No círculo íntimo de Hitler

Setenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o mercado editorial vê profusão de livros que buscam entender Hitler através de pessoas que viveram ao seu redor.

Por Bruno Leal Pastor de Carvalho

No final dos anos 1980, dois historiadores-biógrafos escreveram: “ainda não terminamos com Hitler”. Setenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, podemos concluir que a afirmativa continua de pé: nas prateleiras das livrarias dedicadas ao tema, o Führer ainda é o assunto predominante em livros escritos por jornalistas, historiadores e memorialistas. Até aí, contudo, nada demais. Desde o final da guerra, Hitler tem sido objeto de incontáveis trabalhos. Já se tentou desvendar sua mente através de análises psicológicas e já se explorou a sua relação com a arte, a música e a religião. Muito foi falado também sobre sua oratória, sua formação política e seus projetos de nação. Mas o que tem surgido recentemente e em grande profusão – quase como uma tendência – são os relatos da vida cotidiana de Hitler. Como ele era no dia a dia? O que fazia, falava, comia, gostava? Como lidava com as pessoas? Quais eram os seus medos? Tinha algum hobby em especial? Quem responde tais perguntas são homens e mulheres que serviram Hitler de perto, que testemunharam a sua vida íntima. É como se o leitor espiasse pelo buraco da fechadura.

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Filme alemão “A Queda” (2004). Hitler cercado de seguidores, em seu bunker, no final da guerra. Foto: divulgação.

No Brasil, recentemente, foram publicados O Pianista de Hitler, O Piloto de Hitler, Sessão Nazista – a curiosa história do vidente judeu no círculo de Hitler e No Bunker com Hitler, baseado nas memórias de uma das secretárias pessoais do Führer (o livro originou o ótimo filme A Queda (Untergang, Alemanha, 2004). Se procuramos por títulos publicados no exterior, encontramos muitos outros, como I was Hitler’s Chauffeur (“Eu fui o Chofer de Hitler”), The Hitler I Knew: Memoirs of the Third Reich’s Press Chief (“O Hitler que eu conheci: memórias do chefe de imprensa do Terceiro Reich”) ou Hitler was my friend (“Hitler foi meu amigo”), que narra a história de um fotógrafo particular de Hitler. Em 2011, também fez muito sucesso a pesquisa do historiador Roman Köster sobre o empresário Hugo Boss, apelidado como “o alfaiate de Hitler”.

Tal fenômeno – se é que podemos chamar assim – se apoia em uma inquietação: as grandes narrativas – especialmente as biográficas e históricas – ainda não conseguiram explicar Hitler satisfatoriamente. Pelo menos não da forma que uma parcela dos leitores (não-especialistas) espera. Daí, então, a avalanche de pesquisas e memórias sobre a intimidade do líder do Terceiro Reich. Esses trabalhos teriam o intuito de ampliar a nossa compreensão de Hitler através do olhar de personagens “menores” da história, secundários, quase invisíveis, nos permitindo observar nuances que as grandes narrativas ignorariam. Amigos, parentes, advogados, motoristas, fotógrafos e outros tantos que conviveram com Hitler durante sua vida poderiam, assim, deixar seus lugares de figuração e dar contribuições valiosas. Esta perspectiva não deixa de ser tributário de movimentos historiográficos conhecidos, como “a história vista de baixo”, inaugurada no final dos anos 1960, especialmente depois dos trabalhos de E.P. Thompson, e também da mais recente “história do cotidiano”, bastante em voga em países como Alemanha e Estados Unidos.

Podemos perguntar: por que isso agora?

Esse tipo de abordagem parece alinhada com a reconfiguração das coordenadas de intimidade e privacidade no mundo contemporâneo. Começamos a última década com o boom dos reality shows, que elevaram a um outro patamar a prática social do voyeurismo, e a terminamos com o enorme êxito das redes sociais online, território cuja entrada e trânsito é livre desde que concordemos em ceder parte de nossa privacidade. Nos últimos dez anos, aprendemos que ter acesso a intimidade e a privacidade é, antes de tudo, uma forma privilegiada e imprescindível de conhecer o mundo e as pessoas. Como a história faz parte deste mundo, também nos debruçamos sobre o passado e seus personagens a partir de prerrogativas deste tipo, o que não é a priori positivo ou negativo, mas apenas um dado. Essa sedução pela vida íntima do “outro” explicaria não só porque esse tipo de literatura sobre Hitler tem feito tanto sucesso agora como também o porquê do seu sucesso em si, para além do esgotamento das “grandes narrativas” da história.

O que devemos estar atentos, contudo, sejamos ou não historiadores, é com os limites desta forma de se pensar e fazer história. No caso de Hitler, o risco de se cair em uma história descolada de contexto histórico, construindo um personagem isolado de seu tempo, marcado apenas pela curiosidade, pela fofoca ou pelo pitoresco é grande, ainda mais quando falamos de um tema tão afeito a narrativas espetacularizadas, como é o caso do nazismo. Não se pode negar que saber o que Hitler gostava de ler, o que fazia nos momentos de lazer ou que assuntos conversava com seu motorista particular pode nos ajudar a entender um pouco mais sobre sua concepção de mundo. Tais informações nos ajudam, inclusive, a desmistificar Hitler enquanto um ser situado fora do plano terreno. No entanto, por si só, esse tipo de informação tem um alcance bastante limitado. Ela não é capaz de nos explicar os campos de concentração, as decisões militares, o antissemitismo, as disputas de poder ou o ardor ideológico em torno do nazismo.

Pode ser que a historiografia, mesmo após tantas pesquisas, ainda não tenha conseguido explicar plenamente as múltiplas dimensões de Hitler e do nacional-socialismo. Mas a história é exatamente esse processo de constante revisão, de contínuas redescobertas e, não raro, de avanços graduais e lacunas aparentemente eternas. Olhar Hitler pelo buraco da fechadura, adentrando virtualmente em seu círculo íntimo, é uma experiência, de fato, irresistível. Entretanto, é preciso tomar cuidado com o “voyeurismo histórico”. Seu recorte é estreito e deixa de fora muita coisa. Nós também ainda não acabamos com Hitler. Mas que isso realmente quer dizer?


Bruno Leal Pastor de Carvalho – doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. É fundador e editor do Café História. Atualmente, é pós-doutorando em História Social pela UFRJ. Pesquisa os seguintes temas: criminosos nazistas, mídias sociais e divulgação de história.

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