“O Aniversário”: e se a democracia se tornasse apenas uma lembrança?

Lançado na plataforma Amazon Prime Video em 10 de setembro de 2026, o filme O Aniversário passou semanas permeando o debate público.
28 de outubro de 2026
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"O suspense pode ser irregular, mas sua advertência é contundente."

O que no início parece apenas uma birra geracional, toma logo contornos bem mais perturbadores. As ideias tortas de Liz, via um livro que escreveu, acabam dando origem a um movimento político chamado The Change — A Mudança, que promete uma suposta união nacional e uma nova ordem social baseada no enfraquecimento das instituições democráticas. Os desentendimentos em casa passam a refletir as transformações do país naquele momento, e cada aniversário se torna um marco na aproximação de uma realidade comparada a um pesadelo autoritário. Para fazer esse exercício, o diretor Komasa opta por concentrar boa parte dessa turbulência política em uma única família. A mesa de jantar se transforma em campo minado: um espaço de confronto entre afeto, ressentimento, privilégios e convicções ideológicas, mostrando como o extremismo pode entrar em nossas vidas de uma forma silenciosa e sorrateira por meio de pessoas próximas, e não apenas dos adversários que já reconhecemos como ameaça.

Os mecanismos do medo político

Komasa aborda o autoritarismo sem cair diretamente em suas manifestações mais evidentes. Seus trabalhos anteriores já exploram as relações entre identidade individual, instituições sociais e sistemas de controle, fazendo dele uma escolha acertada para dirigir uma história sobre a deterioração política e ética de uma sociedade. O roteiro é de Lori Rosene-Gambino, sendo desenvolvido a partir de uma história que ela criou juntamente com Komasa. Desde o princípio, a ideia foi acompanhar a família Taylor ao longo de vários anos. Com a alegoria das sucessivas comemorações,, são registradas as mudanças que acontecem tanto em casa quanto no país.

A produção foi filmada na Irlanda em 2023 com um cenário relativamente restrito; ela confere ao longa uma atmosfera íntima, quase de um palco teatral. Em vez de tentar retratar a imensidão de uma nação inteira em convulsão, Komasa concentra sua narrativa na normalização gradual da repressão e da maldade. Os saltos temporais sugerem a rapidez com que circunstâncias antes impensáveis podem se tornar parte da rotina, embora eu considere essa estrutura irregular. Algumas transições deixam acontecimentos políticos importantes pouco explicados, e a passagem do drama familiar para o suspense distópico por vezes parece abrupta.

O filme funciona melhor quando confia na capacidade do espectador de perceber o perigo por trás de propostas aparentemente razoáveis. The Change não se apresenta como um projeto de opressão, mas como uma resposta à divisão social, prometendo estabilidade e voz à população. É nesse ponto que o argumento ganha força. Movimentos autoritários raramente conquistam apoio anunciando abertamente a intenção de destruir liberdades individuais. Já conhecemos muito bem o andamento desses movimentos ao longo da história. Eles exploram frustrações, fabricam inimigos — lutando com moinhos de vento — e oferecem soluções simples, populistas e, na maioria das vezes, impraticáveis para problemas complexos. Quando as consequências se tornam incontornáveis, as instituições capazes de reagir já estão enfraquecidas.

Diane Lane, Phoebe Dynevor e a ruptura dentro da família

Diane Lane confere à professora Ellen a autoridade de uma intelectual que acredita compreender o cenário político ao seu redor, mas a arrogância intelectual da personagem acaba tendo seus pontos cegos, e esses são cruciais. Sua segurança e posição profissional não são suficientes para proteger a família das consequências das mudanças em curso. Kyle Chandler oferece um contraponto convincente como o pacato Paul. Sua tentativa de preservar a harmonia doméstica se torna cada vez mais difícil diante da obviedade da realidade. As atuações são muito boas e dão consistência ao conflito central, sobretudo quando o casal esbarra nos limites de sua influência sobre seus filhos adultos.

Phoebe Dynevor ocupa um lugar importante nessa atmosfera inquietante da narrativa. No papel de Liz, ela interpreta uma mulher cujas ambições e convicções ideológicas adquirem alcance cada vez maior — voluntária e involuntariamente. Sua transformação de ex-aluna controversa em figura associada a um movimento nacionalista e arbitrário estabelece uma conexão direta com os mecanismos que já conhecemos da radicalização política. Dylan O’Brien — um pouco exagerado — por sua vez, faz da vulnerabilidade e do ressentimento de Josh elementos centrais da desintegração familiar. Seu desejo de reconhecimento e falha em conseguir os louros atribuídos pelos pais às suas filhas abrem espaço para que frustrações pessoais se misturem à sua adesão ideológica.

O elenco também conta com as atrizes Zoey Deutch como Cynthia, Madeline Brewer como Anna e Mckenna Grace como Birdie. Formando o trio de filhas do casal Taylor, elas reagem de maneira distinta às mudanças no ambiente político. E, pessoalmente, no âmbito da obra, eu considero essas relações mais convincentes do que as explicações um pouco rasas sobre a consolidação do novo regime. O interessante aqui é o espectro:  integrantes da família não se dividem simplesmente entre defensores esclarecidos da liberdade e apoiadores incondicionais do autoritarismo. Suas fraquezas, ambições e lealdades conflitantes tornam o drama mais humano, embora, devido à duração do filme — no total apenas 111 minutos –, alguns personagens secundários recebam menos desenvolvimento do que mereciam em uma trama que carrega uma infinidade de temas a serem discutidos.

Vejo como a principal limitação a tendência do roteiro de explicar suas preocupações políticas em vez de desenvolvê-las plenamente por meio da ação, como sempre se diz no audiovisual: mostre, não descreva. A ideologia do movimento permanece vaga, e o filme passa depressa demais em sua linha do tempo por transformações institucionais que tornariam a distopia mais convincente. Os confrontos também sacrificam a discussão central em favor do choque em alguns momentos. Ainda assim, o elenco sustenta o conflito doméstico, apesar de a construção política perder força.

A supressão das liberdades não é ficção científica

Para mim, o aspecto mais perturbador de O Aniversário é o fato de que o colapso democrático pode começar muito antes da instalação de um regime abertamente repressivo. Não é necessário abolir todas as instituições de uma só vez. Basta enfraquecer e corroer a confiança pública, desacreditar as vozes independentes, normalizar a intimidação e a violência e apresentar restrições às liberdades como medidas indispensáveis para restaurar a ordem. Eleições podem continuar acontecendo e discursos oficiais podem exaltar a união nacional, enquanto as condições para uma participação política genuína desaparecem.

Na minha opinião, é isso que torna o filme tão pertinente nesse momento que vivemos. A representação dos Estados Unidos com suas inquietações contemporâneas, com a polarização, com os ataques às instituições independentes e a crescente popularidade de líderes que prometem resolver conflitos sociais concentrando poder em forma de um “messias”. Essas tensões passaram a permear nosso mundo real, e para isso basta, por exemplo, entrarmos em redes sociais. Em diferentes países, o debate público perde qualidade quando adversários passam a ser tratados como inimigos e a lealdade a um líder se sobrepõe às regras que deveriam limitar sua autoridade. A idolatria de um ídolo, a febre de um torcedor fanático de futebol, a incapacidade de enxergar erros de pensamento e ajustá-los ou a banalização do mal se sobrepõem a qualquer forma de pensamento crítico, ou mesmo da simples e pura lógica.

O Aniversário também levanta uma questão incômoda sobre aqueles que acreditam estar protegidos ao aderirem a esses sistemas. Os Taylor são brancos, têm educação, dinheiro, prestígio profissional e acesso a círculos influentes. São a perfeita família “tradicional”. E, com isso, supomos que essas vantagens seriam suficientes para mantê-los a salvo das mudanças políticas ao seu redor. Essa posição inerte dificulta o reconhecimento do perigo, enquanto as tentativas de preservar a unidade familiar — principalmente incentivadas por Paul – adiam decisões importantes. O privilégio pode alimentar a ilusão de que a repressão sempre atingirá outras pessoas.

Mesmo assim, eu gostaria que Komasa e Rosene-Gambino tivessem explorado com maior precisão os mecanismos políticos por trás do tal movimento The Change. A falta de definição ideológica e posicionamento enfraquecem parte do argumento, e o avanço dramático da trama, portanto, nem sempre nos convence. Mas preciso ressaltar que essas críticas pontuais não anulam as questões levantadas pelo longa. O autoritarismo também avança por meio de concessões cotidianas, ressentimentos pessoais e da disposição de ignorar abusos enquanto parecem favorecer nossos próprios interesses.

O suspense pode ser irregular, mas sua advertência é contundente. Nenhuma democracia está imune à deterioração social, sobretudo quando a população aceita trocar direitos por promessas rasas de segurança, tolera abusos em nome de uma suposta ordem e trata a liberdade como uma conquista definitiva. Sabemos que o perigo não começa apenas com a chegada de um governante autoritário, mas com a normalização de suas práticas e o silêncio dos que acreditam que as consequências negativas nunca chegarão à sua porta. E, com isso, o mais inquietante aqui é perceber que uma sociedade não precisa deixar de acreditar na democracia para contribuir com sua destruição. Basta aceitar, pouco a pouco, que ela já não vale da mesma forma para todos.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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