“Valor sentimental”: um filme como memória ferida

É uma obra que nos parece respirar devagar, mas respirar fundo. Que se encontra sempre à beira de dizer algo, mas escolhe antes sentir.
14 de janeiro de 2026
por
"Valor sentimental": um filme como memória ferida 1
Considerado um dos fortes rivais de O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro, o filme tem estreia marcada para os cinemas brasileiros em 25 de dezembro..

O mais novo filme de Joachim Trier, diretor de Thelma (2017) e mais recentemente A Pior Pessoa do Mundo (2021), acontece e se sedimenta sem muito se anunciar. Valor Sentimental, o último movimento íntimo do diretor e roteirista norueguês, nasce da ordem rara do cinema que prefere o gesto e a expressão ao impacto, a brasa ao fogo aberto e o silêncio à descrição detalhada. É uma obra que nos parece respirar devagar, mas respirar fundo. Que se encontra sempre à beira de dizer algo, mas escolhe antes sentir. E é nesse território — onde a emoção e o trauma não se confessam, apenas se revelam — que Trier constrói um de seus trabalhos mais maduros e mais interessantes.

A família como território fantasma

A narrativa se concentra em torno de duas irmãs, Nora, interpretada pela espetacular Renate Reinsve, e Agnes, incorporada por Inga Ibsdotter Lilleaas, que entram em conflito com o retorno involuntário ao pai, Gustav – Stellan Skarsgård, mais uma vez impecável – um cineasta em processo de, digamos assim, uma “ressurreição” artística depois de mais de uma década sem produzir. Mas, desde o primeiro encontro, algo lateja: essa reaproximação não nos fala sobre retorno, ela nos desvenda ruínas.

O que Trier captura em suas cenas não é o conflito explícito — é o conflito depositado. Aquele que se agrava com o passar dos anos, que fermenta lentamente e se acumula como poeira sobre uma superfície que ninguém ousa limpar. A recusa de Nora, após o convite, em participar do novo filme do pai é apenas a fissura visível de um edifício emocional, já há muito, comprometido. A substituição de Nora por uma atriz americana, Rachel Kemp (Elle Fanning), funciona como um catalisador, mas a implosão já estava anunciada desde muito antes.

A ternura que o filme nos promete nunca parece ser inteira ou suficiente. A mágoa que paira nunca é só mágoa. É tudo o que não foi dito e se transformou em gravidade.

O cinema como a linguagem da ausência

Trier filma como quem tenta tocar algo que tenta escapar. A câmera parece sempre se aproximar com cuidado, como se consciente de que qualquer movimento brusco poderia destruir a delicadeza do mise-en-scène. Há uma poesia inerente no modo como ele retrata salas, janelas, corredores, cozinhas. Esses espaços parecem armazenar a essência dos anos passados, são lugares onde uma conversa interrompida permanece vibrando no ar.

A construção do filme tem o ritmo das lembranças, ela é irregular, descontínua, algumas vezes cristalina, outras vezes opaca. Trier prefere o gesto mínimo ao discurso grandioso, como se todo o cinema fosse uma tentativa de captar a respiração – quer claramente escutamos – de um sentimento. Há momentos em que a direção lembra Ingrid Bergman ao ponto de supormos uma homenagem aberta a obras como Fanny e Alexander (1982). Em outros sentimos a pressão emocional de um filme de Jonathan Glazer. Mas que fique claro aqui que, acima de tudo, o longa nos lembra o próprio Trier e seu estilo artístico que filma as pessoas como quem tenta ouvi-las por dentro.

Performances como confissão

 É impossível falar de Valor Sentimental sem ovacionar seu elenco. Renate Reinsve, em mais um trabalho com o diretor, está em estado de hipersensibilidade, seus nervos estão constantemente à flor da pele, sua angústia é profunda e borbulhante por trás do semblante sério de uma atriz em pedaços. Ela não somente interpreta Nora — ela parece se encontrar nela. Em seus olhos, carrega uma história que o roteiro nunca verbaliza diretamente, e sua contenção tem o peso de quem já encontrou o limite do perdão. Há um momento, em particular, em que ela olha para o pai com a aflição de quem estivesse tentando encontrar nele o homem que em verdade nunca existiu. Acho que poucos atores chegam a esse nível de nuance e expressividade sem o subterfúgio de monólogos ou lágrimas.

"Valor sentimental": um filme como memória ferida 2

Já como sua irmã Agnes, Inga Ibsdotter Lilleaas é a vibração subterrânea do filme: aquilo que não vemos, mas sentimos em nosso corpo. Sua personagem é claramente o ponto de equilíbrio emocional, compaixão e perdão. Sua voz que não exige tomar a cena e mesmo assim ela a transforma ao entrar. O veterano Stellan Skarsgård, ao interpretar Gustav, faz algo precioso ao não defender o personagem. Com extrema habilidade, ele apenas o expõe e o oferece ao espectador como carne humana frágil, falha, carente e egocêntrica. O tipo de pai que ama, mas não consegue provar nem demonstrar. O tipo de homem que sente culpa, mas não sabe sustentar o silêncio que provoca.

Por fim, temos a participação da atriz norte-americana Elle Fanning, que assume o papel da estrangeira que injeta um pouco de luz na história. Sua Rachel não é apenas uma atriz contratada; é a intrusa que revela o quanto aquela família está presa ao próprio eco e a traumas não trabalhados. É a presença dela que acende tensões e ilumina sombras — como se sua juventude funcionasse como um espelho para a velhice emocional de Gustav.

A dor como estética

A fotografia de Kasper Tuxen Andersen (O Aprendiz/2024) abraça a melancolia sem embelezá-la muito. Seus planos parecem existir em estado de penumbra permanente, como se o mundo ali fosse sempre uma espécie de final de tarde — aquele instante em que a luz ainda insiste, mas o escuro já reclama o espaço.

A trilha sonora de Hania Rani surge com o pudor de quem “tira os sapatos antes de entrar” para não acordar memórias doloridas e adormecidas. São notas dispersas, quase um sussurro. E cada escolha de iluminação, cada movimento de câmera, cada corte lento e seguro contribui para essa sensação de que tudo ali está à beira de se desfazer.

O festival de Cannes desse ano reconheceu não apenas a técnica, mas o coração do filme.
Vencedor do Grand Prix de 2025, o longa lançou no ar o murmúrio coletivo de que Trier entregava algo pulsante e profundo. Já, por outro lado, como acontece muitas vezes, o público recebeu Valor Sentimental com a discrição dos filmes de pequeno porte. Sua bilheteria modesta não traduz ainda a grandeza da experiência — mas talvez isso nem importe. Há obras que não precisam vencer o mercado; precisam vencer o tempo. E tudo indica que este será o caso aqui.

O cinema que respira conosco

O verdadeiro encanto de Valor Sentimental parece-me ser a forma como ele nos devolve a nós mesmos. Não é apenas um filme sobre uma família quebrada, mas um filme sobre o que sobra de nós depois que o amor se escondeu nas dobras do tempo. Trier nos lembra que a intimidade pode ser um lugar perigoso, mas é também o único onde vale a pena se perder. Saí dele com a impressão de que escutava uma conversa que não era minha, mas que mesmo assim me incluía e deixou marcas.

Valor Sentimental não é um filme com final fechado: ele permanece. Ronda a gente como uma memória que não encontra apoio para se encostar. É cinema feito de pele, sopro e silêncio — cinema que prefere sussurrar ao mundo a gritar para ele. É uma obra que tem todo o potencial de amadurecer na cabeça e florescer no coração. Como uma carta que alguém esqueceu de enviar, mas que posteriormente o destinatário a encontra mesmo assim.

Considerado um dos fortes rivais de O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro, o filme tem estreia marcada para os cinemas brasileiros em 25 de dezembro.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

Leia também