — como em “True Detective”, série pela qual ganhou um Emmy e um Globo de Ouro — e nos cinemas do mundo inteiro. Mais recentemente, pudemos vê-la falando francês em “Vida Privada”.

A psicanalista Lilian Steiner (Jodie Foster) fica sabendo do repentino falecimento de uma de suas pacientes, Paula (Virginie Efira). É convidada pela filha de Paula para o funeral, mas, ao se apresentar, é expulsa da cerimônia pelo raivoso marido da falecida.

Logo depois, Lilian é procurada por Valérie (Luàna Bajrami), filha de Paula, que conta que a mãe se suicidou com overdose de remédios e deixou para a psicanalista uma mensagem: as palavras em alemão “kinder” (criança) e “tot” (morta) no verso de uma prescrição médica. Lilian fica intrigada.

Em seguida ao choque de perder a paciente, os olhos de Lilian começam a lacrimejar muito, sem razão aparente. Após feita uma investigação médica junto a seu ex-marido, o oftalmologista Gabriel (Daniel Auteuil), ela parte para terapias alternativas. Lilian vai então a uma hipnoterapeuta indicada por um de seus pacientes e ouve da mulher para não confundir “ceticismo com inteligência”. É curada na primeira sessão.

Lilian tenta seguir em frente, mas a vida tem outros planos. Ela tem seu carro riscado e seu consultório revirado. Ela tinha a excêntrica mania de gravar as sessões com os pacientes em fitas cassete, e uma das fitas das sessões de Paula some. De cara desconfia de Valérie, borderline, grávida e cuja vida esconde um segredo que poderia mudar tudo. Mas as certezas logo se dissolvem conforme Lilian e Gabriel investigam.

De atriz mirim a multiartista

Jodie Foster foi mais um exemplo de um fenômeno que o cinema permitiu como nenhuma outra arte: testemunhar o artista crescendo em frente às câmeras. Isso começou lá no cinema mudo: quem não se lembra do menininho traquinas que conquistou o mundo e o coração de Carlitos em “O Garoto” (1921), de Charles Chaplin? Depois dele surgiram muitos, que, em geral, abandonavam a carreira no cinema quando cresciam. Shirley Temple alegrou multidões na Grande Depressão, mas cresceu e virou até embaixatriz. A lista é longuíssima.

Conhecemos Jodie Foster através de filmes para toda a família que protagonizou no começo dos anos 70. Sua maturidade, ainda que precoce, no cinema veio em 1976, quando fez “Quando as metralhadoras cospem”, uma sátira aos filmes de gângster, e “Taxi Driver”, a visceral obra-prima de Martin Scorsese, na qual interpretava uma prostituta adolescente que Travis Bickle, o motorista de táxi interpretado por Robert De Niro, quer salvar. Como sua personagem, Jodie nunca precisou ser salva.

Ela aprendeu francês na adolescência e aproveita sua fluência no idioma para dublar suas personagens para o mercado cinematográfico francês, além de participar de produções como “Vida Privada”. Além de atriz, diversificou sua carreira indo para trás das câmeras ainda nos anos 80 e dirigiu na última década vários episódios de séries.

As polêmicas e alternativas da psicanálise

A psicanálise tem graus de aceitação dependendo do país. Na França, onde se passa o filme, psicanalistas não têm permissão para receitar remédios, assim como no Brasil. O filho de Lilian, Julien (Vincent Lacoste), diz que o que a mãe faz no consultório é tudo papo furado. Para alguns, ele tem razão: as teorias e técnicas estabelecidas por Sigmund Freud têm muitos críticos e detratores.

A hipnoterapeuta que Lilian encontra acaba levando-a a uma viagem por suas vidas passadas, na qual descobre que já conheceu e foi íntima de Paula em outra existência. Os efeitos da hipnose podem ser sentidos mesmo escutando a gravação da sessão, e é assim que Lilian faz novas descobertas. Muitas vezes, como para o paciente de Lilian, a hipnose é tida como alternativa à psicanálise, mas também tem sua validade disputada em debates calorosos.

Não há consenso em muitas áreas, mas na crítica cinematográfica podemos chegar a um: “Vida Privada” é um thriller que emociona e engaja, mas que acaba de maneira morna, quase anticlimática. Mas a interpretação de Jodie Foster é, sem dúvida, o maior trunfo deste filme.

Letícia Magalhães

Letícia Magalhães

Historiadora e crítica de cinema. Contribuiu com sites como Filmes e Games e Leia Literatura. Mantém desde 2010 o blog Crítica Retrô, sobre filmes clássicos e antigos, e contribui para os sites Revista Eletrônica Ambrosia e Cine Suffragette, no qual é também editora. Foi vencedora do prêmio do Collegium do Festival de Cinema Mudo de Pordenone em 2021, escrevendo sobre o que mais gosta: cinema e história.

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