Borba Gato e o passado colonial brasileiro

Disputas de memória e narrativa ao redor da figura dos bandeirantes paulistas ajudam a revelar as dimensões ainda vivas do passado.

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Monumento de Borba Gato em chamas em São Paulo, 2021. Foto: Rafael Vilela/Mídia Ninja .

Na tarde do dia 24 de julho, último sábado, a estátua em homenagem a Borba Gato, localizada em Santo Amaro, zona sul da cidade de São Paulo, foi incendiada por um grupo de manifestantes com o auxílio de pneus. Para compor o ato, hastearam uma bandeira com os escritos: “Revolução Periférica – a favela vai descer e não vai ser carnaval”. Mas, afinal, quais os sentidos de reivindicar uma Revolução Periférica aos pés de Borba Gato? Quem foi esse sujeito histórico e por que as memórias por ele evocadas são simbolicamente queimadas por manifestantes da periferia?

De acordo com a pesquisadora Márcia Maria Costa, em sua dissertação de mestrado, a família Borba Gato originou-se nos Açores, arquipélago português. Manoel de Borba Gato, homenageado pela estátua incendiada, teria nascido quando sua família já residia no Brasil, na região de Santo Amaro, no ano de 1649. Quando jovem, casou-se com Maria Leite, filha do famoso bandeirante Fernão Dias Paes, com quem teve três filhos.

Os ditos “bandeirantes” eram chamados em sua época de “paulistas”, amplamente conhecidos por terem expandido as fronteiras da então Colônia Portuguesa para além do Tratado de Tordesilhas. Agiram principalmente ao longo dos séculos XVI ao XVIII.

Borba Gato teria seguido, então, os passos de seu sogro e se dedicado às mesmas empreitadas das bandeiras. Costa afirma que após ter sido um dos responsáveis pela morte de um funcionário da Coroa portuguesa enviado à América, Borba Gato precisou manter-se afastado no interior para não sofrer punições.

Ainda segundo a pesquisadora, Gato teria descoberto uma mina de ouro ‒ possivelmente em detrimento de sua aproximação com populações indígenas no período de refúgio ‒ e compartilhou a localização da mina com a Coroa em troca do perdão pela morte do funcionário português. Após o perdão, segundo estudos realizados pela pesquisadora, Borba Gato recebeu boas quantidades de terra, exerceu funções administrativas, recebeu da Coroa a patente de Guarda-mor de distrito e chegou ao cargo de juiz ordinário. Faleceu no ano de 1734, na idade aproximada de 85 anos.

O monumento em homenagem a Borba Gato foi inaugurado em 1963, obra do escultor Júlio Guerra. O seu incêndio gerou um intenso debate sobre a vida de Gato, especialmente se ele teria ou não escravizado indígenas ou negros africanos. Mas o ato do grupo “Revolução Periférica” tem menos a ver com Borba Gato em si e muito mais com o grupo que ele representa, isto é, os “bandeirantes”, que estiveram à frente de diversas ações de escravização. Trata-se também, em um sentindo mais amplo, de uma agressiva crítica ao colonialismo e a sociedade que produziu a homenagem.    

O mito dos “bandeirantes”

Ao longo do século XX, a história tradicional contribuiu para a criação do “mito dos bandeirantes”. Esses usos políticos do passado serviram para que tais sujeitos históricos, também conhecidos como “antigos paulistas”, tivessem sua imagem valorizada como heróis responsáveis por desbravar o país e ampliar as fronteiras coloniais. No entanto, como apontam pesquisadores especializados no período, as ações desses bandeirantes envolveram escravização, e mesmo extermínio, de populações indígenas e destruição de quilombos.

O historiador Tiago Luís Gil, professor de Brasil Colonial do Departamento de História da Universidade de Brasília e coordenador do projeto “Atlas Digital da América Lusa”, contou ao Café História sobre a construção da imagem do bandeirante e algumas das razões pelas quais essa nomenclatura não é a mais apropriada:

Os apontamentos do professor Tiago Luís Gil contribuem para evidenciar os conflitos que envolvem tanto as memórias coletivas, quanto os usos políticos do passado. Afinal, enquanto a imagem de Manoel de Borba Gato serve aos membros das elites como um passado heroico, para grupos sociais minorizados no Brasil, como populações indígenas e quilombolas, sua figura remete à violência do movimento das bandeiras. Reflexo disso é o fato de a estátua de Borba Gato, localizada em Santo Amaro, ser constantemente ponto de manifestações populares. Desse ponto de vista, a maneira como os passados são reivindicados e rememorados no presente expressa distintos interesses e projetos de futuro.     

Thaís Pio Marques

Faz parte da equipe do Café História, onde realiza estágio voluntário. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante a graduação fez parte do Grupo PET Conexões de Saberes – Licenciaturas, voltado para a elaboração e desenvolvimento de Projetos pedagógicos interdisciplinares. Atualmente, organiza o perfil de Instagram “Poesia e oralidade”, onde compartilha textos breves sobre competições de poesia (slams) e seus participantes. O trabalho na rede social é
articulado aos estudos sobre História Oral e História Pública.

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