Par de sapato encontrado em Cambridge. Provavelmente foi usado para afastar os maus espíritos há cerca de 300 anos, dizem os pesquisadores. (Crédito da imagem: Unidade Arqueológica de Cambridge).

Os sapatos contra os maus espíritos

Antiga superstição registrada na Inglaterra e em diversos países desde o século XIII fala não somente sobre o imaginário sobrenatural, mas também sobre uma importante "cultura da resiliência".

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Em 2016, uma equipe de manutenção da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, trabalhava instalando cabos elétricos em uma área comum do prédio do St. John’s College, quando encontrou, sem querer, incrustado entre a chaminé e a janela, um inusitado objeto: um sapato masculino de tamanho 37 de aparência muito antiga. Intrigada com a descoberta, a equipe de obras levou o achado para o arqueólogo Richard Newman, professor da universidade. Newman analisou o objeto e revelou que realmente se tratava de um calçado muito antigo. O sapato, ele explicou, havia sido colocado ali, provavelmente, entre o final do século XVI e meados do século XVII.

O que aconteceu em Cambridge tem se repetido com alguma frequência em outros lugares da Inglaterra e da Europa. Equipes especializadas em reformas estruturais têm encontrado em meio a vigas, concreto e madeira calçados que pertenceram a outras épocas históricas. E esses objetos não foram parar ali por algum descuido de seus antigos donos. Eles foram colocados ali propositalmente. Trata-se de uma superstição que tem chamado a atenção dos historiadores e que remonta ao século XIII.

Em uma época em que o mundo sobrenatural tinha um peso enorme no imaginário social, as pessoas acreditavam que colocar um sapato nas paredes poderia proteger o local e as pessoas contra “espíritos malignos”, como “bruxas” ou “demônios”. Essa prática foi relativamente bem documentada na Inglaterra, na Suécia, na Bélgica, na Holanda, na Alemanha, na América do Norte e até mesmo na China e na Índia. Estima-se que ela tenha começado no século XIII e se mantido por alguns bons séculos.

A “historiadora dos calçados”

Especialista em calçados, a historiadora britânica June Marion Sawnn (1929-) dedicou parte de vida profissional a estudar esses calçados e as crenças por trás do ato de colocá-los nas estruturas dos prédios e casas. Entre 1950 e 1988, Sawnn foi coordenadora da coleção de botas e sapatos do Northampton Museum and Art Gallery, um simpático museu público na cidade de Northampton, Inglaterra. Inaugurado em 1865, o museu possui a maior coleção de sapatos do mundo, com mais de 12.000 pares.

No final da década de 1950, ao examinar metadados de sua coleção, Sawnn percebeu que havia um padrão para muitos calçados: eles haviam sido descobertos no meio da estrutura de prédios e casas. Ela achou muito difícil que se tratasse de uma mera coincidência e começou a estudar o fenômeno. A pesquisa a mostrou que havia mesmo uma intenção por trás de tudo aquilo. Os calçados haviam sido escondidos ali como uma espécie de amuleto contra “forças do mal”.  

A historiadora descobriu que embora boa parte desses objetos tenha sido encontrada em casas de pessoas humildes, muitos também foram localizados em fazendas, mansões, casas senhoriais, pubs, hotéis, cervejarias, hospitais, escolas, orfanatos, fábricas, faculdades e até mesmo em prédios religiosos, como igrejas e paróquias, o que mostra o quanto essa prática “pagã” era, de fato, disseminada.

Enquanto alguns calçados foram colocados na época da construção dos prédios, outros foram colocados em épocas posteriores, o que dificulta a datação exata desses objetos. Enquanto alguns pertenciam a crianças, outros eram de adultos proprietários do local.

Por que calçados? De acordo com Swann, “eles são o único item do nosso vestuário que possui o formato, a personalidade e a essência do usuário”. De fato, calçados acabam se adequando ao formato do corpo de quem os usa. Segundo o peso do corpo, a sola de um sapato, bota ou chinelo vai sendo moldada, de maneira a ter o formato único dos pés de seu proprietário. Na visão de nossos antepassados, os calçados representavam o íntimo do seu dono, e isso poderia afugentar desde maus espíritos até maus olhados.

Sawnn sublinha que os sapatos sempre foram, ao longo da história, vistos de forma especial. No Antigo Testamento, ela lembra, eles eram símbolo da autoridade e da fertilidade, enquanto que no meio secular, eles foram tomados como sinônimo de boa sorte. No Brasil, vale lembrar, há diversas tradições envolvendo sapatos. Uma delas, muito comum nos subúrbios, é atirar um calçado velho no cabo da fiação elétrica.

O mapeamento feito pela historiadora britânica mostrou ainda que chaminés e lareiras eram os lugares mais comuns para o depósito dos calçados. Mas eles costumavam também ser colocados no sótão, abaixo do piso, em saliências ou vigas, misturados ao gesso e aço. Os calçados encontrados abrangem épocas muito diferentes, indo desde a Idade Média até a década de 1930. Segundo Swann, épocas de guerras e revoluções, que despertaram grande medo, deram impulso a essa prática.

Além de botas e sapatos, os historiadores do Northampton Museum and Art Gallery localizaram também vestidos, meias, jaquetas, camisas, cintos, luvas e até garrafas, usados para o mesmo fim. Muita coisa era usada para se proteger dos perigos sobrenaturais.

É curioso notar que muitos operários que encontram esses objetos, hoje, durante um reparo, reforma ou demolição, evitam tocá-los, com medo de que possam trazer má sorte ou algum tipo de maldição. Esse medo mostra que não só as superstições continuam presentes em nosso cotidiano, como são capazes de subverter superstições antigas: o objeto que um dia fora um amuleto contra o mal se tornou, em nosso tempo presente, ele mesmo um objeto que pode representar o mal.

“Cultura da resiliência”

O mistério dos calçados encontrados em prédios antigos é uma ótima forma de conhecer um pouco mais da história cultural que se desenvolveu no final da Era Medieval e começo da Era Moderna, perdurando e transformando-se até chegar ao nosso tempo. Essas superstições não desapareceram com o desenvolvimento científico, mostrando que esses dois campos não se anulam. As pessoas valorizavam sua cultura material de forma a atribuir a ela sentidos espirituais que não lhes eram tão comuns. E não raro, como vimos, a prática estava intimamente ligada a períodos de grande dificuldade: períodos de guerra e revolução, mas também, muito provavelmente, de pestes e secas. Em geral, superstições são vistas como sinal de fraqueza, ignorância ou ingenuidade. Mas o que os calçados encontrados em chaminés e sótãos da Inglaterra nos diz é que essa é uma visão preconceituosa e limitada das superstições. Esses itens são antes de tudo, e sobretudo, expressão de uma importante cultura da resiliência. 

Referências

MCCARTHY, Andrew D. Staging the Superstitions of Early Modern Europe. Routledge, 2016.

SWANN, June. Safeguarding an age‐old craft: a shoe museum in England. Museum International, v. 45, n. 3, p. 44-49, 1993.

SWANN, June. Shoes concealed in buildings. Costume, v. 30, n. 1, p. 56-69, 1996.

Como citar este artigo

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Os sapatos contra os maus espíritos. (Artigo). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/os-sapatos-contra-os-maus-espiritos/. Publicado em: 12 jul. 2021. ISSN: 2674-5917.

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

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