Lançado em 18 de março deste ano e dirigido por Xavier Giannoli, que também assina o roteiro, “Os Raios e as Sombras” (Les Rayons et les Ombres) chama a atenção pelo sucesso de crítica e bilheteira ao trazer para as telas a Paris dos primeiros meses da ocupação nazista, em maio de 1940.
Colaboracionismo, ambição e traição atravessam as trajetórias de Corinne Luchaire, vivida por Nastya Golubeva Carax, e de seu pai, o jornalista Jean Luchaire, interpretado por Jean Dujardin. Ambos os personagens permitem observar as ambiguidades de uma sociedade na qual a guerra e a ocupação da França não interromperam completamente a vida cotidiana, ao menos não aquela que constituía uma vida cultural e intelectual.
Com pouco mais de três horas de duração, o filme desperta sentimentos e sensações que, embora não sejam novos na experiência histórica, passaram a ser interrogados com maior profundidade no pós-Segunda Guerra Mundial e assumem particular urgência na contemporaneidade. Culpa, vergonha, constrangimento e responsabilidade histórica constituem questões que ultrapassam o acontecimento histórico em si e alcançam as formas pelas quais sociedades posteriores lidam com experiências de violência, colaboração e conivência. Num contexto marcado pela escalada do negacionismo, tais questões tornam-se ainda mais sensíveis quando associadas aos debates contemporâneos sobre memória, reparação, responsabilização por crimes de guerra e migrações forçadas.
São questões socialmente vivas, isto é, temas que não permanecem confinados ao passado, mas continuam produzindo disputas. A colaboração francesa durante a ocupação é um desses temas, uma vez que não diz respeito apenas àquilo que aconteceu entre 1940 e 1944, mas também às maneiras pelas quais indivíduos, grupos e sociedades posteriormente elaboraram (ou recusaram) responsabilidades diante daquele passado.
Talvez seja essa uma das dimensões mais incômodas do filme, a representação de uma ocupação que, para determinados segmentos da sociedade francesa, não significou a suspensão da vida cotidiana. A aparente normalidade, portanto, não se apresenta como ausência da guerra, mas como uma de suas experiências possíveis.
A esse respeito, a análise de Gilbert Joseph sobre a vida de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir na França ocupada é particularmente sugestiva. O historiador e romancista chama atenção para o fato de que ambos continuaram dedicando-se às suas carreiras literárias, às relações amorosas e à consolidação de suas credenciais intelectuais, desfrutando, em certa medida, de uma vida que não correspondia à imagem imediatamente associada à experiência de uma França sob ocupação. Então, caberia questionar as formas de normalidade produzidas em meio à violência e quais sujeitos podiam experimentá-las.
É nesse ponto que a culpa deixa de ser apenas uma experiência individual e adquire uma dimensão histórica. O desconforto provocado pela aparente normalidade da vida durante a ocupação não decorre somente daquilo que os personagens fizeram, mas também daquilo que sociedades posteriores fizeram e continuam a fazer com esse passado. Afinal, quando os protagonistas de uma experiência histórica já não estão vivos, quem pode assumir a responsabilidade por ela? E, mais difícil ainda, quem pode pedir perdão?
Retomando Robert R. Weyeneth, qualquer diálogo sobre reconciliação histórica envolve, em princípio, dois movimentos relacionados, mas não equivalentes: o pedido de desculpas e o perdão. De um lado, encontram-se indivíduos, instituições ou sociedades que, no presente, reconhecem-se como responsáveis, ainda que apenas de maneira temporalmente remota, por uma injustiça cometida no passado. De outro, encontram-se aqueles que sofreram essa injustiça e que, em alguma medida, poderiam responder a esse reconhecimento por meio do perdão.
O problema se torna particularmente complexo quando o intervalo entre passado e presente é marcado pela morte dos próprios sujeitos envolvidos. Podemos pedir desculpas pelos mortos e até mesmo aos mortos, mas definitivamente não podemos, entretanto, receber deles o perdão; então o que resta é a impossibilidade de uma reconciliação completa.
A reflexão de Weyeneth permite deslocar a pergunta suscitada pelo filme. Não se trata apenas de saber quem foram os colaboradores ou de estabelecer, retrospectivamente, uma escala de culpa entre aqueles que viveram sob a ocupação. Trata-se também de compreender como esse passado foi posteriormente transformado em objeto de responsabilização, memória e, eventualmente, reconciliação.
Les Rayons et les Ombres então promove um encontro passado e presente, pois não se limita apenas a uma representação da França ocupada, mas como uma obra produzida no presente que participa da contínua elaboração de uma experiência histórica ainda capaz de provocar constrangimentos, incômodos.
É justamente aí que a noção de tema sensível ganha força. O que torna a colaboração um tema sensível não é somente a violência de que ela participou, mas o fato de que ela continua a mobilizar julgamentos, silêncios, disputas de memória e diferentes formas de responsabilização.
Resta, portanto, aos vivos, o trabalho de elaborar esse passado, reconhecer suas violências e disputar os sentidos que ele assume no presente. Quanto a nós, historiadores, retomo Durval de Albuquerque Junior, quando compreende que “a História é uma forma de luto. A historiografia tem uma relação direta com a morte e com o luto. Somos profissionais do luto, fazemos o luto social, coletivo e tentamos dar aos corpos uma nova presença, uma nova função. Os mortos vêm, mas não como foram, mas como queremos; precisamos que eles venham, como o presente precisa que eles voltem”.