Cientista político destaca paradoxos históricos da política externa russa

De acordo com Guilherme Casarões, da FGV/EAESP, guerra contra a Ucrânia demonstra alguns “paradoxos da visão russa de mundo”.

Ucrânia é um dos países que faz fronteira com a Rússia. Foto: tetracarbon /unplash.

Na última terça-feira, 23 de fevereiro, forças militares russas invadiram diversas províncias do território ucraniano, iniciando uma guerra que vinha sendo especulada desde março de 2014, quando os russos anexaram a Criméia à Federação Russa. A animosidade entre os dois países recrudesceu nos últimos meses com a possibilidade de a Ucrânia passar a integrar a OTAN, mas questões históricas também ajudam a entender as tensões. Em discurso divulgado na última segunda-feira, Vladimir Putin afirmou: “Quero sublinhar de novo que a Ucrânia não é apenas um país vizinho para nós. É uma parte inalienável de nossa história, cultura e espaço espiritual”.

Nesta quinta-feira, o cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV/EAESP e colaborador do Café História, publicou um fio em sua conta no Twitter no qual discute alguns paradoxos “da visão russa de mundo”, que reproduzimos a seguir, com a autorização de Casarões:

1) O primeiro deles é que a Rússia tem um território enorme (2x o brasileiro), mas se sente extremamente vulnerável na sua fronteira ocidental. Ali é onde se concentra a maioria de sua população e ali é onde a Rússia foi invadida 3 vezes nos últimos 2 séculos. O custo humano dessa vulnerabilidade sempre foi imensurável.

2) Para lidar com o temor permanente, os russos sempre buscaram uma “zona de proteção” a oeste. Durante a Guerra Fria, contavam com os países do Pacto de Varsóvia e com as repúblicas soviéticas, que os mantinham relativamente afastados de um confronto terrestre com os Estados Unidos, a maior potência militar do último século. Com o fim da Guerra Fria e americanos e europeus ampliando sua influência via UE-OTAN, cada passo deles rumo ao leste europeu tornava a Rússia mais reativa, especialmente porque as maiores expansões militares do ocidente se deram em momentos de fraqueza político-econômica russa. Como toda grande potência, a Rússia não hesita em sacrificar a soberania dos vizinhos mais fracos para garantir a sua própria. Esse é o segundo paradoxo.

3) Por fim, a estratégia de desestabilização da Ucrânia (e da Geórgia, em 2008), que envolve o reconhecimento de republiquetas separatistas como forma de ampliar a presença política e militar russa antes de recorrer a uma operação formal de guerra contradiz a política interna russa frente aos seus próprios grupos separatistas, frequentemente chamados de terroristas e reprimidos de maneira brutal

4) Tem um último ponto que me ocorreu. A Rússia é a maior potência continental do globo, mas seus interesses estratégicos limitam-se, em larga medida, ao seu entorno geográfico. Ao contrário de alguns analistas, não creio que a Rússia tenha pretensões de dominação/hegemonia mundial.

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

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