James Dean se tornou um ícone porque morreu jovem, com apenas 24 anos, num acidente de carro. Mas, se tivesse vivido, com certeza seria um ícone por causa de seu talento, que demonstrou ser imenso nos três filmes que fez e pelos quais recebeu crédito. Os clássicos absolutos “Juventude Transviada” (1955) e “Assim Caminha a Humanidade” (1956) lhe renderam indicações póstumas ao Oscar de Melhor Ator. Mas considero que seu melhor papel foi no outro filme, pouco lembrado: “Vidas Amargas” de 1955. Baseado num romance de John Steinbeck e dirigido por Elia Kazan, 60 anos depois a história virou minissérie nas mãos da neta de Kazan.
Uma noite, uma mulher coberta de sangue se arrasta até a porta da casa de Adam (Christopher Abbott) e Charles Trask (Mike Faist). Fiquemos com esta imagem mental.
Vinte e cinco anos antes, em 1874, encontramos Adam e Charles como meio-irmãos treinados pelo pai para serem soldados. Dez anos depois, contrariando as vontades dos meninos, o pai planeja que Adam se aliste na cavalaria e Charles fique cuidando da fazenda. O pai justifica a imposição dizendo que Adam é seu filho favorito e, por isso, pode exigir mais dele.
Adam passa muitos anos na cavalaria e para sempre será assombrado pelos gritos da gente indígena inocente, cujas cabanas ele e seu regimento dizimaram. Ele volta para casa já sem o pai e descobre que o genitor: 1 -nunca lutou na Guerra de Secessão e 2 – deixou cem mil dólares para dividir entre Adam e Charles. Eles estão discutindo sobre a herança quando bate à porta a mulher coberta de sangue.
A mulher em questão é Cathy (Florence Pugh), cuja história conhecemos no segundo episódio. Acolhida por Adam, mas tratada de maneira arisca por Charles, Cathy mudará a vida de ambos de jeitos inimagináveis.
Das páginas para as telas: John Steinbeck e a família Kazan
Quem decide comparar minissérie e filme já começa com um estranhamento: o filme tem início no ano de 1917. Seu foco é a segunda geração dos meninos da família Trask, no caso Cal e Aron. Ao seguir os rapazes, vemos a movimentação do esforço de guerra, bem como outro esforço, este pessoal: a empreitada de Adam para mandar verduras congeladas da Califórnia para Nova York.
Fica claro que o foco em Cal serviu para criar a lenda que foi James Dean, mas o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante ficou com Jo Van Fleet, que interpretou Kate, a equivalente à Cathy da minissérie de Zoe Kazan. E aqui está a principal diferença entre os dois produtos audiovisuais: o protagonismo feminino que temos atualmente.
No filme de 1955, o dramaturgo e roteirista Paul Osborn ficou com a missão de adaptar a quarta e última parte do romance “East of Eden”, publicado por John Steinbeck três anos antes. A primeira ideia de Elia Kazan era escalar Marlon Brando como Cal e Montgomery Clift como Aron, mas ambos tinham mais de 30 anos e eram, portanto, velhos demais para interpretar os irmãos adolescentes. Reza a lenda que, ao ser apresentado para James Dean no set, John Steinbeck, que havia colaborado no roteiro de um filme anterior de Kazan, “Viva Zapata!” de 1952, exclamou: “Jesus Cristo, ele É Cal!”.
A minissérie de 2026 foi adaptada pela própria Zoe Kazan e cobriu todo o romance de Steinbeck, que inclusive considerava este livro sua obra-prima, dizendo até mesmo que tudo o que escreveu antes o levou para a consolidação como escritor com este livro. Ele ganharia o Prêmio Nobel de Literatura em 1962.
Por ser mais extensa, a minissérie deu conta de tocar em mais temas presentes na obra original. E há um momento de protagonismo dos coadjuvantes no terceiro episódio, quando o irlandês Samuel Hamilton (Ciarán Hinds) e o criado chinês Lee (Hoon Lee) discutem estereótipos e mostram ser pessoas bem mais complexas do que os outros imaginam. Lee segue por mais alguns episódios como destaque, mostrando-se culto, leal e esforçado, mas com oportunidades raras por conta de sua origem chinesa.
Cathy diz que “a única liberdade verdadeira que existe neste mundo é a liberdade econômica, e para a mulher moderna isto apresenta um problema”. Cathy sacrificou uma vida que era esperada para uma mulher em sua época em troca de tomar as rédeas de seu destino. Seu protagonismo na minissérie dá origem à questão: ela foi má ou apenas incompreendida? A opinião é de cada espectador, mas uma coisa é certa: que bom que temos essa nova adaptação, focando numa das personagens femininas mais complexas e fascinantes de John Steinbeck.