Como o romance “Torto Arado” pode ser utilizado nas aulas de História?

Pesquisador baiana propõe sequência didática baseada na leitura do livro.
26 de dezembro de 2025
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Torto Arado foi lançado em 2019 e conquistou a crítica e público, se tornando sucesso de vendas e vencendo prêmios importantes, como o Jabuti e o Leya.

Desde que foi lançado, em 2019, Torto Arado conquistou a crítica e o público, se tornando sucesso de vendas e vencendo prêmios importantes, como o Jabuti e o Leya. O romance de Itamar Vieira Junior conta a história de uma comunidade rural descendente de pessoas escravizadas, no sertão da Bahia. A trama se desenvolve em torno das irmãs Bibiana e Belonísia e aborda temas como herança da escravidão, luta pela terra, violência, silenciamento, racismo, ancestralidade e desigualdade social.

Pensando em explorar as potencialidades da obra nas aulas de História, o pesquisador baiano Alex Conceição Costa desenvolveu uma sequência didática para ser utilizada com estudantes do Ensino Básico. O material é resultado da dissertação “O Romance Torto Arado na sala de aula: aprendizagem histórica e relações étnico-raciais”, defendida por Costa, em 2024, no Mestrado Profissional em Ensino de História da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). A pesquisa pode ser acessada aqui.

“Dos diversos temas que poderiam ser explorados a partir da sua leitura, decidimos focar a nossa discussão na sua abordagem às relações étnico-raciais, entendendo-as como uma perspectiva sobre a história do negro no Brasil”, explica Costa.

A dissertação foi dividida em três capítulos. Na primeira parte, são abordadas as características de Torto Arado e suas potencialidades para o processo de aprendizagem histórica. Em seguida, o autor expõe as atividades desenvolvidas junto aos alunos e os resultados alcançados. Por último, é apresentada a sequência didática com base no romance e nas experiências em sala de aula.

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Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, em 1979, e graduou-se em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). FONTE: Carlos Moura/SCO/STF

“Pensando essa problemática a partir das experiências que temos vivenciado na prática docente, o desafio que se apresenta é o de construir, junto aos alunos, uma visão crítica da história do negro no Brasil, que lhes possibilite uma reflexão acerca da condição atual da sociedade e da necessidade de nos enxergarmos enquanto sujeitos históricos e agentes políticos imbuídos de responsabilidades com os problemas sociais do nosso tempo”, resume Costa.

Literatura e História

Torto arado narra uma história que se passa em meados da década de 1980 e tem como temática central, as vivências de uma comunidade negra fictícia do interior da Bahia, inspirada em experiências práticas que o autor teve ao visitar algumas comunidades rurais na região da Chapada Diamantina.

Para Costa, o livro explora a complexidade cultural, social e política relacionada à questão racial, conduzindo a trama de maneira habilidosa, repleta de signos ligados à trajetória histórica do negro no Brasil. “O que nos chama a atenção na atmosfera construída pela narrativa literária, acima de tudo, é a capacidade que ela tem de levar o leitor a imergir em determinada situação fictícia a partir da mobilização de afetos”, argumenta.

A sequência didática proposta por Costa propõe um roteiro para a leitura de Torto arado e realização de oficinas que discutem a importância das comunidades quilombolas, a Lei de Terra de 1850, cidadania no pós-abolição, entre outros temas. “Torto arado possui um conteúdo baseado em fatos históricos e traz uma representação do conhecimento histórico como fator essencial para a construção de identidades e para o engajamento de determinados grupos sociais na luta por direitos. Ao levá-lo para a sala de aula, fizemos uso de um produto da cultura histórica – nesse caso, uma cultura que se manifesta a partir de uma consciência histórica crítica aos modelos tradicionais da historiografia, que privilegiavam determinadas centralidades em detrimento de outras – para viabilizar a aprendizagem histórica”, conclui.

Bruno Lima

Bruno Lima

Graduado em Jornalismo e História. Meste em História pelo Programa de Pós-graduação em História Social na Universidade de Brasília (UnB). Dedica-se a estudos de História do Brasil República, com ênfase na Era Vargas, direitos trabalhistas, História Social do Trabalho, Justiça do Trabalho, comunismo e anticomunismo e PCB nos anos 1930. Escreve regularmente sobre mestrado profissional em História (ProfHistoria) para o Café História.

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