História da polícia e do crime no Brasil: dez obras de referência para conhecer

Frederico Oliveira, mestre em História Social (FFP-UERJ), autor da dissertação Uma História do “Esquadrão da Morte”: Mitos, símbolos, indícios e violência no Rio de Janeiro (1957-1969), indica 10 obras para uma introdução às temáticas polícia e crime no Brasil.

Por Frederico Oliveira

Os estudos sobre polícia e criminalidade, temáticas comuns desde a década de 1940 a sociólogos, jornalistas, policiais criminalistas, ex-detentos, escritores e antropólogos, somente a partir dos anos 1990 passaram a ter uma maior atenção dos historiadores, até então mais interessados em outros assuntos. Assim, sendo objetos ainda pouco explorados pela pesquisa historiográfica, principalmente na perspectiva do tempo presente, a polícia e o crime representam na atualidade, em face das reiteradas crises envolvendo segurança pública, uma oportunidade desafiadora para o campo da História.

1. BARRETO FILHO,Mello; LIMA, Hermeto. História da polícia do Rio de Janeiro. Aspectos da cidade e da vida carioca. Rio de Janeiro: A Noite. 3 volumes. [Vol. I, 1565/1831. Prefácio de Filinto Müller. 1939. 361p. Vol. II, 1831/1870. Prefácio de Felisberto Batista Teixeira. 1942. 332p. Vol. III, 1870/1889. Prefácio de Pedro Calmon. 1944. 300p.]

A obra de Mello Barreto Filho e Hermeto Lima possivelmente foi, em seu conjunto, até a data de sua publicação, entre 1939 e 1944, o trabalho mais abrangente escrito sobre a polícia da então capital federal, o Rio de Janeiro, e continua até hoje sendo obra incontornável para quem pretende se iniciar no estudo sobre a polícia carioca do século XIX.

Colt---Pistola
Colt Modelo 1862 – revólver usado pela polícia de Nova York. Serial No. 38549. Foto: The Met, Gift of W. C. Foxley, 2014.
2. HOLLOWAY, Thomas H. Polícia no Rio de janeiro. Repressão e resistência numa cidade do século XIX. Rio de Janeiro: FGV, 1997.

O livro, obra de renomado historiador Thomas H. Holloway, apresenta a evolução histórica da polícia do Rio de Janeiro ao longo do século XIX, procurando compreender aspectos da repressão e da resistência da sociedade da cidade num quadro mais amplo de uma transição do controle do poder através das instituições públicas, quando o poder do Estado passa a preponderar no espaço público.

3. CORRÊA, Valmir Batista. Coronéis e Bandidos em Mato Grosso, 1889-1943. Campo Grande: UFMS, 2006.

O livro, originalmente uma tese de doutorado de Corrêa, aborda o domínio dos coronéis sobre as comunidades locais, sua luta por poder e a ação dos bandidos daquela região, entre 1889 e 1943, procurando compreender os processos históricos que originaram o separatismo mato-grossense que posteriormente resultou no Mato Grosso do Sul.

4. CANCELLI, Elizabeth. O mundo da violência: a polícia na Era Vargas. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1993.

Originalmente tese de doutoramento da autora, que escreveu também A Cultura do Crime e da Lei, Carandiru: a prisão, o psiquiatra e o preso e organizou o livro História de Violência, Crime e Lei no Brasil, a obra apresenta um estudo sobre o aparato policial do Estado, a vigilância exercida pela polícia sobre a sociedade e a violência durante a denominada Era Vargas, problematizando, dentre várias questões, o ano de 1937 e os desdobramentos do projeto político estadonovista.

5. BRETAS, Marcos Luiz. Ordem na cidade: O exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro, 1907-1930. Tradução de Alberto Lopes. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

O livro, originalmente tese de doutorado defendida na Open University, do Reino Unido, obra de um historiador que é referência sobre as temáticas, utilizando como fonte privilegiada livros de registros de ocorrências de distritos policiais do Rio de Janeiro, entre 1907 e 1930, aborda sobretudo as relações entre a polícia e o público, além de questões como o processo de institucionalização das polícias, o Estado e sua influência no trabalho policial, o cotidiano policial na sociedade carioca, aspectos do policiamento cotidiano, a burocracia, suas rotinas, o medo da desordem e a insegurança na cidade capital.

6. FAUSTO, Boris. Crime e Cotidiano: a criminalidade em São Paulo (1880-1924). São Paulo: Brasiliense, 1984.

Obra do historiador veterano, autor também de Trabalho urbano e conflito social: 1890-1920 e O Crime do Restaurante Chinês: carnaval, futebol e justiça na São Paulo dos anos 30, o livro procura compreender o mundo da marginalidade, em sua especificidade, como um fenômeno social, e seus contatos com a polícia e o judiciário.

7. BARBOSA, Adriano. Esquadrão da Morte – Um mal necessário? Prefácio de Nélson Rodrigues. Rio de Janeiro: Mandarino, 1971.

Livro-reportagem escrito por conhecido jornalista (autor de Sacopã – Bandeira, Herzog, Delane. No túmulo da cidadania), a obra é a primeira a dar um tratamento mais jornalístico e menos ficcional ao fenômeno “esquadrão da morte”. A obra é leitura obrigatória para quem pretende pesquisar polícia e crime no Rio de Janeiro entre as décadas de 1950 e 1960.

8. MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil. Prefácio de Gilberto Freyre. [1ª ed. 1985] São Paulo: A Girafa Editora, 2004.

Obra de historiador (autor também de Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço), o livro questiona várias teses até então aceitas pela historiografia tradicional sobre o cangaço e sua figura mais conhecida, Lampião. É um livro fundamental para se compreender o cangaço, os costumes, as relações de poder e a violência no Nordeste daquele período.

9. AMORIM, Carlos. Comando Vermelho: a história secreta do crime organizado. Rio de Janeiro: Record, 1993.

Neste livro, agraciado com o Prêmio Jabuti em 1994 na categoria reportagem e primeiro de uma trilogia composta por CV – PCC: A irmandade do crime e Assalto ao poder: o crime organizado, o jornalista Carlos Amorim aborda com riqueza de detalhes a formação do Comando Vermelho no final da década de 1970 e o impacto da facção criminosa no Rio de Janeiro nas décadas seguintes.

10. FONTES, C. N.; FLÁVIO, S. N.; COSTA, M.; BRETAS, M. L.(Org). História das Prisões no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2009. 2 v.

A obra, dividida em dois volumes, reúne artigos de diversos pesquisadores e procura evidenciar o sentido histórico da prisão no Brasil, representando sua publicação uma substancial contribuição da academia para se pensar e compreender a questão do cárcere e o sistema prisional brasileiro.


Frederico Oliveira é professor, mestre em História Social (FFP-UERJ) e especialista em História das Relações Internacionais (UERJ).

21 Comentário

  1. Atendendo a sugestões, vamos ampliar esta lista?

    ADORNO, S. . Os Aprendizes do Poder. (O Bacharelismo Liberal Na Politica Brasileira).. 1. ed. RIO DE JANEIRO: PAZ E TERRA, 1988. 266 p

    MINGARDI, Guaracy. Tiras, gansos e trutas. São Paulo: Scritta, 1992.

    e tem muitos mais…outra hora vou adicionando.

  2. Ver também: Sepúlveda dos Santos, Myriam Os porões da República: a barbárie nas prisões da Ilha Grande 1894-1945. FAPERJ-Garamond, Rio de Janeiro, 336p.

  3. Ótimas sugestões! Há muita obra interessante para constar em listas sobre as temáticas polícia e crime. Como toda lista, a minha é pessoal, parcial, incompleta. Revela lacunas. Poucas obras de historiadores voltadas para o tempo presente. Mas, por outro lado, as próprias omissões da lista sugerem um vasto campo de estudos a espera do interesse das novas gerações de pesquisadores. Mãos à obra!

    • desde o Brasil Imperial, mim fale qual foi a instituição policial que não trabalhou para classe dominante, inclusive antes da constituição de 1988, juízes, promotores, delegados de polícia e Oficiais d policia Militar, eram todos filho de apadrinhados políticos, nenhum pobre tinha acesso a esses cargos, ou seja eram todos Biõncos.Com o advento da constituição de 1988, iniciaram-se os concursos, tirando os privilégios de apadrinhados políticos.

  4. Boa noite!
    Meu nome é Paulo Henrique, sou historiador, pesquisador em segurança pública. Mas, acreditem, minha leitura maior é no campo da sociologia.
    Estou interessado em iniciar um projeto de pesquisa que será apresentado a um programa de doutorado em História. É a análise de um movimento paredista (greve) da PM-MA ocorrido em 2010 aqui no Maranhão. Pretendo discutir as relações de poder existentes entre praças e oficiais/polícia e Estado.
    Vocês poderiam me indicar uma bibliografia historiográfica sobre o tema?

    • Caro Paulo, a dissertação e a tese da prof. Juniele Rabêlo de Almeida estão disponíveis para download. A primeira é sobre a greve de 1997 em Minas Gerass, já a tese é sobre o movimento daquele ano no Brasil. As fontes dela são documentações oficiais, jornais e relatos orais.
      Acho que o trabalho dela é fundamental para seu projeto.
      Abraços!

  5. Oi, Paulo Henrique. Sendo uma pesquisa cujo recorte temporal se dá no âmbito de uma história imediata, é compreensível a escassez de bibliografia da área sobre o assunto. Sobre algo que possa ajudar no estudo da questão posta, conheço apenas uma tese, intitulada “FORMAÇÃO DE OFICIAIS DA PMMA: uma visão paraláctica acerca da segurança pública”, de Vera Lucia Bezerra Santos, defendida em 2012 na FGV; a dissertação “Piquete na caserna? Uma reflexão acerca do direito dos militares estaduais à greve”, de Diego Nogueira, e o livro de Domingos Vieira, “A polícia Militar do Maranhão: síntese histórica”, de 1975, e “O dia em que a polícia parou: a verdadeira história da greve da polícia mineira que parou o Brasil”, de Júlio Cesar Gomes, o “Cabo Júlio”. O livro segundo a sinopse, aborda a história do movimento reivindicatório por melhores salários iniciado pelos praças da Polícia Militar, do Estado de Minas Gerais, em junho de 1997. Abraço

      • Olha: em 1971 conheci uma sociólogo fazendo o seu PhD na escola de Criminologia da U da California em Berkeley: o Homero Yearwood. A sua área de trabalho era a California e o Brasil, aonde passou ceca de um ano e meio (em Belo Horizonte). Se v quiser uma visão fora dos esquadros nacionais aqueles baseados no Direito, essas coisas que a gente está careca de saber em geral pela metade, procure-o. Deve estar num dos State Colleges daquele estado, (talvez em Sacramento State College) mas não sei ao certo se ainda não se aposentou. Fala bem espanhol e não vai ter problemas de comunicação; se quiser cite o meu nome (Geraldo Franco de Santa Barbara e Rio de Janeiro). Deve ter muita coisa publicada que não sei pois nos separamos em 1972. E a Escola de Criminologia fechou com as maluquices do Reagan, aquele governador que virou coisa pior e que então acabou com muita coisa daquele estado.

        • No campo da sociologia e do Direito eu até que me desenrolo.
          O problema está na historiografia. Embora, eu seja historiador. O Depto é chatão com isso.

  6. Olá gente. Sou graduando em História pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Pretendo pesquisar sobre o racismo nas primeiras décadas do século XX no Rio de Janeiro. Meu objeto de pesquisa será o Clube de Regatas Vasco da Gama, por ter sido o primeiro clube no Rio a aceitar negros e mulatos no futebol carioca (e no Brasil?). Sendo assim, é necessário uma bibliografia sobre temas que abordem a situação do negro no Rio nas primeiras décadas do século XX. Pelo recorte espacial e temporal que eu pretendo pesquisar, e com base nos títulos, o Frederico já me ajudou com uma referência: “BRETAS, Marcos Luiz. Ordem na cidade: O exercício cotidiano da autoridade policial no Rio de Janeiro, 1907-1930. Tradução de Alberto Lopes. Rio de Janeiro: Rocco, 1997”. O Rafael Nogueira também me ajudou com essa: “SALEM, Marcos David. História da polícia no Rio de Janeiro, 1808-1930: uma instituição a serviço das classes dominantes”. Se alguém mais puder me ajudar com bibliografia referente ao futebol carioca, e/ou a situação dos negros (nos casos acima, como refere-se a polícia, talvez há um enfoque sob determinada relação entre a instituição e os negros) neste período, eu agradeço!

  7. Como pesquisador e historiador, acredito que também poderia integrar essa lista o livro Um Certo Delegado de Capturas – O Romance de um Mito-Heroi, escrito e publicado no ano de 2009 pelo Coronel Klinger Sobreira de Almeida, do Quadro de Oficiais da Reserva da Polícia Militar de Minas Gerais. O livro narra a saga de um policial mineiro, Pedro Ferreira dos Santos, cuja atuação em meio à bandidagem dos anos 50 a 60, constitui grande referência no que se refere às estratégias de investigação e captura policial.

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