YouTube para historiadores

O Café História esteve na Campus Party 2017, em São Paulo, e conferiu algumas boas palestras sobre YouTube. Saiba porque a maior plataforma de vídeos da internet pode ser útil para historiadores(as) e quais são as melhores dicas para montar um canal bem-sucedido.

Por Bruno Leal Pastor de Carvalho

É inegável que o humor é dominante no YouTube. O comediante piauiense Whindersson Nunes, de apenas 22 anos, por exemplo, é um fenômeno de audiência. O canal dele no portal de vídeos do Google possui mais de 16 milhões de inscritos. É o canal com o maior número de inscritos do Brasil e um dos maiores do mundo. Nunes, contudo, não é o único. Grupos humorísticos como o Porta dos Fundos (13 milhões) e Parafernalha (8 milhões) também são extremamente populares. O que não falta atualmente no YouTube são canais de comédia que contabilizam milhões de visualizações a cada vídeo. Mas os canais de humor são os únicos a vingar na plataforma?

Plataforma do Google é o maior repositório de vídeos do mundo. Imagem: Bruno Leal.

A resposta é não. Embora fazer rir seja o principal negócio dos mais famosos youtubers brasileiros, é possível criar projetos bem-sucedidos em diversas áreas. A História é uma delas. E talvez seja uma das mais promissoras. Mas não bastam apenas boas ideias para montar um bom canal de história no YouTube. É preciso saber, por exemplo, onde se quer chegar com o canal, o público a ser alcançado, a linguagem certa, a estratégia correta para monetizar os vídeos e tornar o projeto sustentável. Neste sentido, as palestras sobre o YouTube ocorridas na Campus Party 2017 são valiosíssimas para historiadores (mas não apenas historiadores) que desejam se aventurar na área.

Criando um canal bem-sucedido

Uma das palestras mais interessantes do evento se chamou “Manual do Mundo: como sobreviver no Youtube”, dada por Iberê Thenório e Mariana Fulfaro, respectivamente, apresentador e produtora-executiva do canal Manual do Mundo, que contabiliza mais de 7 milhões de inscritos. [1] Thenório, que é jornalista, explicou que as pessoas em geral criam um canal no YouTube logo depois de terem uma ou duas ideias de vídeos muito boas. Isso, no entanto, não seria suficiente para construir um canal duradouro. Com apenas uma ou duas ideias, ele sublinhou, o canal tenderia a esmorecer em pouco tempo. Para ele, deve-se pensar no longo prazo. O ideal é ter pelo menos 50 ideias para justificar a abertura de um canal no YouTube. “E mesmo assim, isso acaba rápido”, alertou.

Em 2016, o “Manual do Mundo” produziu 214 vídeos. Para organizar tanto conteúdo, Thenório criou um documento na plataforma Google Docs para registrar toda boa ideia que lhe viesse à cabeça ou que surgisse nas reuniões de pauta do canal – realizadas diariamente. E mesmo com muito planejamento, não é difícil se perder em um mar de ideias. “Outro dia mesmo, em uma reunião de pauta, eu tive uma ideia de um vídeo que eu já tinha feito no início do canal e não me lembrava mais”, contou.

Thenório comentou que muita gente interessada em YouTube tem feito uma mesma pergunta para ele: qual câmera você utiliza? Essa seria, inclusive, uma das principais dúvidas de youtubers iniciantes. O jornalista explicou, então, que a câmera é menos importante do que as pessoas imaginam. Ele disse utilizar vários modelos: desde a câmera de um iPhone até uma câmera profissional de cinema, avaliada em mais de dez mil dólares. “O resultado, no fim das contas, é muito parecido, principalmente quando o vídeo é visto no celular”. Thenório destacou que o áudio é o que demanda mais atenção. Muita gente, segundo ele, desiste de ver um vídeo quando a gravação apresenta muitos ruídos ou interferências. Então, cuidar do áudio é mais importante do que cuidar da imagem. Além disso, Thenório deu várias outras dicas: fazer boas edições (ele sugere o uso do programa Adobe Premier), jamais utilizar conteúdos de terceiros sem autorização, fazer muitos takes, criar ótimas thumbails (aquelas miniaturas do vídeo, que são vitrine do canal), caprichar nos títulos, bloquear comentários ofensivos e fazer parcerias com outros canais.

Monetização no Youtube

O YouTube se tornou, como se sabe, um bom negócio para muita gente. Muitos canais não só pagam o seu custo de produção, mas também geram lucro. A questão, portanto, não é saber se é possível montar um projeto financeiramente viável, mas como fazer isso. Mariana Fulfaro, produtora executiva do “Manual do Mundo”, disse que o primeiro passo para youtubers deve ser obter um CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica). E isso não é difícil. A dica de Fulfaro é ser um Microempreendedor Individual, o chamado MEI. O processo é todo online e bastante fácil. Além disso, é barato. O detentor de um MEI paga por volta de 40 reais todo mês e tem direito a um faturamento anual de até 60 mil reais, o que dá uma média de 5 mil reais ao mês. Com isso, é possível emitir notas fiscais e ainda ficar em dia com os impostos. “O MEI”, explicou a produtora, “é fundamental para poder monetizar o projeto no YouTube, pois, dificilmente, empresas farão negócios com pessoas físicas.”

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Iberê Thenório fala sobre YouTube em sua palestra na Campus Party 2017. Foto: Bruno Leal

O tema da monetização, a propósito, foi assunto de uma palestra inteira da Campus Party, intitulada “Como eu comecei a ganhar dinheiro no YouTube a partir dos meus 500 inscritos”, do engenheiro Rafael Arty, de apenas 26 anos. O título é provocativo, pois muitos youtubers acreditam que para monetizar um canal é preciso ter milhares ou mesmo milhões de inscritos. Mas isso não é verdade. Arty, dono do canal O homem e a mudança, especializado em desenvolvimento pessoal, sugere que isso é um mito. Ele ressaltou que o número de inscritos não é tão importante assim. “O problema não é o seu número de inscritos. O problema é como você apresenta a sua marca”, sublinhou Arty diante de mais ou menos 200 pessoas que lotavam o palco Mídias Sociais da Campus Party.

Segundo Arty, cujo canal possui “apenas” 28 mil inscritos, é preciso valorizar e conhecer um pouco sobre os inscritos no canal. Quando se constrói uma relação de proximidade com o telespectador, disse o engenheiro, o engajamento com o canal aumenta e as marcas, que buscam canais com grande engajamento para anunciarem seus produtos, gostam disso. Ou seja: valeria mais a pena investir na qualidade da conexão com o público, ainda que este seja pequeno, do que no quantitativo das conexões. Números, por si só, não dizem muita coisa. Para ilustrar essa lógica, ele contou a história de como conseguiu vender a primeira palestra dele, quando tinha apenas 500 inscritos no canal:

– Eu encontrei o dono de uma empresa de TI e falei que eu queria dar um treinamento para os funcionários dele sobre desenvolvimento pessoal. Eu usei o meu canal do YouTube como case. Eu falei: “olha, eu tenho um canal no Youtube, ele tem 500 inscritos e lá eu consigo impactar muitas pessoas”. E o cara falou: “poxa, Rafa, 500 inscritos é muito pouco. Como você quer usar isso como case”. E eu falei assim pra ele: “quantas pessoas cabem na sua sala de treinamento?” Ele falou: “50”. Eu falei: “muito bem, eu impacto dez vezes mais”. O cara ficou tão sem graça, mas tão sem graça, que ele acabou contratando o meu treinamento. E depois disso eu dei mais três.

A dica de Arty é importante, pois mostra como o youtuber não precisa depender apenas da exibição de anúncios automáticos em seu vídeo, que só começam a gerar receita depois de muito tempo. Se o canal tiver consistência no conteúdo e engajamento significativo, as marcas podem anunciar seus produtos independente do número de inscritos. Isso, claro, depende do próprio esforço do youtuber, que não deve esperar a marca lhe procurar. Ele deve ir atrás das marca e mostrar o seu canal, explicar porque ele é bom e propor parcerias criativas.

Arty explicou, entretanto, que um canal do YouTube possui outras alternativas para fazer dinheiro que não a venda de produtos de terceiros. Uma delas, ele mencionou em sua palestra, é a venda de serviços. “Se você é um professor e tem um canal sobre História, por que você não vende aula por Skype para os seus alunos?” O mesmo valeira, por exemplo, para cursos, que também podem ser vendidos pelo canal.

Por fim, Arty ressaltou a importância de ter cartões de visita , de disponibilizar um Mídia Kit, de ter um site de referência, e-mail profissional e uma bio bem definida. Ele também destacou que canais especializados (ou nichados) possuem maior chance de sucesso no YouTube, que receber “nãos” é parte do processo de aprendizagem e que é preciso saber definir muito bem qual a missão do canal.

Canais de História no Youtube

Há bons canais de História, hoje, no YouTube. O Café História TV, lançado em 2013 com um debate ao vivo sobre História Digital, em parceria com a ANPUH-RJ, é um deles. Dividido em várias seções, o canal oferece entrevistas, debates, conferências, entre outros conteúdos exclusivos. Outro canal de História interessante é o CINEstória, apresentado por Orlando Stiebler, um professor que utiliza o Cinema para promover a História. “Aqui, o nosso objetivo é pegar um filme e falar do que tem por trás de história envolvendo essa produção”, ele explica no vídeo de apresentação do canal. Em um vídeo sobre Guerra Fria, por exemplo, Stiebler utiliza o filme alemão “Adeus, Lenin”. Em outro, sobre Inquisição Espanhola, ele analisa o filme “Assassins Creed”, baseado em um famoso game. O CINEstória possui 12 mil assinantes e pode ser uma boa dica para quem está estudando para o vestibular.

Outro projeto que vale mencionar é o do jornalista Thiago Gomide, chamado Tá na História. Gomide sai regulamente às ruas para fazer vídeos sobre personagens e fatos históricos que marcaram de alguma forma a História do Brasil, sempre buscando pontes com o que já vivemos. O projeto nasceu no Facebook (uma página que já ultrapassa 17 mil curtidas), mas seu conteúdo, segundo Gomide, está prestes a ir para o YouTube, o que demonstra a força de atração da plataforma. Procurado pelo Café História, Gomide deu muitas boas sugestões para quem pensa em ter um canal no YouTube:

– Em primeiro lugar: escolher o público-alvo. Se possível, trabalhar no nicho do nicho. Em segundo lugar: entender com que linguagem você vai trabalhar e mapear os gostos de quem consome o seu conteúdo no YouTube (que é diferente do Facebook, por exemplo). Importante: nesse tópico entram escolhas de cenários (rua, auditório, quarto, sala, biblioteca…). Em terceiro lugar: atenção com equipamentos básicos. Não precisa gastar uma fortuna em máquinas e microfones e gadgets, mas também não rola o áudio estar uma droga; a imagem, porcaria. Aquela ideia de que na internet vale tudo é bonitinha pra quem não entende absolutamente nada de internet. Se for gravar com iPhone ou Samsung, vale dar uma olhada no AliExpress atrás de [microfone de] lapela. Custa 3 dólares e faz a alegria. Em quarto lugar: errar bastante. O melhor jeito de aprender no YouTube ou no Facebook (que eu me amarro mais) é errando. Se for procurar o maravilhoso de primeira, há muitas chances do projeto morrer antes do que se imagina. E, por fim, edição. Trabalhar edição faz uma imensa diferença.

YouTube para historiadores

Construir um canal de História não é tarefa mais fácil do mundo. Mas está muito longe de ser uma caixa-preta. Há pouco mais de duas décadas, produzir vídeos era um empreendimento viável apenas para emissoras de televisão. O processo era caro, demorado e demandava profundo conhecimento técnico. Hoje, produzir e distribuir vídeos é uma atividade bastante acessível a quase todos. É preciso estudar, pesquisar, ler tutoriais e fazer muitos testes. Mas qualquer pessoa com um conhecimento mínimo de internet e disposição pode ter um canal no YouTube. E para os(as) historiadores(as), o momento é extremamente propício. Tanto a História Pública quanto a História Digital estão em franca expansão, provocando debates importantíssimos sobre a importância de falar ao grande público e aproximar a comunidade do conhecimento historiográfico de qualidade. O YouTube, neste sentido, pode oferecer muitas boas opções. Um Programa de Pós-Graduação, por exemplo, pode criar um canal para publicar vídeos de palestras ou defesas de mestrado e doutorado. Um professor de Ensino Básico, pode criar um canal no qual ele registra suas aulas e as disponibiliza para o grande público. Já um mestrando pode fazer um diário de pesquisa, publicando vídeos onde ele conta cada etapa de sua investigação. Enfim, quando falamos de um(a) historiador(a) criativo(a) e disposto(a) a empreender no YouTube, o que conta mesmo é o limite da imaginação.


Notas

[1] Segundo a Wikipedia, “Manual do Mundo é um website especializado em conteúdo educativo e de entretenimento, criado em 2008 pelo jornalista Iberê Thenório e sua esposa, a terapeuta ocupacional Mariana Fulfaro. O site apresenta diversas dicas de experiências científicasreceitas, desafios, pegadinhasmágicas, origamis, entre outros, para facilitar o dia a dia, com a intenção de estimular o interesse do internauta pela ciência, tornando-a mais acessível e atrativa. A maior parte do que é ensinado no Manual do Mundo, é apresentada em vídeos curtos, três vezes por semana e hospedados no canal do projeto no YouTube.


Bruno Leal Pastor de Carvalho é fundador e Editor do Café História. Doutor em História Social (UFRJ, 2015). Mestre em Memória Social (UNIRIO, 2009), Especialista em História Contemporânea (PUCRS, 2010), Graduado em História (UERJ, 2006) e Comunicação Social (UFRJ, 2006). Professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Pós-doutorando em História Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa crimes nazistas e justiça no pós-guerra, com especial ênfase no destino dos criminosos nazistas. Defendeu a tese de doutorado: “O Homem dos Pedalinhos: Herberts Cukurs, o Estado brasileiro e a questão dos criminosos nazistas no Brasil do pós-guerra (1945-1965)”. É um dos coordenadores do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ, o NIEJ. Membro da Rede Brasileira de História Pública e da Associação das Humanidades Digitais.

6 Comentário

  1. O Filme Documentário pode-se dizer foi a primeira forma de filme a aparecer como um gênero, herdeiro direto das experiências iniciais dos irmãos franceses Lumière. Pode-se pensar no documentário como uma forma não só de aprender/ensinar História, bem como qualquer outra disciplina. Portanto é um instrumento de e para a Educação. E hajam quantidades imensas de variedades dos mesmos, portanto, basta pensar num tema que saltem uma dúzia de itens para a sua reflexão educativa e pedagógica. As tentativas de listar os mesmos até agora tem sido várias mas insuficientes. O assunto não foi completamente exaurido e falta muito para tal e tanto. Tenho lido e escrito sobre o tema e me parece que não haja uma última palavra para ele. Se acaso houver quem quer=ira conversar sobre o mesmo é só me procurar pela Internet.

    • Oi, Geraldo! Obrigado pelo comentário! Nós também nos interessamos bastante por audiovisual. Aliás, em breve teremos aqui alguns artigos novos sobre cinema!

      • Oi Bruno, Tenho pesquisado e escrito à respeito do assunto e tenho muita coisa publicável que gostaria de apresentar em uma publicação única, já que parte do que aí esteja já foi publicado (ver Google em meu nome). Alguma sugestão além de inserir o que tenho no site Café História? Não tenho tido sorte de achar quem o queira, e quero evitar o Amazon tanto o quanto possível. São pelo menos vinte anos de trabalho quase diário, mas, sem exageros. Tudo muito bem checado e pesquisado.

        • Infelizmente, não temos nenhuma sugestão para publicação. Uma coisa importante: o antigo Café História será desativado. Se você tem algum conteúdo por lá e deseja salvar, aconselho a fazer o quanto antes. Abraço!

  2. Olá. Como observação, relatar que o Whindersson Nunes é do Piauí. No youtube tem vários vídeos relacionados aos conteúdos de história, normalmente são aulas. Creio que a dúvida pode ser de como utiliza-los e digamos que o perfil de seu alunado. Alguns youtubers tem produções interessantes, como por exemplo Felipe Dideus, Deborah Amorim, o canal nerdlogia, e o vídeo que tem milhões de visualizações é do castenhari (canal nostalgia) sobre a Ditadura Militar, entre outros. São outras possibilidades de auxílio ao ensino-aprendizagem, entretanto falta capacitação de como utilizá-los. Uso vídeos durante as aulas e utilizo como forma de auto avaliação, conversar com alunos sobre o video, se gostaram, se foi muito longo entre outras coisas e assim aproveitar esse enorme material disponibilizado na internet.

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