Professores e professoras de história são mesmo doutrinadores?

Acusação é infundada e revela desconhecimento não só do processo de ensino-aprendizagem, como também do conhecimento histórico.

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Seriam professores e professoras realmente doutrinadores em sala de aula? Foto: Noah Buscher // Unplash.

O Reino de Kush (ou “Reino de Cuxe”) foi um antigo reino africano fundado 1000 a.c. Ele estava localizado ao sul do Egito, em uma região que se chamava Núbia e que hoje corresponde ao Sudão. Essa sociedade africana se tornou tão importante que, em certo ponto de sua história, chegou a dominar o Egito. Certa vez, durante uma aula sobre esse reino, perguntei à turma se haveria alguma relação, legado ou aprendizagem que nós pudéssemos ter, em nosso presente, com o Reino de Kush. Ao fazer isso, minha intenção era problematizar o processo colonizador europeu na África e na Ásia, no século XIX, bem como os efeitos terríveis desse processo para os povos daqueles continentes até hoje. O exercício foi muito produtivo. Durante a conversa, exploramos a questão do racismo estrutural, a nossa visão de um Egito majoritariamente branco e da violência, no Brasil contemporâneo, contra os negros e suas expressões religiosas e culturais.

Dias depois desta aula, fiquei sabendo que o familiar de um dos alunos havia nos criticado em uma rede social. Segundo seu entendimento, eu estaria extrapolando nosso papel como professor e “doutrinando” a turma. A pessoa acreditava que a reflexão sobre o Reino de Kush era um modo de criar “acirramentos políticos” e de “tomar partido” (mas de que ou de quem?), além de minimizar a importância dos brancos na construção da nossa sociedade. Logo, eu estaria doutrinando os estudantes, pois estaria realizando uma interpretação e não uma descrição dos fatos do passado, “livre de elementos ideológicos”, como ela acreditava que deveria ser uma aula.

Esse acontecimento não é incomum, infelizmente: a acusação de que professores e professoras de História doutrinam suas turmas se tornou muito frequente nos últimos anos. Mas e aí, os docentes estão realmente se valendo do seu lugar na sala de aula para “doutrinar” suas turmas? A resposta é não, e vamos tentar, a partir de agora, explicar porque isso não é nem um pouco verdade.

Doutrinas

Em primeiro lugar, faz parte do currículo escolar de História explicar aos alunos o que são “doutrinas”. Mas o que são doutrinas?  De acordo com os principais dicionários da Língua Portuguesa, uma doutrina consiste em um “conjunto coerente de ideias de um sistema filosófico, político, religioso ou econômico a serem transmitidas ou ensinadas”. Ou seja, doutrina nada mais é do que um corpo de ideias. Cada doutrina tem uma interpretação das coisas, seja no âmbito político, religioso e econômico etc. E a história das sociedades está cheia de doutrinas. Não é possível conhecer uma sociedade do passado sem passar pelas doutrinas que a nortearam. Portanto, a aula de História deve ensinar doutrinas diversas e se o faz é porque há, no mundo, inúmeros sistemas de pensamento e formas de entender a realidade.

Apesar disso, o Ensino de História, no Brasil e em vários outros países, nem sempre conseguiu apresentar muito bem aos estudantes da disciplina a diversidade de doutrinas que caracterizaram as sociedades no passado. Por muito tempo, o Ensino de História privilegiou doutrinas e visões de mundo marcadamente europeias, silenciando sobre doutrinas de outros povos e culturas. Vale dizer, por exemplo, que durante muito tempo as aulas de história não discutiam a cultura e as doutrinas religiosas de matriz africana, dedicando-se, quase exclusivamente, às religiões e doutrinas grega, romana e cristã.

Isso acontecia porque a aula de História era afetada por uma visão de mundo específica: a do agente colonizador europeu. Durante séculos, o Brasil foi colonizado por uma nação europeia, e isso deixou marcas profundas em nossa sociedade, a começar pela forma como entendemos a história. Acostumamo-nos, por exemplo, a ver os povos africanos e os povos indígenas como povos atrasados, passivos e sem protagonismo, enquanto que os povos europeus seriam aqueles que fizeram a humanidade realmente avançar, produzindo uma cultura “universal”.

Há algumas décadas, essa forma de escrever a história mudou. Historiadores e historiadoras em todo o mundo passaram a estudar, pesquisar e escrever muito mais sobre outros povos e culturas, e recentemente, essa “nova história”, muito mais plural e representativa, chegou, ainda que timidamente, aos livros didáticos. Acontece que, como toda mudança, essa gerou desconforto. Algumas pessoas entenderam que falar, por exemplo, de religiões de matriz africana, era o mesmo que diminuir a importância das religiões cristãs, ou ainda, que explorar a história dos povos da Ásia e os seus feitos ao longo do tempo, era o mesmo que ignorar a cultura europeia. O professor, ao fazer isso, estaria “doutrinando” suas turmas.

Ora, nada mais equivocado do que esse pensamento. O que essa “nova história” fez foi corrigir um enorme erro nas narrativas que eram ensinadas aos alunos e alunas. Ela trouxe diálogo e múltiplos olhares para sala de aula, tornado o ensino de história muito mais interessante e próximo da realidade dos alunos. Não há nada de doutrinação nisso.      

Não há como “recuperar o passado como ele realmente foi”

Em segundo lugar, não é possível apenas descrever os fatos do passado “tal como ocorreram”. Os historiadores falam sobre o passado, mas não o conseguem reproduzir. O que passou, passou. A priori, não existe um “fato histórico”. São os historiadores, ao escreverem sobre o passado, que determinam o que será um “fato histórico” e o que não será “fato histórico”. Mas calma, isso não quer dizer que o historiador seja um ficcionista. O que estamos dizendo é que o tempo passado é sempre mediado por esse historiador, que é uma pessoa carregada de subjetividades, métodos (que podem ser bem diferentes) e ideologias. Mesmo narrativas que parecem ser puramente descritivas possuem a intervenção do historiador, afinal de contas, ele poderia ter escolhido determinados eventos ao invés de outros.

No final do século XIX, muitos historiadores acreditavam que poderiam realmente descrever o passado exatamente como ele foi. Mas ao longo do século XX, os historiadores abandonaram essa visão ingênua da profissão. Então, quando falamos de história, falamos de um conhecimento sobre o passado que é sempre mediado, ou ainda, de uma narrativa que obedece a uma determinada visão de mundo. Assumir isso não equivale a assumir qualquer tipo de doutrinação por parte do professor, mas que a história é feita por pessoas e essas pessoas não estão alheias ao mundo ao seu redor. Professores de história possuem diferentes visões do passado, assim como professores de biologia possuem diferentes visões sobre a vida e arquitetos possuem diferentes visões sobre como as cidades devem ser construídas.

Aqueles que acusam os professores de história de doutrinação continuam acreditando, como alguns historiadores do século XIX, que é possível escrever a história como “ela realmente aconteceu”. Em outras palavras, acreditam que existe uma forma de ir ao passado e produzir sobre ele uma narrativa que seja puramente descritiva, sem qualquer tipo de mediação, sem qualquer interferência de natureza política ou ideológica, quase como um computador. Mas mesmo o mais potente dos computadores seria incapaz de produzir uma história livre de algum tipo de “lente”, pois esse computador precisaria ter em seu banco de dados uma série de “fatos históricos”, e “fatos históricos”, como já vimos, não nascem assim, eles precisam ser assim considerados por uma pessoa, com todas as suas preferências e visões de mundo.

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Sala de aula é o lugar da diversidade e do encontro. A ideia de doutrinação prejudica a relação entre docentes e comunidade escolar. Foto: Sam Balye // Unplash

A História é uma ciência especializada em estudar o passado e a realidade em geral. Ela cria interpretações e, ao fazer isso, permite que os estudantes e as pessoas em geral possam pensar sobre o que ocorreu no passado e, ao mesmo tempo, sobre o que ocorre no presente. O passado não é acessível por uma máquina fotográfica que retrataria com precisão tudo o que ocorreu. Ele é uma fonte de onde criamos interpretações que nos ajudam a entender a nós mesmos.

Por exemplo, se pensarmos sobre o passado da medicina ocidental, conseguiremos entender como, num processo de autocrítica constante, a pesquisa permitiu que pudéssemos compreender como as mulheres foram vistas pelos discursos médicos como um ser que deveria ser controlado e, muitas vezes, internadas em hospitais psiquiátricos. Saber e interpretar esse passado permitirá aos estudantes que olhem não apenas para a história da ciência, mas para si mesmos e para as relações que eles estabelecem com as mulheres. A ideia, portanto, é aprender para construir futuros melhores do que o nosso presente. Quem sabe um futuro sem feminicídios. 

Tábulas rasas?

Em terceiro lugar, precisamos considerar que os estudantes não são “tábulas rasas”, incapazes de dialogar, de ter opiniões e elaborar críticas. As crianças e os jovens são seres abertos a aprender com o mundo e o fazem através de intensas trocas, nunca apenas passivamente aceitando tudo aquilo que se lhes diz ou ensina. A ideia de doutrinação é completamente vazia e se sustenta na frágil ideia de que os mais jovens têm menos condições de aprender sobre a vida. Ora, pois, são justamente os jovens que têm mais capacidade de aprender e entender o mundo. Quem assistiu a uma aula de História sabe muito bem que o debate e o diálogo aberto ocorrem entre estudantes e professores, na busca de compreender melhor o que ocorreu no passado, mas também como as coisas podem ser melhores no presente. É nessa aula de História que crianças e jovens poderão, ao exercitar o diálogo, desenvolver sua competência crítica, elemento central para sua vida e para a vida da sociedade.

O tom acusatório com que apontam professores de História de doutrinadores apenas tem o objetivo de continuar, contraditoriamente, a mostrar um mundo baseado em apenas uma doutrina, uma mesma visão de mundo, àquela legada, através do genocídio e da escravização, pelo colonizador.

Uma aula de História é um espaço público onde se aprende sim doutrinas e teorias diversas, mas é, sobretudo, o lugar onde se aprende a conviver, a difícil arte da convivência, do respeito e do diálogo. Um jovem que não vai à escola e não frequenta uma aula de História onde pode debater e discutir com seus colegas e professores, não aprende a entender a pluralidade do mundo. Uma criança ou um jovem não são “tábulas rasas”, incapazes de dialogar, de contestar ou de resistir. Uma aula sobre o Reino de Kush permitiu a eles muito conhecimento sobre um povo que esteve, por séculos, afastado do direito de ser visto como um povo com cultura, vida e complexidade. Mas, também despertou neles muita curiosidade para saber por que o Reino de Kush não fazia parte dos currículos de História ou por que não se estudava/estuda as religiões de matriz africana em sala de aula.

Como citar este artigo

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de; MULLET, Nilton. Professores e professoras de história são mesmo doutrinadores? (Artigo) In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/professores-e-professoras-de-historia-sao-mesmo-doutrinadores/. Publicado em: 27 jul. 2021. ISSN: 2674-5917.

Bruno Leal e Nilton Mullet

Bruni Leal é o fundador e editor-chefe do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Nilton Mullet é doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2004). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da área de Ensino de História. Professor do Mestrado Profissional em ensino de História – UFRGS.

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