Egito made in Brazil

Thais Rocha da Silva discute os obstáculos e os encantamentos daqueles que estudam Egito antigo – e mundo antigo em geral – no Brasil.

Por Thais Rocha da Silva

Você faz o que?
Pesquiso o Egito Antigo.¹

A partir daqui o leitor pode imaginar uma interminável lista de (im)possíveis reações as quais podem ser mais ou menos compartilhadas com colegas de outras áreas que pesquisam o mundo antigo. No entanto, o Egito está muito mais disseminado no imaginário popular, seja por conta de “Indiana Jones” ou “A Múmia”, ou mesmo por conta de todo o esoterismo que ele atrai. Apesar das adversidades e dos desafios, vale se aventurar nesse deserto.

A ideia deste texto veio depois de uma experiência de quase um ano na Inglaterra tentando responder à pergunta de por que e como uma brasileira estudava o Egito antigo. A surpresa, por vezes misturada com fascinação, espanto e, raras vezes, desprezo, me fez perceber o lugar dessa disciplina no meu país. Não era novidade para mim que o Reino Unido detinha um lugar de honra na Egiptologia, compartilhado pelos vizinhos alemães e franceses (nem sempre de maneira confortável), mas os verdadeiros potenciais da Egiptologia feita no Novo Mundo só seriam percebidos no fim da minha estadia.

Exploradores do século passado das pirâmides, 1924. Foto: George D’Andria | The New York Public Library | The Miriam and Ira D. Wallach Division of Art, Prints and Photographs: Photography Collection

Aspirante a egiptóloga. Essa sou eu. Uma vez ouvi que a formação média de um bom egiptólogo levava em média vinte anos na Europa. Depois disso, me tranquilizei mais com a minha aparente demora. Conformei-me com os limites temporais e espaciais. Afinal, ser egiptólogo não é apenas um projeto profissional, mas um projeto de vida. E para isso é preciso acomodar muitas outras coisas. Mesmo sabendo que isso se aplica a muitas outras profissões, acho que vale o esforço de explicar o caso da Egiptologia. Além de “decifrar” hieróglifos, os egiptólogos precisam se calçar de outros instrumentos básicos. E é justamente aí que começam os desafios.

O Brasil não oferece ainda nenhum curso de graduação com uma carga horária suficiente para os estudos do mundo antigo, comparados aos cursos na Europa e EUA. Essa realidade está começando a mudar, mas ainda vai levar tempo. Portanto, é preciso estudar sozinho e contar com a sorte de encontrar pessoas com os mesmos interesses, a fim de não sucumbir na solidão acadêmica ou de se perder em leituras fantasiosas e pouco confiáveis. Os cursos de História, Antropologia, Arqueologia e mesmo de Letras podem ser um bom início, mas não se pode parar por aí.

O segundo passo é se munir de instrumentos que permitam ao estudante chegar ao Egito Antigo. E não se trata de ir até lá de fato. Mas ter acesso a uma literatura que não é produzida em língua portuguesa. Mesmo que o mundo ibérico tenha recentemente desenvolvido pesquisas sérias na área, não se pode escapar de quase trezentos anos de domínio francês, inglês e alemão. Esses idiomas são básicos. Como as quatro operações. Assim, como se pode ver, essa escolha profissional é um problema quando se está no Brasil e você vem de uma família com poucos recursos. Mas você pode se munir de tudo isso ao longo da sua graduação. Não se desespere!

A limitação institucional é escancarada aos estudantes. Quando entrei na graduação de História, os cursos de História Antiga eram limitados aos estudos clássicos: Grécia e Roma. De formação francesa, mas sobretudo classicista, a Universidade de São Paulo aproveitou pouco a França e seu amor pelo Egito antigo. Ainda no início do curso, não tinha ideia de tantos empecilhos, colocados pela própria instituição, mas também pelos próprios professores.

Assim, o efeito dominó se ampliava: não havia curso, professores, pesquisa, material disponível na biblioteca… É possível estabelecer todo tipo de relação de causa e efeito com esses fatores. E claro, os estudantes, em sua maioria desistiam. Aos mais teimosos restava a conversa (muitas vezes lamentosa) com os professores da área de História antiga que se dividiam entre “eu sinto muito, mas não posso te ajudar” a observações muito mais peculiares.

Um professor me questionou sobre o porquê de estudar o Egito antigo quando havia tanto mais relevante para ser feito, sobretudo na história do Brasil. Isso seria menos assustador aos olhos de uma caloura se ele não fosse um dos responsáveis pela área de História Antiga na época, numa das universidades mais importantes do país.

Se você pretende continuar sendo egiptólogo, adicione ao kit de sobrevivência na selva noções sobre as línguas antigas: o egípcio médio, o tardio, quem sabe o demótico e o copta². E não se esqueça do grego ou do latim! Se seu foco for maior em arqueologia, o conhecimento dessas línguas pode ser secundário, mas não completamente dispensável. Estudantes na Europa podem ter acesso a esse conhecimento no primeiro ano da faculdade. Portanto, não é nenhum plus.

A lista de desvantagens para os aspirantes a egiptólogos no Brasil é imensa, basta pensar onde estão as grandes coleções, os museus, as boas bibliotecas. Os desafios estão postos e cada um dos estudantes que sabem dimensionar as suas dificuldades e das instituições às quais pertencem.

Mas se você leu esse texto até aqui, prepare-se para saber as vantagens de um Egito made in Brazil. Há muitos que defendem – talvez sem plena consciência disso – um excesso de politização na produção do conhecimento, de modo que o conhecimento em si acaba ficando para segundo plano e a política parece – falsamente – privilegiar uma orientação mais crítica da construção do saber. Não se trata de excluir a política, ou de crer que a produção do conhecimento histórico é neutra. Mas é preciso ponderar.

Assim, não é incomum ver aqueles que defendem que os brasileiros devem olhar para os seus próprios nativos e esquecer essa história de antiguidade no Velho Mundo, que negros devem estudar escravidão e os negros, que as mulheres devem estudar mulheres e por aí vai. Esse tipo de visão profundamente fragmentada da produção do conhecimento histórico admite a necessidade de um pressuposto de identificação. Ora, se assim for, é preciso enterrar toda a discussão teórica e epistemológica das humanidades. Nessa linha, esse defensores fiéis de uma (suposta) brasilidade acabam reiterando que o mundo antigo já foi “estudado demais” e por isso mesmo deve-se fazer coisas novas. Esse tipo de produção acadêmica, talvez mais explicitamente politizada, mascara outras limitações, as quais não pretendo desenvolver aqui.

Uma outra linha se apoia na ideia de que a história sempre pode ser reescrita. Se isso é fato, não haveria problemas em dar novas interpretações a um determinado período. Contudo, é mais que isso. Não se trata apenas de acrescentar “mais uma” explicação, ou de apresentar “a verdadeira” situação por trás dos fatos. É problematizar como o conhecimento acerca do mundo antigo foi produzido num contexto colonial específico e que, paulatinamente, tem ganhado novos contornos. Assim, os posicionamentos inflamados de que “se sabe demais” sobre essas sociedades acaba justamente reiterando uma visão colonialista, elitista e limitadora da produção do conhecimento histórico. A cobra mordeu o próprio rabo.

É justamente a nossa experiência histórica que permite questionar modelos instituídos e acoplados às sociedades antigas, que nem sempre dão conta de contextos específicos. Mais ainda, a percepção de um mundo plural, com outros tipos de marcadores sociais, raciais, e mesmo políticos, nem sempre tão evidentes, permite entender e pinçar evidências muitas vezes incompreensíveis para os habitantes do Velho mundo.

Esqueça as referências hollywoodianas, os documentários que você assiste nos canais da TV paga. Os egiptólogos não vivem aventuras no deserto, não fogem de múmias e besouros, Harrison Ford não é parte da equipe de professores, o X não marca o local. O trabalho de campo, extremamente necessário a Egiptologia é apenas uma parte pequena dele. E é muito mais sistemático, meticuloso e demorado do que temos ideia.

Na verdade, a vida de grande parte dos egiptólogos se passa nas bibliotecas. Vida monótona para o corpo, mas não para a mente. Não se trata apenas de processar o material de campo e leva-lo para os museus. É muito mais que isso. Os pesquisadores enfrentam horas de pesquisa e leitura nos livros. Hoje temos a vantagem da internet. Artigos acadêmicos estão disponíveis na rede, o que não acontecia até poucos anos atrás. É possível comprar livros em lojas virtuais, também em formato digital. Se não podemos ir às bibliotecas, ficou mais fácil de boa parte delas chegar a nós.

A primeira vez que estive em Chicago, no verão de 2009, no Oriental Institute, passei uma noite em claro pensando como ia dar conta daquela biblioteca em um mês. Não foi diferente quando conheci o Departamento de Egito Antigo e Sudão no British Museum, a Sackler Library em Oxford e a biblioteca de Arqueologia da UCL (University College of London). Fiquei quase um ano pesquisando nessas instituições, e ainda tinha rompantes de ansiedade no meio da noite. A viagem à Inglaterra aconteceu por conta do mestrado do meu marido em antropologia digital e a minha carona antecipou o que eu planejava fazer muito em breve na época. Essa lista de bibliotecas não é parte de uma proposta exibicionista nesse texto, mas sim para dar a dimensão do que foi conhecer instituições que levam a pesquisa a sério, tratando estudantes do mundo inteiro, independentemente da sua titulação e formação, com respeito. Isso se refletiu nas diversas conversas com professores importantes que não apenas me receberam, mas se dispuseram a ouvir e participar da minha pesquisa. O interesse pelo desenvolvimento de uma Egiptologia no Brasil foi acompanhado nesse período com entusiasmo e cuidado. Isso é o que eu chamo de tratar a ignorância com respeito.

Não se trata apenas de processar o material de campo e leva-lo para os museus. É muito mais que isso. Os pesquisadores enfrentam horas de pesquisa e leitura nos livros. Hoje temos a vantagem da internet. Artigos acadêmicos estão disponíveis na rede, o que não acontecia até poucos anos atrás. É possível comprar livros em lojas virtuais, também em formato digital. Se não podemos ir às bibliotecas, ficou mais fácil de boa parte delas chegar a nós.

Situações ideais só existem nos roteiros de filmes. Com Europa e EUA em crise, estudar é mais do que um privilégio. Na Inglaterra, por exemplo, as universidades, mesmo públicas, cobram taxas altas para os cursos. Nesse contexto, mesmo com empréstimos e outras possibilidades, o número de bolsas e alunos que possam ingressar os programas de pós-graduação é cada vez mais limitado. A situação do acesso dos estudantes às escolas públicas é um problema sério no Brasil, que não pretendo discutir aqui, mas julgo necessário pontuar que do lado de cá as coisas também não são fáceis. Os problemas podem ser outros, mas existem e são uma realidade difícil para os jovens pesquisadores.

Ainda nesse escopo, a tradição de pesquisa nesses países traz um inconveniente sério aos recém chegados – a disputa pelos empregos. Eles têm bibliotecas, material disponível nos museus, mas não vem mais a perspectiva de uma carreira. O funil vai ficando cada vez menor. O Brasil, por outro lado, tem ampliado o número de bolsas e a ampliação do ensino de universidades públicas. Ainda que para nós a situação esteja longe do ideal, visto pelos olhos europeus e americanos nós estamos dominando o mundo.

Se o nosso dilema é como começar, o deles é como continuar. É evidente que as coisas são mais complexas e passam por outros problemas. As áreas de humanidades também tem sido menos prioritárias nesses países quando comparadas às de saúde e tecnologia. Muitos dos dilemas são parecidos, mas é preciso, ao meu ver, salientar nossas vantagens.

Sim, há vantagens em se estudar Egiptologia no Brasil. Mesmo com todas as dificuldades assumidas e reconhecidas, o Novo Mundo (e excluo aqui os EUA) tem algo a oferecer. Os cursos de História e Antropologia nos oferecem um leque amplo de leituras que muitos dos estudantes internacionais jamais terá. Uma das grandes vantagens é que a nossa formação crítica e consciente dos sucessivos processos de colonização permite olhar os egípcios como egípcios, não como produtos da cultura e da história europeia, ainda que isso venha assim empacotado na historiografia. Os egípcios não são nossos e não estão aqui.

Um outro aspecto digno de nota é que a tradição da Egiptologia não nos paralisou. Podemos olhar para as diversas escolas com um distanciamento que nos dá opções de escolher e transitar por aquilo que de melhor elas oferecem. Assim, mesmo que você vá para qualquer um dos centros de Egiptologia do mundo, pode-se olhar para os demais com a vantagem de não fazer parte de nenhum grupo. Estar deslocado é ter liberdade para ir e vir em todos os lugares. Inclusive e talvez sobretudo, no próprio Egito, em que a nossa presença não é vista como sinônimo de colonialismo ou opressão.

Outro aspecto promissor é que no Brasil isso está para ser feito. O pioneirismo é bom, apesar dos custos e de dar tanto trabalho. Não precisamos – nem devemos – repetir. Temos a opção de escolher o que de lá deu certo. E ver o quanto pode-se inovar. Podemos aproveitar que o Brasil é visto com bons olhos por todos os grandes centros de Egiptologia e utilizar a boa diplomacia ao nosso favor.

Ainda que a história antiga seja vista por alguns como uma área pouco necessária – e novamente poderíamos retomar o problema do utilitarismo do conhecimento, a produção do conhecimento sobre o Egito antigo pode não apenas boa para nós, mas para a Egiptologia propriamente dita. Temos os recursos e as possibilidades de usar o que foi deixado como legado na história da disciplina. Mas de não sermos meros reprodutores dela. O modo como as ciências humanas se relacionam entre si no Brasil é distinto da Europa e dos EUA, o que pode ser muito bom, se garantirmos que as nossas humanidades não se percam nos feudos acadêmicos.

Por que então um brasileiro estudar o Egito Antigo? Por que não? Isso não deve ser privilégio daqueles que viram no Egito interesses estratégicos apenas. Devemos por fim ao nosso famoso “complexo de vira-lata” e colocar para o mundo nossa capacidade de produzir conhecimento, sem as velhas fronteiras.

Talvez eu pareça excessivamente otimista, divergindo de outros colegas professores. Mas é preciso que os estudantes se unam e se apoiem na construção desse campo de conhecimento, deixando de lado antigos ranços e egos. A Egiptologia pode ser feita no Brasil. Ela pode ser do Brasil.


Saiba mais
O Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tem a maior coleção egípcia da América Latina. Lá é possível fazer o Mestrado e Doutorado em arqueologia, com foco no Egito Antigo. O Museu de Arqueologia e Etnologia da USP também tem conta com uma coleção egípcia. Rio de Janeiro e São Paulo ainda são os grandes centros para estudo do Egito Antigo no Brasil, disponibilizando cursos para alunos regulares e para o grande público.


Notas
(1) Agradeço a Bruno Leal pelo convite para escrever esse texto, que permitiu tantas novas reflexões, ao Prof. Dr. Antonio Brancaglion Jr. por discutir o tema e, sobretudo por sempre me mostrar as possibilidades e encorajar meus estudos. A Isabelle Somma por seus comentários e sugestões. Aos novos amigos e colegas do Velho Mundo, por mostrarem e abrirem os caminhos para o “lado de cá”.

(2) Demótico e copta são variações do egípcio nos períodos tardios. O demótico é um tipo de escrita cursiva, com algumas diferenças gramaticais em relação ao egípcio médio e tardio, escritos em hieroglífico e hierático. O copta é o egípcio do período cristão, escrito com caracteres gregos, mas também com variações gramaticais e de vocabulário.


Thais Rocha da Silva – tem Bacharelado e Licenciatura em História pela Universidade de São Paulo e atualmente é Mestranda do Departamento de Letras Orientais pela mesma universidade, pesquisando as relações de gênero no Egito Helenístico. Trabalhou como professora de História na rede particular de São Paulo; faz colaborações para a elaboração de material didático impresso e digital.

2 Comentário

  1. Fascinante! Enquanto lia senti que tudo que disse parecia ser “para mim”. Sou estudante de História na Universidade Federal do Ceará e percebo o quanto essas questões de “brasilidade” são fortes,o quanto essa valoração as questões que concernem ao nacional e relativas a agrupamentos,movimentos sociais entre outros possuem um maior incentivo. Fico feliz de não ser a única que sonha alto com a “Egiptologia made in Brasil”, que vê nessa área grandes perspectivas.

  2. Querer pesquisar essa área no Brasil tem seus altos e baixos, vivo uma montanha-russa todos os dias desde que iniciei minha graduação em História pela Universidade Federal do Paraná. Confesso que esse texto veio naqueles dias em que você se sente desanimada e desmotivada. Portanto, a leitura dele me lavou a alma! Impossível para um aspirante a egiptólogo no Brasil não se identificar com cada parágrafo que você escreveu! E a além de parabenizá-la pela iniciativa, quero deixar registrado, que assim como você, penso que os pesquisadores dessa área no Brasil devem se unir pela causa. Contudo, infelizmente não vejo muito isso acontecer. E é uma das críticas que sempre faço a respeito. Em resumo, para mim, me parece uma disputa sem sentido algum, uma vez que, temos que estabelecer essa área de estudo no Brasil, ultrapassando a questão geográfica de SP Rio….enfim são outras questões! Reafirmo, seu texto foi um incentivo para eu ainda acreditar na minha pesquisa! Obrigado

1 Trackback / Pingback

  1. Historiadora cria blog para registrar o dia a dia de sua pesquisa no Egito

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*