“Insaciável”: o verdadeiro horror já criou raízes dentro de nós

O terror de nunca ser bonita ou magra o suficiente.
1 de setembro de 2026
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Saccharine, filme que recebeu o título Insaciável em português, chegou aos cinemas brasileiros em 6 de agosto. A produção pertence à plataforma de terror Shudder, que, para minha tristeza (e a de todos os fãs do gênero) ainda não está disponível oficialmente no Brasil. O longa, que passou de forma relâmpago apenas em algumas salas selecionadas, deve chegar posteriormente ao aluguel digital das grandes plataformas. Mas, mesmo com o acesso limitado, resolvi indicar para vocês esse filme, que, a meu ver, está mais do que nunca em sintonia com a ditadura da beleza que aflige as mulheres mundialmente. Em tempos em que lamentamos o retorno do insalubre modelo heroin chic dos anos 90 e começo dos 2000, nada mais importante do que sair do glamour das redes sociais e sua estética inatingível e voltar nossos olhos e ouvidos para os sentimentos que essas regras causam, principalmente em mulheres jovens.

A direção do filme é de Natalie Erika James, cineasta japonesa-australiana que vem construindo, com seu estilo, uma filmografia bem singular no horror. Insaciável é seu terceiro longa-metragem, depois de Relic, de 2020, e Apartment 7A, de 2024. Em Relic, seu primeiro longa, James colocou três gerações de mulheres no centro de uma história sobre memória, envelhecimento e perda. Já em Apartment 7A, a diretora revisitou o universo de O Bebê de Rosemary na história de Terry, uma jovem bailarina interpretada por Julia Garner — que, após A Hora do Mal (2025), também surge como protagonista. O filme explora ambição, vulnerabilidade e manipulação. Os dois trabalhos ajudam a entender a trajetória de James, que costuma partir de experiências femininas reconhecíveis e transformá-las em situações de horror. Ambos os filmes estão disponíveis em plataformas de streaming.

Aqui a protagonista de Insaciável é Hana, vivida em uma atuação impressionante por Midori Francis, atriz norte-americana de ascendência japonesa. Francis ganhou destaque com Dash & Lily, da Netflix, e participou da série The Sex Lives of College Girls, da HBO. Em Insaciável, Midori assume um papel mais exigente e físico que os anteriores de sua carreira. A personagem Hana é uma estudante de medicina que mantém uma relação bem complicada com o próprio corpo. Ela também se preocupa constantemente com o jeito como é vista pelas outras pessoas. A questão ultrapassa a insatisfação com a aparência e se aproxima muito da dismorfia corporal.

Então, em um determinado momento da narrativa, Hana encontra uma maneira aparentemente “milagrosa” de perder peso rapidamente. Em um filme de terror, uma solução tão fácil nunca chega sem consequências. E em especial aqui, o meio de se obter a matéria misteriosa é no mínimo soturno e deveria servir de aviso. Mas Hana ignora todos os sinais.

Em guerra contra o próprio corpo

O que mais me interessa em Saccharine é a forma como a diretora Natalie utiliza o horror para falar sobre a pressão estética. O filme mostra como nós, mulheres, somos ensinadas desde cedo a enxergar o nosso corpo como algo que precisa ser modificado. A diretora transforma imagem corporal, compulsão alimentar, vergonha e expectativas sociais em boa parte da experiência de Hana.

O tratamento do corpo da protagonista passa a representar sua luta contra tudo aquilo que ela não aceita ser. Quanto mais ela tenta alcançar um padrão, mais sua transformação se torna tétrica e perturbadora. O filme trabalha muito com a relação, quase direta, entre desejo e (auto)destruição. A vontade de finalmente se sentir bem consigo mesma leva Hana a um caminho de perda de controle sobre o próprio corpo.

E é nisso que o filme encontra espaço em um debate que, lamentavelmente, é sempre atual. O mercado de emagrecimento cresce com a pressão por resultados cada vez mais rápidos. Medicamentos, procedimentos estéticos e novas promessas de transformação aparecem constantemente nas redes sociais e na mídia de uma forma geral. Natalie leva essa realidade para o horror e questiona uma sociedade que transforma artificialmente inseguranças em produtos e insatisfação em lucro.

Dentro disso, Insaciável estabelece uma conversa direta com a cultura contemporânea de medicamentos para emagrecimento — os da vez são as canetinhas — e com a cobrança pela aparência. O filme nos oferece a ideia de que precisamos modificar nosso corpo para merecer amor, desejo ou mesmo reconhecimento. A aparência passa a funcionar como uma espécie de moeda social de alto valor. E quanto mais distantes estamos do padrão, maior parece ser a cobrança para nos aproximarmos dele.

A pressão por um corpo ideal

Midori Francis entrega uma das melhores atuações do filme. A atriz constrói uma Hana claramente vulnerável — principalmente em sua sexualidade — e cada vez mais desesperada. Ela não interpreta apenas uma mulher preocupada com a aparência. Ela mostra alguém que deseja ser desesperadamente aceita, desejada e reconhecida. No fundo, Hana só quer deixar de acreditar que existe algo errado com ela.

O trabalho físico da protagonista também ganha importância durante o desenrolar da história, assim como a produção de arte e a fotografia. A transformação que Hana sofre foi construída em diferentes etapas e combinou próteses, figurino corporal e técnicas de atuação. O corpo de Hana acompanha a deterioração emocional da personagem e funciona como parte essencial da narrativa. E aqui vale deixar um alerta importante de gatilho: Insaciável aborda imagem corporal, alimentação, emagrecimento e obsessão estética. O body horror aparece de maneira bastante física e pode ser desconfortável para espectadores que sejam sensíveis a esses temas.

A reflexão que nos acompanha fora da tela

Insaciável nos mostra de uma forma direta e cruel as exigências que internalizamos em nosso crescimento. Então não se trata de um filme sobre simplesmente emagrecer. É uma obra-alerta sobre o preço de tentar se transformar na pessoa que a sociedade espera que você seja. Não é fator central o quanto alguém — ou nós – pode perder de peso para mudar completamente o próprio corpo. A reflexão é sobre o quanto as pessoas se dispõem a se sacrificarem para se encaixar em cabrestos socialmente impostos.Não por acaso é nesse ponto que o filme encontra seu aspecto mais assustador.

O monstro não precisa aparecer para nós em um quarto escuro. Ele pode existir naquela voz que aprendemos desde nossa infância a carregar em nós. A voz que repete que ainda falta alguma coisa, alguns quilos, uma mudança, um procedimento ou um novo padrão a ser alcançado e assim finalmente ficarmos satisfeitos com nossa aparência. Uma ilusão que vira uma verdadeira tarefa de Sísifo. O terror de Insaciável está na (im)possibilidade de reconhecermos aquela cobrança em nós mesmos. O filme transforma essa crescente pressão em horror, em decepção, em tristeza ou desespero e nos obriga a olhar para uma sociedade que lucra justamente com a nossa insatisfação, que utiliza o fator estético como distração de perguntas mais relevantes que poderíamos fazer.

E eu acho que seja essa a provocação mais importante de Insaciável. O corpo que deveria pertencer somente a nós acaba se tornando um espaço de julgamento público. E, quando passamos a acreditar que precisamos destruí-lo e reconstruí-lo para sermos aceitos, o verdadeiro horror já criou raízes em nós.

Tais Zago

Tais Zago

Tem 46 anos. É gaúcha que morou quase a metade da vida na Alemanha mas retornou a Porto Alegre. Se formou em Design e fez metade do curso de Artes Plásticas na UFRGS, trabalha com TI mas é apaixonada por cinema.

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