Síria: percepções de um historiador brasileiro em Israel

Historiador brasileiro Leonel Caraciki, doutorando em Estudos sobre Israel e Sionismo na Ben Gurion University of the Negev, relata como tem percebido o conflito na Síria em Israel. Os dois países fazem fronteira.

Por Leonel Caraciki

Não sou especialista em Síria ou em Oriente Médio, ainda que por causa de minha pesquisa sobre Israel eu tenha que manter leituras constantes sobre a região.

Meu instituto da faculdade fica no mesmo campus de institutos de pesquisa em desertificação e hidrologia, cursos que atraem estudantes de países vizinhos, especialmente da Jordânia. Em uma conversa informal, um destes estudantes me contou que parte de sua família veio da Síria para a Jordânia e que eles costumavam passar os feriados religiosos em Aleppo. Disse que a guerra era fomentada pelos sauditas para desestabilizar Assad, pois o povo o amava. Disse que ela era um plano estrangeiro assim como foi no Iraque e no Afeganistão e “como sempre aconteceu na história do Oriente Médio”. Outro aluno, palestino da Cisjordânia, já dizia que Assad não é diferente de outros líderes árabes, somente um autocrata que estava pagando o preço de anos de opressão. O próximo seria Mahmoud Abbas. [1]

Jerusalem
Jerusalém, Israel. Foto: Bruno Leal

Já dentre os israelenses, posso falar de duas tendências. O governo mantém sua postura tradicional de observar com atenção e de agir somente quando há alguma ameaça direta – o que explica sua atitude de atacar os carregamentos de armas que o governo de Damasco troca com o Hizbollah, assim como as respostas esporádicas contra eventuais morteiros que caem próximo a território israelense. Existe um canal de comunicação entre Israel e Moscou, que ainda não se sabe se será mantido após os últimos eventos. Por isso, Jerusalém apoiou o ataque americano contra a base aérea de Shayrat, na semana passada. A Síria nunca assinou um acordo de paz com Israel e se mantêm em estado de beligerância desde 1948. Então, a situação é lida com muita atenção. A preocupação é manter qualquer luta longe da fronteira sem que isto signifique um envolvimento no conflito.

Já a sociedade civil é bem diferente. O tópico discursivo do Holocausto e sua memória são muito fortes em Israel e o debate público acaba ecoando este sentimento. Muitas vezes, isto se dá de maneira negativa, com o campo oposto do debate frequentemente sendo equiparado a nazistas. Mas no caso da Síria, o ex-rabino chefe do país, Meir Lau – ele mesmo um sobrevivente do Holocausto – declarou que a tragédia síria é uma “Shoah” (a palavra hebraica para Holocausto) e disse que Israel deveria fazer algo a respeito para aliviar o sofrimento dos civis. Protestos em Tel Aviv pediram por ações humanitárias e não é raro que a sociedade civil organize doações: uma delas foi feita por habitantes do assentamento de Tekoa. Foram meio milhão de shekels levantados em menos de cinco dias para a compra de cobertores, medicamentos e equipamentos vitais para manter populações em risco. Muitos sírios também estão sendo tratados em hospitais israelenses por meio de doações.

É claro que se ouve vozes contra tais atitudes, que dizem que isto está sobrecarregando o sistema de saúde do país. Um outro acordo para trazer uma centena de crianças sírias órfãs para Israel estava parado por questões de segurança. Mas com o último ataque de gás Sarin, o Ministro do Interior Arieh Deri afirmou que dará continuidade ao processo.

Outro debate interessante se dá entre as tendências religiosas em Israel. Cada uma a seu modo, elas têm discutido como incorporar rezas para as vítimas da guerra na liturgia. No último shabat – a sexta-feira, que é um dia sagrado para o judaísmo – representantes da reforma, do movimento conservador e da ortodoxia, cada um a seu modo, procuraram trazer reflexões sobre o sofrimento do povo sírio. Não é algo simples: estamos falando de uma atitude universalista que procura pensar o sofrimento de um povo vizinho, mas perpassando uma longa historia de conflitos nacionais e eventos traumáticos.

No fim, me interesso e procuro prestar atenção nas múltiplas vozes. Por ocorrer tão perto daqui, essas questões são talvez vistas com mais paixão do que pelas impressões frias das mídias ocidentais. Dificilmente se teria algo como a jornalista Lucy Aharish – árabe-israelense, formada pela Universidade Hebraica de Jerusalém – dizendo em rede aberta que “um genocídio está acontecendo em Aleppo, a oito horas de carro de Tel Aviv”. Em suma, como historiador procuro ainda tentar fazer sentido do que acontece. Apenas li o livro de Fouad Ajami, “The Syrian Rebellion” e vejo que precisaremos de mais uns quatro volumes para apenas organizar os eventos políticos e inúmeros outros para entender o grau de tragédia e trauma que vai reverberar na Síria ainda por décadas. Como um indivíduo preocupado com a dimensão humanitária, ainda estou tentando fazer sentido das últimas imagens de mortos com gás. A descrição do rabino-chefe de que é uma Shoah, infelizmente, parece ser adequada.


Notas

[1] Presidente da Autoridade Nacional Palestiniana desde janeiro de 2005.


Leonel Caraciki – Graduado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2010). É mestre em História no Programa de História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente cursa Doutorado em Estudos sobre Israel e Sionismo na Ben Gurion University of the Negev.

1 Comentário

  1. “SHALOM LEKULAM!”(PAZ PARA TODOS!)

    ARTIGO MUITO BEM ESCRITO E QUE RETRATA A VERDADEIRA FACE DA GUERRA!

    PARABENS AO CORAJOSO RABINO ISRAELENSE QUE COMPAROU O SOFRIMENTO DO “POVO SIRIO” COM A “SHOAH”(HOLOCAUSTO). NUM PAIS REPLETO DE PESSOAS RACISTAS E DE RABINOS PRECONCEITUOSOS, A SUA AFIRMATIVA FOI MUITO CORAJOSA, POIS ELE PODE PERDER A SUA VIDA POR TER DITO TAIS VERDADES!

    FRATERNALMENTE,

    YESHURUN BEN TZION (*)

    (*) O JUDEU QUE NAO E FASCISTA! HE… HE…

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