“A Odisseia”: impossível negar a grandiosidade

Christopher Nolan sempre foi um diretor fascinado por homens tentando chegar a algum lugar. Às vezes esse lugar está no passado, às vezes no futuro e às vezes, na própria cabeça.
18 de agosto de 2026
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A Odisséia está em cartaz nos cinemas brasileiros. Foto: reprodução.

Confesso que entrei para assistir A Odisseia com uma mistura de expectativa, esgotamento e desconfiança. Expectativa porque estamos falando de Christopher Nolan adaptando uma das histórias mais antigas e influentes da literatura ocidental. Desconfiança porque, quando um diretor como ele coloca as mãos em uma obra que já tem quase três mil anos de idade, existe sempre o risco de a adaptação deixar de ser uma interpretação e ser simplesmente “um filme de Christopher Nolan baseado em Homero”. Esgotamento porque confesso que a duração de quase três horas, hoje em dia, me cansa.

É impossível negar a grandiosidade de A Odisseia do Nolan. É impossível não ficar impressionado com a escala, com as imagens, com a sensação de estar diante de um cinema que realmente quer ser visto na maior tela possível, e, portanto, cobra de nós e foi filmado em IMAX. Mas o que me interessa, de verdade, é raramente o tamanho da produção.

Aqui, já nos meus primeiros parágrafos, tenho que admitir que, por trás de todo esse espetáculo, Nolan encontrou em Homero uma história que combina um tanto com suas obsessões. Temas como tempo, memória, guerra, culpa, identidade e, acima de tudo, a dificuldade de voltar para casa. E tudo isso encenado da forma mais megalomaníaca possível.

Onde Homero encontra Nolan

A primeira coisa que acho importante dizer é que podemos esperar encontrar aqui uma adaptação literal, ou fiel, de A Odisseia original. O poema de Homero não é uma aventura tão linear como muitos imaginam. A história basicamente começa quando Odisseu já está desaparecido há anos. Telêmaco está tentando entender o pai que praticamente virou uma lenda. Penélope precisa lidar com um mundo que não sabe se o marido está vivo. E o próprio Odisseu, quando finalmente aparece, carrega consigo histórias que precisam ser contadas. Temos uma narrativa sobre memória antes mesmo de uma sobre viagem.

Nolan reorganiza a história de acordo com a sua própria linguagem e transforma a jornada em algo muito espetacular. Não estou dizendo que ele abandona Homero, mas os pontos de contato direto são mais raros do que eu gostaria. Odisseu deixa de ser apenas o grande herói grego e é um homem sisudo, tentando compreender o que a guerra fez com ele.

A grande questão de A Odisseia não é se Odisseu vai conseguir voltar para casa. É se sua casa ainda significa a mesma coisa para ele depois de tudo o que aconteceu em sua jornada.

O elenco de altos e baixos

Matt Damon é uma escolha que até funciona melhor do que eu esperava — eu não esperava muito. Sabidamente, Odisseu precisa ser um homem inteligente, estrategista, carismático e, principalmente, humano. Não adianta transformar o personagem simplesmente em um guerreiro musculoso, porque esse nunca foi o grande diferencial dele. Odisseu vence pensando e utilizando malandragem. Porém, na versão do Nolan, infelizmente, a leveza foi completamente deixada de lado. Damon até consegue transmitir essa inteligência sem transformar o personagem em alguém arrogante o tempo inteiro. Mas ele é um herói exausto. Esse não é um herói que está começando uma aventura, e sim um homem que já passou por uma guerra.

Anne Hathaway como Penélope, a esposa abandonada e deixada à mercê de pretendentes que a sobrevoam como aves de rapina, tenta fazer o que consegue com o roteiro. Entendi que a ideia era não transformar a personagem simplesmente na esposa que espera. Porque Penélope nunca foi uma personagem passiva. Ela é uma mulher tentando preservar sua casa, sua posição e sua família em uma situação em que praticamente todos ao seu redor acreditam que o marido não vai voltar. O drama aqui é grande e beira o novelesco. Anne utiliza de todos os artifícios, mas nos passa a ideia de seu desespero, infelizmente acaba cometendo o exagero.

Já o nosso Homem-Aranha Tom Holland, como Telêmaco, filho de Odisseu e Penélope, tenta descobrir quem é seu pai e se ele está vivo. Enquanto Odisseu tenta voltar para casa, Telêmaco tenta buscar uma conexão emocional com o pai. Sabemos que A Odisseia não é apenas a história de um pai tentando encontrar o filho. Também é a história de um filho tentando conhecer o pai. Infelizmente, Holland não está no seu melhor momento aqui. Sua atuação é insossa e muitas vezes inexpressiva, e isso tira muito o poder emocional de seu arco.

 A sempre maravilhosa Zendaya, como Atena, traz uma presença diferente, ela funciona como uma espécie de consciência de Odisseu e se sai bem no papel. Enquanto Robert Pattinson, para mim um dos destaques do filme, encontra em Antínoo um personagem que parece feito sob medida para essa fase mais excêntrica de sua carreira. Ele traz um mínimo de alívio cômico com seu personagem covarde. Outros trabalhos que conseguiram me fisgar foram os de Page como o guerreiro Sinon e John Leguizamo como o cego Eumeu.

Lupita Nyong’o, Charlize Theron e Samantha Morton completam um elenco que impressiona muito mais pela quantidade de talentos reunidos do que pela qualidade dos textos que elas entregam. E digo isso com o coração pesado — Nolan mais uma vez nos prova que tem dificuldade na criação de personagens femininas interessantes e com profundidade. Morton até consegue dar intensidade à sua Circe, mas Lupita e Charlize estão apagadas.

E, para mim, aqui chegamos ao maior problema do filme do Nolan — as suas representações femininas são apagadas e sem destaque ou beiram a histeria — como na participação de Mia Goth — enquanto as personagens masculinas possuem nuances.

Ele constrói mundos gigantescos com detalhes impressionantes, mas pecou na qualidade da direção das atrizes e no roteiro.

A mitologia como maior desafio

É aqui que A Odisseia de Nolan me decepciona mais uma vez. Senti falta justamente daquilo que torna o mito tão fascinante: o mistério. No mundo de Homero, os deuses não precisam ser explicados. Eles existem. Assim como os monstros, a ideia de destino e o sobrenatural são o tempero da história.

Nolan vem de um cinema em que quase tudo precisa obedecer a algum tipo de lógica interna. Mesmo quando trabalha com sonhos, viagens no tempo ou buracos negros, ele procura estabelecer regras. Nolan é um perfeccionista matemático e lógico, e fica faltando explorar o onírico e o fantástico, que também são partes fundamentais de mitos.

O diretor começa a procurar uma explicação humana para aquilo que o poema apresenta como mito. E isso nem sempre é a escolha que eu gostaria de ver. Existem histórias que perdem um pouco de sua magia quando tentamos explicar demais. E A Odisseia é uma delas.

Talvez seja justamente nesse ponto, com a fraca representação feminina, que eu mais sinto a presença de Nolan e, ao mesmo tempo, mais sinto a ausência de Homero. Homero aceita o mistério. Nolan quer entender o mistério.

De Kirk Douglas a Christopher Nolan

Também é impossível assistir ao filme sem lembrar de tudo que já foi feito com essa história. A versão de 1954, com Kirk Douglas, é um épico clássico, colorido, grandioso e muito mais preocupada com aventura e espetáculo. A adaptação de 1997, estrelada por Armand Assante, pertence à tradição das grandes produções televisivas dos anos 1990 e aposta superficialmente na fantasia e na aventura.

Mas, para mim, a comparação mais interessante continua sendo com E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? dos irmãos Coen. Porque os Coen fizeram uma coisa que Nolan não faz: eles abandonaram completamente a aparência de A Odisseia para preservar sua alma. Eles pegaram os personagens, as situações e os arquétipos de Homero e colocaram tudo no sul dos Estados Unidos durante a Grande Depressão. E isso funciona muito porque se distancia de possíveis comparações. Os Coen não querem “melhorar ou reinventar” Homero, eles o subvertem, e isso funciona muito bem. Já Nolan quis manter o mundo mítico, os personagens e a dimensão épica, mas tenta reinterpretá-los com sua linguagem cinematográfica contemporânea.

Eu esperava que The Odyssey fosse principalmente um espetáculo. E ele é. Principalmente se seguida a indicação de Nolan de assisti-lo em salas IMAX. Confesso que em alguns momentos o som incomodou pelo seu volume ou pelas misturas de texturas sonoras. E foi isso que ficou comigo depois da sessão. Odisseu é um personagem complexo e não somente sofrido e melancólico, e esse estreitamento de seu espectro deixa o filme superficial. A viagem de Odisseu não é apenas geográfica, ela é emocional. Ele está tentando atravessar o espaço, mas também está tentando atravessar o tempo.

E o que mais me intriga é que os filmes de Nolan buscam esse autoconhecimento, buscam profundidade filosófica: em Interestelar existe a distância entre pais e filhos, em Dunkirk existe a sobrevivência, em Oppenheimer existe a culpa e no maravilhoso Memento existe a (falta da) memória. Percebemos que em A Odisseia o diretor até tenta combinar diversos desses aspectos, mas o roteiro e os fogos de artifício nos abandonam no meio dessa jornada.

Sei que não existe uma adaptação definitiva de uma história que atravessou quase três mil anos. O que existe é uma interpretação. E a interpretação de Nolan é grandiosa, ambiciosa e tecnicamente impressionante. Mas também é um filme que às vezes parece tão preocupado em transformar Homero em Nolan que acaba esquecendo que Homero já era suficientemente extraordinário.

Após assistir ao filme, tive vontade de reler Homero. Tive vontade de rever as versões antigas. Tive vontade de comparar Odisseu com todos os outros homens que o cinema já transformou em heróis e que nele tiveram sua origem. E, para mim, quando uma adaptação provoca esse tipo de vontade, alguma coisa deu certo, mesmo que indiretamente. A Odisseia continua sendo a mesma história: um homem parte para a guerra, o mundo muda, ele muda, mas tudo o que ele quer é voltar.

Talvez seja por isso que, quase três mil anos depois, ainda continuamos acompanhando Odisseu. Porque, no fundo, todos sabemos o que significa ter que procurar um caminho de volta.

A Odisseia está em cartaz nos cinemas brasileiros.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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