Para aqueles que assistiram ao filme Coração Valente (1995), a história da Escócia pode parecer uma longa narrativa de resistência nacional. Nas telas das televisões, William Wallace (c. 1270–1305) surge como símbolo da liberdade diante do domínio inglês, transformando-se em uma das imagens mais conhecidas do passado escocês. Mel Gibson cristalizou no imaginário a opressão sofrida pela Escócia e a resistência patriótica de seu povo, apesar do claro anacronismo da obra.
No dia 14 de setembro de 2026, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte passou por um dos momentos mais significativos em sua história recente. Reunidas em Cardiff, lideranças políticas da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales (nações descentralizadas) assinaram um memorando simbólico de cooperação entre seus partidos nacionalistas. Nesse memorando, há a defesa de que suas nações possuem o direito de decidir seus próprios futuros políticos e a sinalização ao governo britânico de que se prepare para possíveis mudanças constitucionais e referendos de independência.
O encontro em Cardiff reuniu representantes do Partido Nacional Escocês (SNP), do Plaid Cymru galês e do Sinn Féin norte-irlandês em torno de uma pauta comum: a revisão da relação entre Westminster e as nações descentralizadas do Reino Unido, visando maior autonomia e, possivelmente, a independência de suas nações.
“Nossas nações têm o direito à autodeterminação. Nenhum governo de Westminster tem o direito de bloquear a democracia ou minar o princípio de que nosso povo decidirá seu próprio futuro”, afirma memorando assinado pelas lideranças dos três partidos.
Apesar da articulação, suas histórias, reivindicações e projetos políticos são distintos. O SNP busca um novo referendo de independência. Em 2014, o referendo realizado resultou em 55% do eleitorado escolhendo a permanência do país da gaita de foles e do kilt no Reino Unido. Agora, pós-Brexit, há a expectativa de que os votantes do “Yes” pela independência da Escócia sejam maioria; os setores nacionalistas galeses, por sua vez, tendem a afirmar o desejo de maior autonomia e de uma reformulação do financiamento Barnett, o qual organiza a gestão orçamentária do Reino Unido, mas as referências a um possível referendo são as mais vagas entre as três nações; e, na Irlanda do Norte, as discussões evocam o Acordo de Belfast (1998) e os procedimentos já estabelecidos para uma possível reunificação irlandesa.
Seria tentador interpretar esse episódio como a continuação inevitável de uma antiga luta iniciada em tempos extremamente longínquos. Mas o encontro de 14 de setembro é parte de uma disputa contemporânea sobre como deve ser organizada a autoridade política dentro do Reino Unido — uma disputa que, embora em um contexto completamente diferente, recoloca questões recorrentes na história constitucional britânica, como aquelas debatidas na Irlanda do século XVIII sobre os limites da autoridade legislativa. Vejamos como ocorreu a reunião de reinos que constitui o Reino Unido.
País de Gales
Após a conquista de Gwynedd por Eduardo I da Inglaterra (1239-1307) no século XIII, a incorporação de Gales ao reino inglês foi consolidada apenas nos Atos de União de 1536 e 1543, no reinado de Henrique VIII (1491-1547). O direito consuetudinário inglês substituiu as leis galesas tradicionais e a língua galesa foi banida da administração pública. Essa incorporação fez com que, por muito tempo, Gales fosse tratado como uma mera extensão do território inglês.
Em 1830, foram abolidas as Great Sessions, corte judicial em vigor há séculos. Contudo, essa tentativa de homogeneização encontrou forte resistência no final do século XIX, principalmente quando o debate sobre o Home Rule irlandês inflamou lideranças políticas galesas a defenderem uma autonomia similar para Gales, culminando no movimento Cymru Fydd (“O Gales do Futuro”). Apesar da fragmentação do Cymru Fydd, a experiência estabeleceu uma relação entre a busca por instituições representativas galesas e a defesa de sua herança cultural.
Levaria quase um século desde a abolição das Great Sessions até a fundação do Plaid Genedlaethol Cymru (Partido Nacional do País de Gales) em 1925. Durante a Segunda Guerra Mundial, a recusa de membros do partido em alistar-se por razões estritamente políticas (levando à prisão de vários militantes) foi interpretada pelo líder Saunders Lewis (1893–1985) como a prova irrefutável da resistência de Gales perante a assimilação inglesa. Para expandir a sua influência, o partido aderiu em 1950 ao Parliament for Wales Campaign, um movimento interpartidário inspirado em movimentos escoceses similares.

Quando o processo de concessão de autogoverno para questões locais (devolution) foi votado em 1997, a população galesa aprovou por uma margem mínima, menos de 1% de diferença nos votos favoráveis e desfavoráveis, a criação da Assembleia Nacional do País de Gales, refletindo uma integração muito mais profunda com a Inglaterra do que a observada na Escócia. No entanto, nas últimas décadas, a percepção de que Gales recebe recursos insuficientes e a perda de fundos europeus pós-Brexit reacenderam a insatisfação constitucional.
Escócia
Depois de séculos de hostilidade entre Inglaterra e Escócia, a morte da rainha Elizabeth I (1533–1603), a “Rainha Virgem”, sem herdeiros diretos, significou a ascensão da dinastia Stuart ao trono inglês e a união das coroas dos dois reinos. Nos últimos anos do século XVII, devido à tentativa desastrosa de colonização do Istmo de Darién, no atual Panamá, a elite política e financeira escocesa foi levada à falência. Economicamente vulnerável, a Escócia concordou com a sua incorporação no ano de 1707 em troca do pagamento das dívidas escocesas. Foi esse Ato de União que criou o Reino Unido da Grã-Bretanha e integrou seus parlamentos.
Apesar do protestantismo compartilhado pelos dois reinos e de os presbiterianos terem juntado forças com os anglicanos ingleses em diferentes ocasiões contra os “inimigos católicos”, o Ato de União encontrou oposição em ambos os reinos. Ao longo do século XVIII, os políticos de Westminster concebiam a maior parte do território das Highlands escocesas como tão selvagem quanto as colônias norte-americanas.
Após a consolidação do Estado britânico, especialmente com o fim das rebeliões jacobitas do século XVIII, as Highlands gaélicas foram vistas pelo governo como uma região potencialmente desestabilizadora. Não à toa, tem-se a proibição ou tentativa de supressão de símbolos culturais, como o tartan, visando à anglicização do povo escocês. Esse processo favoreceu a integração das Highlands ao Estado britânico e contribuiu para a marginalização de elementos da cultura gaélica, enquanto elites das Lowlands, mais próximas culturalmente da Inglaterra, tiveram maior participação na nova ordem política.

O padrão apresentado acima foi retirado de Authenticated Tartans – The Clans and Families of Scotland (1850), de William e Andrew Smith.
Essa divisão entre as Highlands e as Lowlands, contudo, não impediu que a Escócia se tornasse um dos motores do próprio Império Britânico nos séculos XIX e início do XX. Integrados ao comércio colonial e à Revolução Industrial (transformando Glasgow em uma das principais capitais industriais do mundo), os escoceses experimentaram um longo período em que o pertencimento ao Reino Unido era visto como altamente vantajoso. Foi apenas no século XX, com o declínio do império, a desindustrialização e o desmantelamento progressivo das garantias sociais britânicas no pós-guerra, que a ideia de união começou a perder sua atratividade econômica e política.
É nesse contexto que surge o Partido Nacional Escocês. Criado em 1934, o SNP permaneceu à margem da política britânica até a década de 1970, quando projetou o slogan “o petróleo é da Escócia”, canalizando a insatisfação local com a gestão de Westminster. Ao conquistar a maioria no Parlamento Escocês em 2007, o SNP deixou de ser um partido de protesto para se tornar a força política mais forte da Escócia há mais de vinte anos ininterruptamente, protagonizando momentos cruciais da história escocesa, tal como a liderança do partido pelo referendo de 2014.

A Escócia é interessante porque falamos de um “separatismo dentro do separatismo”. Isso acontece devido ao aumento do fervor do separatismo escocês pela decisão do Reino Unido de se separar da União Europeia (UE). Ou seja, o separatismo britânico (pelo fim da participação na UE) alimenta e impulsiona o separatismo escocês. E por quê? A Escócia, em sua integralidade (não populacional, mas sim por “zonas eleitorais”), votou pela permanência na UE; entretanto, o resultado para o Reino Unido todo foi pela saída da UE devido à maior densidade demográfica da Inglaterra. Dessa forma, o Brexit reanimou a força dos movimentos por independência: a Escócia foi obrigada a deixar a UE contra a vontade da maioria de sua população. Se os escoceses votaram pela permanência e ainda assim foram forçados a deixar a UE, Westminster os representa ou os controla?
Irlanda
A Irlanda, por sua vez, apresenta talvez a relação mais conflituosa com o Estado Britânico. Como afirma Thomas Bartlett, professor emérito de História Irlandesa da Universidade de Aberdeen, “desde o início [da União], existiu uma questão irlandesa, de uma forma que nunca houve uma questão escocesa, muito menos uma questão galesa (ou inglesa). Ou melhor: a questão inglesa era a questão da Irlanda”.
No século XII, o rei Henrique II da Inglaterra (1133–1189) invadiu a Irlanda e estabeleceu o controle sobre uma faixa territorial ao redor de Dublin. Foi apenas em 1542, durante o reinado de Henrique VIII, que os reis ingleses começaram a se intitular “reis da Irlanda” e seguiram, principalmente os reis da dinastia Stuart, com um projeto de confisco de terras de católicos irlandeses e a entrega dessas terras a colonos protestantes ingleses e escoceses, especialmente na região do Ulster — digno de nota: todas as províncias da Irlanda do Norte, ou seja, da “Irlanda britânica”, estão localizadas exatamente nessa região.
Durante o século XVIII, a Irlanda fazia parte da monarquia britânica, mantendo instituições próprias, como o Parlamento de Dublin, mas submetida às limitações constitucionais impostas por Londres. Entre o movimento patriota irlandês, intensificou-se a insatisfação com essas limitações, entendidas como evidências inquestionáveis da opressão sofrida pelos irlandeses, ecoando discussões que ocorriam também nas colônias britânicas no Novo Mundo, que dariam origem aos Estados Unidos da América.
Nesse período, Henry Grattan (1746–1820) foi um dos principais nomes da reivindicação de autonomia irlandesa. Membro do Parlamento irlandês por Dublin, sua atuação foi fundamental para a chamada “Constituição de 1782”, quando o Parlamento britânico reconheceu a independência legislativa do Parlamento irlandês após décadas de restrições impostas por Westminster. Grattan defendia que a união política entre Irlanda e Grã-Bretanha — isso é, a coroa compartilhada — poderia ser legítima apenas caso preservasse a capacidade de cada comunidade governar seus próprios assuntos. Ele seria um opositor ferrenho do Ato de União de 1800.
Para Grattan, a ameaça à liberdade não ocorria apenas por meio de rupturas violentas, mas também pela lenta concentração de poder em uma autoridade hostil à liberdade dos corpos políticos, como, segundo ele, a Grã-Bretanha em relação à Irlanda. O problema constitucional não seria a simples existência de uma união política, mas a possibilidade de que essa união eliminasse a capacidade de uma comunidade governar seus próprios assuntos. Anos depois, essa seria a preocupação de Grattan com o Ato de União de 1800.
Durante o século XIX, o movimento pelo Home Rule (criação de um Parlamento em Dublin para gerenciar o governo local, mas mantendo a soberania britânica nas questões externas) retomou uma questão semelhante àquela debatida pelos Irish Patriots: a Irlanda poderia ter instituições próprias para administrar seus assuntos internos sem romper completamente com a monarquia e o Estado britânicos? A resposta permaneceu controversa, especialmente entre as comunidades que possuíam diferentes concepções sobre seu pertencimento político.

A incapacidade do Reino Unido em gerir essas tensões de forma satisfatória aos irlandeses levou à divisão da ilha no século XX. Fundado em 1905 por Arthur Griffith (1871–1922), o Sinn Féin (“Nós Mesmos”) nasceu defendendo a abstenção dos parlamentares irlandeses em Westminster e a criação de um governo autônomo. O partido redefiniu o nacionalismo irlandês ao abandonar a simples reforma constitucional e liderar, após o Levante da Páscoa de 1916, a ruptura violenta que culminou na Guerra de Independência e na criação do Estado Livre Irlandês em 1922, enquanto seis condados da região do Ulster permaneceram no Reino Unido, formando a atual Irlanda do Norte.

Nem mesmo essa separação, porém, foi suficiente para encerrar as disputas constitucionais: no novo território norte-irlandês, unionistas e lealistas defendiam a permanência no Reino Unido, enquanto nacionalistas e republicanos apoiavam uma aproximação maior com o recém-criado e independente Estado irlandês. Ao longo dos conflitos no Ulster (The Troubles), o Sinn Féin atuou como braço político do movimento republicano paramilitar do Exército Republicano Irlandês (IRA). Sua transformação, ao assinar o Acordo de Belfast em 1998 e migrar definitivamente para a via institucional, consolidou o partido não apenas como voz da comunidade católica/nacionalista, mas como a maior força política da Irlanda do Norte na atualidade — tornando a reunificação da ilha uma pauta de governo real.
“Garrafas quebradas sob os pés das crianças
U2, Sunday Bloody Sunday (Música da banda irlandesa U2 como crítica à violência extrema travada por ambos os lados, republicanos e unionistas, durante The Troubles)
Corpos espalhados pela rua sem saída /
Mas não atenderei ao chamado para a batalha.
Isso me deixa irritado, me coloca contra a parede”
Hoje, na “Irlanda britânica”, existem “bairros católicos” republicanos que hasteiam provocativamente bandeiras da República da Irlanda e da Autoridade Palestina, enquanto “áreas protestantes” unionistas hasteiam bandeiras do Reino Unido e de Israel. Essa reinterpretação de símbolos internacionais parece refletir justamente os conflitos locais entre republicanos e unionistas, expressando narrativas próprias desses setores sobre soberania, resistência e pertencimento a partir de afiliações virtuais à casos externos.
O final do século XX representou novas tentativas de administrar essas tensões por meio da negociação. O Acordo de Belfast (1998), por exemplo, reconheceu o princípio do consentimento para mudanças constitucionais. No mesmo período, aquele processo de devolução de poderes locais, o qual chamei anteriormente de “devolution”, criou instituições legislativas na Irlanda do Norte, e também na Escócia e no País de Gales. A medida pretendia fortalecer a união ao conceder maior autonomia, contudo, produziu um aparente paradoxo: ao mesmo tempo em que reconheceu a diversidade interna do Reino Unido, também fortaleceu instituições locais capazes de questionar os limites ou até mesmo a existência dessa união.
Afinal, quem tem o direito de governar?
O caráter continuamente negociado do Estado britânico precisa lidar com tensões permanentes entre os poderes locais e os poderes centrais. As integrações galesa, escocesa e irlandesa não eliminaram sua heterogeneidade cultural, política e social. Em outros termos, a estabilidade do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda (do Norte) não estava atrelada à impossível eliminação dessas tensões, mas sim à capacidade do governo britânico em reconhecer, acomodar e, quem sabe, redefinir essas diferenças. O desafio tem sido, justamente, encontrar o equilíbrio entre a autoridade de Westminster e a autonomia de suas partes constituintes.
Quando líderes escoceses, galeses e norte-irlandeses questionam a relação com Westminster, eles não estão necessariamente introduzindo uma questão completamente nova. Na verdade, eles retomam, em um contexto político radicalmente diferente, perguntas que acompanham continuamente a formação do próprio Reino Unido: “quem possui autoridade legítima para governar essa comunidade política e qual o nível de autonomia ideal para as províncias?”. Por isso, a crise constitucional britânica precisa ser compreendida à luz da longa história de negociações dentro de suas especificidades.
O encontro de 14 de setembro não pode ser interpretado como o princípio do capítulo final de uma narrativa secular de resistência nacional, tampouco como uma consequência inevitável. O conhecimento histórico demonstra como as identidades políticas e os projetos de autonomia foram continuamente construídos e reelaborados de acordo com contextos específicos. William Wallace, Henry Grattan ou os movimentos nacionalistas contemporâneos pertencem a momentos históricos distintos e responderam de formas únicas a problemas diferentes.
A “identidade britânica” demonstra essa reelaboração contínua. Associada a elementos religiosos compartilhados, a ideia de “britanicidade” funcionou como uma identidade supraterritorial capaz de aproximar comunidades distintas. Entretanto, ela nunca eliminou pertencimentos anteriores. As identidades escocesa, galesa e irlandesa continuaram existindo ao lado da identidade britânica, produzindo uma sobreposição de identidades que caracterizou a própria formação do que é “ser britânico”.
O futuro constitucional do Reino Unido permanece aberto. Novos referendos, reformas constitucionais ou mudanças na relação entre Westminster e as nações descentralizadas dependerão de disputas políticas próprias do século XXI, e não de um destino histórico previamente determinado. Entretanto, compreender a formação e as crises da união britânica revela que a reflexão histórica sobre o pacto multinacional continua viva: em uma comunidade política formada por diferentes povos, culturas, tradições, instituições e histórias, qual é a autoridade legítima para governar? Para as lideranças dos partidos nacionalistas da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales reunidos em Cardiff, a resposta já está dada:
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Como citar este artigo
CARNEIRO, Marcos Paulo. Um reino dividido: como entender os separatismos no Reino Unido. Ed. Bruno Leal. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/um-reino-dividido. ISSN: 2674-5917.