“A Vida Invisível”: a esperança do reencontro

Produção Brasil-Alemanha traz ótimas atuação, um Rio de Janeiro colorido dos anos 1940 e uma história de duas irmãs separadas pelos desencontros banais da vida.

Cena do filme “A Vida Invisível”. Foto: Divulgação.

Baseado no romance de 2016 “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, “A Vida Invisível” (Brasil/Alemanha, 2019) acompanha a trajetória de duas irmãs, Guida e Eurídice, que após serem separadas na juventude passam suas vidas nutrindo a esperança de um reencontro.

Eurídice, interpretada por Carol Duarte, é um prodígio do piano. Seu maior sonho é estudar em Vienna e ser pianista. Para a jovem tímida e insegura o instrumento é sua maior forma de expressão. Já Guida, brilhantemente incorporada por Julia Stockler, tem sede de vida, de experiências, e de viver um grande amor. Apesar da grande diferença entre seus temperamentos, as irmãs compartilham uma profunda admiração uma pela outra, dividem sonhos, segredos e desejos. São confidentes.

As moças são as únicas filhas do casal de imigrantes portugueses Manuel (António Fonseca) e Ana (Flávia Gusmão). Manuel tem uma padaria e é um pai extremamente rígido, já Ana é uma mãe amorosa, porém submissa às vontades do marido. A família vive em uma antiga casa com um jardim verdejante num Rio de Janeiro quente, úmido e colorido da década de 40. Eles levam uma vida pequeno burguesa com anseios pequeno burgueses – um casamento honesto para ambas as filhas com segurança material e netos como a natural consequência.

Quando Guida se apaixona e foge com um marinheiro grego a harmonia familiar se despedaça. Eurídice se sente abandonada pela irmã e sucumbe às pressões parentais para que se case com Antenor, interpretado por Gregório Duvivier. A partir daí as irmãs passam a trocar cartas, que nunca são enviadas pelos pais, compartilhando suas vivências e lamentando a ausência uma da outra. Guida volta ao Rio de Janeiro pouco tempo depois grávida e desiludida. Ao procurar socorro e apoio nos pais, encontra apenas uma porta fechada. Seu Manuel não aceita a filha prodiga e a informa que sua irmã está estudando música clássica em Viena. A partir desse momento temos a construção da dinâmica que define o resto da obra – duas irmãs que moram na mesma cidade, porém acreditando que a outra se encontra no além-mar.

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Cena do filme “A Vida Invisível”. Foto: Divulgação.

O diretor Karim Aïnouz já nos mostrou em “Madame Satã” (2002) a sua intimidade com a atmosfera carioca das ruas, de bairros como a Lapa, e da noite nos bares e boates do Rio na primeira metade do século XX. Em “A Vida Invisível” ele repete esse feito nos transportando para a rotina de suor, dor e prazer das mulheres marginalizadas pelo patriarcado brasileiro à época. O sofrimento transmutado em resignação. A dureza da labuta diária transformada em união e colaboração entre suas mulheres. Karim também assina o roteiro adaptado junto com Murilo Hauser e o filme é uma coprodução teuto-brasileira com uma parceria entre o Canal Brasil, Pola Pandora, Filmproduktions, RT Features e Sony.

Julia Stockler como a Guida é conduzida a nos mostrar tudo isso, e o faz com maestria e sentimento. Um contraponto à vida invisível da Eurídice que Carol Duarte interpreta com rigidez, desapego emocional e conformidade. Esse contraste entre as vidas das duas irmãs é a força motriz do filme. Carol e Julia conversam o tempo todo em seus pensamentos, Guida e Eurídice permanecem unidas mesmo quando a busca de uma pela outra não é frutífera.

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Cena do filme “A Vida Invisível”. Foto: Bruno Machado/Sony Pictures.

“A vida Invisível” é um romance transformado em filme que, apesar de suas mais de duas horas de duração, consegue nos prender a cada minuto pelo apelo onírico de seus sons e imagens e pelas atuações sensacionais da maioria do elenco onde temos, inclusive, uma Fernanda Montenegro no papel, mesmo que breve, da Eurídice em seus últimos anos. Mas sejamos honestos, alguns atores não estavam em seu elemento como, no caso, Gregório Duvivier no papel de Antenor, o marido insensível de Eurídice. Digamos que o Gregório, como ator dramático, é um excelente comediante. Seguindo a linha das pequenas críticas, não muito construtivas, a edição algumas vezes me pareceu equivocada e alguns cortes abruptos destoaram do ritmo da cena.

Mas dito isso, não é à toa que a obra foi a vencedora da mostra “Um Certo Olhar” do festival de cinema de Cannes em 2019. Certamente foi uma das melhores produções brasileiras do ano em questão e que, injustamente, não entrou para os selecionados ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar americano. Uma oportunidade desperdiçada, pois com “A Vida Invisível” temos o Rio de Janeiro da beleza e do caos colocado, mais uma vez, aos nossos pés. E a viagem, por essas águas, é bastante profunda.

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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