Pós-Graduação em História no Brasil: modalidades e opções

Vai começar uma pós-graduação stricto sensu este ano? Ou tem curiosidade sobre como seria esta experiência? Neste artigo, explicamos como funcionam os cursos de mestrado e doutorado em História.

Por Ana Paula Tavares

Se o mercado tem valorizado profissionais cada vez mais qualificados, também entre os profissionais a perspectiva de uma formação continuada já virou assunto corriqueiro. E há diversas formas de se investir na continuação dos estudos e na pesquisa. Neste artigo, vamos nos focar nas pós-graduações para falar da pesquisa acadêmica em História nos níveis de mestrado e doutorado.

Então, para começar, é bom esclarecermos desde já as diferenças entre os tipos de pós-graduação. Os programas lato sensu são as especializações. Aqui também estão incluídos os cursos de MBA e semelhantes (embora o nome em inglês seja “Master…”, eles não costumam ser considerados mestrados por aqui). Estes cursos devem ter duração mínima de 360h, em geral são pagos e, ao final, o aluno poderá obter um certificado de conclusão. O objetivo é a aquisição de novos conhecimentos por parte dos alunos e, para isso, os cursos são compostos prioritariamente por aulas que são oferecidas nas modalidades presencial, semipresencial e a distância. Podem ou não ter processos de seleção para ingresso no curso.

Pós-graduação em História no Brasil: muitos caminhos. Foto: Pixabay.

Já nas pós-graduações stricto sensu, os alunos atuam prioritariamente como pesquisadores, embora no doutorado seja comum o chamado “estágio docência”, quando o doutorando ministra aulas na graduação. O objetivo geral nos cursos stricto sensu é contribuir para a construção de conhecimentos a partir da realização de pesquisas especializadas que propiciem novas descobertas, novas análises/revisões e perspectivas, novos dados ou documentos, etc.1 Para isso, a carga horária de aulas é menor e há mais tempo dedicado às atividades de pesquisa e acompanhamento pelo orientador.

Também é por isso que, na área de História, o projeto de pesquisa é parte importante do processo de seleção, que costuma incluir também prova escrita e entrevista – para saber dicas sobre cada etapa clique aqui, aqui e aqui. Ao final, os mestrandos precisam defender uma dissertação para uma banca e os doutorandos defendem uma tese. Se aprovados, receberão diploma.

Aqui vale destacar que somente os cursos reconhecidos pelo CNE/MEC estão autorizados a expedir diplomas com validade nacional. Para consultar os cursos recomendados/ reconhecidos pelo MEC, clique aqui e pesquise por área de avaliação, por nota ou por região.

Opções: mestrado profissional ou acadêmico? E o doutorado?

Os cursos stricto sensu são os mestrados profissionais, os mestrados acadêmicos e os doutorados, que se diferenciam pela duração, complexidade, aprofundamento e natureza de trabalho de conclusão de curso. São oferecidos quase exclusivamente na modalidade presencial. Somente são oferecidas opções de mestrado a distância por meio do ProEB –  Programa de Mestrado Profissional para Qualificação de Professores da Rede Pública de Educação Básica, da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ligada ao MEC – Ministério da Educação.

O mestrado profissional é mais focado nas técnicas e reflexões diretamente ligadas ao exercício da profissão – no caso da área de História, é o programa que costuma concentrar as pesquisas sobre Ensino de História. Também é possível encontrar mestrado profissional em patrimônio e bens culturais ou em outras áreas correlatas associadas a atividades que podem ser desempenhadas pelos historiadores. Podem ser pagos, mas na maioria das vezes são gratuitos.

O mestrado acadêmico e o doutorado são mais focados nas pesquisas historiográficas dos mais diversos objetos e campos dentro da História. Costumam ser cursados por quem pretende seguir a carreira acadêmica, mas não são exclusivos e também podem ser cursados por quem quer desenvolver sua própria pesquisa.

As pós-graduações stricto sensu obedecem a critérios exigentes da CAPES, que é o órgão que estabelece parâmetros para avaliar a qualidade das instituições de ensino superior e pesquisa. Os programas são avaliados constantemente pela CAPES desde 1999. Saiba mais aqui.

Duração, etapas e aulas

Os mestrados possuem duração de 24 meses (2 anos), sendo que no período entre 12 e 18 meses, o mestrando deverá realizar sua qualificação, na qual uma banca deverá analisar o material de pesquisa produzido até o momento. A qualificação é como uma prévia da banca final, que pode ser dura nas críticas, mas que costuma ajudar muito no (re)direcionamento da pesquisa e prima pela sua qualidade. Já os doutorados possuem duração de 48 meses (4 anos) e qualificam também por volta da metade, 24 meses, de acordo com as regras do programa de pós-graduação.

Parece muito tempo, mas os pesquisadores já formados estão sempre com a sensação de que o tempo corre depressa demais – se prepare! E, para além da pesquisa, outras atividades contribuem para isso. As aulas de mestrado e doutorado são bem mais “puxadas” que as da graduação. A carga de leitura é grande, densa e cobre diferentes línguas estrangeiras. E sem leitura, é bem complicado manter o pique e acompanhar a turma. Há muitos artigos científicos e livros para ler em prazos bem curtos. Como estão sendo formados pesquisadores, os alunos costumam ser mais exigidos, precisam trazer suas próprias reflexões e opiniões devidamente embasadas para o debate. Como avaliação, é comum haver seminários realizados individualmente ou em dupla/grupo, além de fichamentos, notas de pesquisa e/ou artigos originais sobre temas ou autores.

Ainda em paralelo às aulas e à pesquisa, os estudantes são incentivados a participar de eventos acadêmicos e de divulgação científica, não só como ouvintes, mas especialmente compartilhando suas descobertas e reflexões sobre a pesquisa em andamento. Apresentar trabalhos em simpósios e seminários ou assistir a palestras e debates não só permite a circulação e troca de saberes, mas também contribui para o enriquecimento das perspectivas de abordagem e dos questionamentos elencados na própria pesquisa que deverá ser apresentada ao final do curso.

É comum encontrar nas salas da pós colegas vindo de outras graduações, como também é possível fazer mestrado e/ou doutorado em outras áreas do conhecimento ou em programas de pós-graduação interdisciplinares, como de memória social, patrimônio e outros. Costumam ser gratuitos, mesmo em universidades particulares. O doutorado, em geral, é cursado por estudantes que já concluíram o mestrado – seja profissional ou acadêmico.

Pesquisa, bolsas e eventos

De olho no incentivo da pesquisa como forma de promover desenvolvimento socioeconômico, cultural e identitário, os órgãos públicos – e algumas fundações ou as próprias instituições de ensino – oferecem bolsas de pesquisa, verbas para participação de eventos de divulgação científica, bolsas para estudos e pesquisas no exterior entre outros benefícios. Mas não é fácil de conseguir cada uma dessas opções e se a pesquisa depender exclusivamente de o estudante pesquisar em um arquivo em outro país, por exemplo, ele pode não ter seu projeto aprovado ou ter que comprovar que pode arcar com seus custos.

 A quantidade de bolsas de pesquisa geralmente é limitada e cada programa estabelece seu critério para premiação, que costuma ser a colocação do candidato na prova de seleção no programa, mas também podem ser adotados outros critérios como renda familiar, por exemplo. A bolsa para mestrandos está atualmente em R$1.500,00. Para doutorandos, R$ 2.200,00. Agências como o CNPq podem oferecer também a alguns doutorandos a chamada “taxa de bancada” (na faixa de R$ 400,00), que deve ser utilizada para dar conta de despesas operacionais individuais, por exemplo, viagens e insumos de pesquisa.

Além de restritas, a bolsa pressupõe dedicação exclusiva e são poucas as opções de trabalho que a legislação brasileira permite conciliar, portanto não é incomum os estudantes dividirem seus esforços entre mestrado ou doutorado e outra atividade profissional.

Quando há verbas para eventos, cada programa adota seus critérios de seleção, mas em geral é preciso fazer uma solicitação, ter uma carta de que seu trabalho foi aceito para apresentação no evento, justificar a relevância do evento e obter aval do orientador. Caso obtenha verba, será preciso prestador contas com todos os recibos ou devolver o dinheiro equivalente a gasto não comprovado.

As bolsas no exterior com financiamento do Estado estão cada vez mais raras por aqui – ainda assim vale ficar de olho nas políticas de internacionalização da CAPES – , mas há outras opções que podem ser pesquisadas, como programas específicos de faculdades ou governos estrangeiros ou de grandes fundações e agências internacionais, como os programas Erasmus e Fullbright. Em geral, é preciso haver parcerias entre a universidade no Brasil e a instituição de ensino superior e/ou pesquisa fora do país. A proficiência na língua de destino costuma ser fundamental para a aprovação nesse tipo de seleção.


Notas

1 Resolução CNE/CES n. 7 de 11 de dezembro de 2017. Disponível em: http://capes.gov.br/images/stories/download/legislacao/12122017-RESOLUCAO-N-7-DE-11-DE-DEZEMBRO-DE-2017.pdf


Ana Paula Tavares Teixeira é subeditora do Café História. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais da Fundação Getúlio Vargas (PPHPBC/FGV) , bolsista CNPq. Possui graduação em Comunicação Social – habilitação jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ (2006). É formada em teatro pela Casa de Artes de Laranjeiras – CAL (2010). Estuda História Intelectual, Imprensa, Mediação Cultural na trajetória da jornalista Yvonne Jean. Publicou no Café História o artigo Yvonne Jean, Brasília e a UnB (1962-1965).


Como citar este artigo

TAVARES, Ana Paula Teixeira. Pós-Graduação em História no Brasil: modalidades e opções. (Artigo) In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/pos-em-historia-no-brasil/. Publicado em: 15 jan. 2018. Acesso: [informar data].

3 Comentário

  1. Excelente artigo, principalmente para quem é um aspirante a mestrado ou doutorado.
    Acho que falta aparecer nesse artigo algumas linhas de pesquisa de História do Brasil, mas não sei se caberia aqui tal coisa.
    Texto esclarecedor .
    Parabéns

  2. Olá…tenho 41 anos e amo e sempre amei História….mas os rumos me levaram para a área de exatas….com a minha idade…casado e pai…comseguiria realizar esse meu desejo de anos….me tornar professor de História? Agradeço…William Schmidt

    • Olá William
      Com certeza sim. Estou com 43 anos e me graduei em História ano passado, estou na luta para conseguir entrar no mercado de trabalho. Já prestei 3 concursos, estou esperando os resultados. Nunca desista do seu sonho!
      Abraços

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