Fake News na história: uma bibliografia comentada

Um antigo provérbio português diz que “a mentira corre mais que a verdade”. Essa corrida começou faz tempo. A mentira tem uma longa história.

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Um antigo provérbio português diz que “a mentira corre mais que a verdade”. Na “Era do WhatsApp” é difícil duvidar dessa máxima popular. Hoje, a mentira parece ter fôlego de maratonista. As fake news, ou, em bom português, as notícias falsas, correm rápido nas tramas das redes sociais; aparecem na forma de vídeo, de texto e de áudio. Misturam-se ao fantasioso, ao fanatismo e principalmente às teorias conspiratórias. Apresentam-se como notícias propriamente ditas, alertas salvadores e até mesmo como história.

Uma pesquisa internacional realizada e divulgada em 2019 pelo Centro para a Inovação em Governança Internacional (CIGI), sediado no Canadá, revelou que 86% das pessoas admitiram ter acreditado em pelo menos uma notícia falsa. Foram ouvidas na pesquisa pessoas de 25 países, e em 82% dos casos essas fake news, segundo os respondentes, estavam em redes sociais como Facebook e Twitter. É bastante assustador.

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Fake News: um dos maiores fenômenos sociais e políticos de nosso tempo. Foto: Pixaby.

Mas as notícias falsas não são uma novidade. É possível encontrá-las muito facilmente no passado, em suas múltiplas denominações e formatos. Muito antes do surgimento da imprensa moderna e de Donald Trump, elas já estão regulando e deformando as relações sociais, derrubando governos e destruindo reputações. São usadas para diversos fins: políticos, econômicos, sociais, pessoais e coletivos. As notícias falsas, como a mentira de uma forma geral, são constitutivas da experiência humana ao longo do tempo.

Nessa bibliografia comentada, escolhi 10 leituras, entre artigos e livros, em português e inglês, que podem ajudar o leitor a ter uma visão histórica das fake news. A ideia é mostrar como as notícias falsas sempre fizeram parte de nossas comunidades. Na verdade, as leituras aqui sugeridas falam não só das notícias falsas, mas de várias manifestações do falseamento: as meias-mentiras, os boatos, os plágios, os exageros, os impostores, os golpes, as fraudes, os livros apócrifos, a falsidade ideológica, o perjúrio e as campanhas difamatórias.

Espreme que sai sangue: um estudo do sensacionalismo na imprensa
Autor: Danilo Angrimani
Ano: 1995
Editora: Summus Editorial
Lançado em 1995, o livro de Danilo Sobrinho Angrimani é uma versão condensada da sua tese de doutorado, defendida em 1993 na Universidade de São Paulo. Como o título deixa claro, o autor faz uma análise da imprensa sensacionalista, desde o seu surgimento, na Europa do século XIX, até o final do século XX, quando os tabloides e outros forma-tos populares vão explorar perversões, fetiches e o voyeurismo para vender seus exempla-res. Angrimani examina vários produtos impressos do passado que se valem do inverídi-co e di insólito. Um desses produtos são as chamadas occasionnels, brochuras que circu-laram na França dos séculos XVII e XVIII. As occasionnels eram especializadas no rela-to dos fait divers (notícias insólitas e pitorescas do cotidiano) e se caracterizavam pelo “exagero, a falsidade ou inverossimilhança (…) imprecisões e inexatidões”.
História da mentira: prolegômenos
Autor: Jacques Derrida
Ano: 1996
Editora: Revista Estudos Avançados
A mentira conquistou a atenção do conhecido filósofo francês Jacques Derridá nos últi-mos anos de sua vida. Em 1996, Derridá publicou um ensaio, traduzido para o português, intitulado “História da mentira: prolegômenos”. Nesse texto ele defende, por exemplo, que a mentira é sempre um “ato intencional”. Suas próprias palavras: “mentir seria dirigir a outrem (pois não se mente senão ao outro, não se pode mentir a si mesmo, a não ser a si mesmo enquanto outro) um ou mais de um enunciado, uma série de enunciados (constati-vos ou performativos) cujo mentiroso sabe, em consciência, em consciência explícita, te-mática, atual, que eles formam asserções total ou parcialmente falsas; é preciso insistir desde já nessa pluralidade e complexidade, até mesmo heterogeneidade. Tais atos intenci-onais são destinados ao outro, a outro ou outros, a fim de enganá-los, de levá-los a crer (a noção de crença é aqui irredutível, mesmo que permaneça obscura) naquilo que é dito, numa situação em que o mentiroso, seja por compromisso explícito, por juramento ou promessa implícita, deu a entender que diz toda a verdade e somente a verdade”. O artigo poder ser baixado de graça aqui.
Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news
Autor: Matthew D’Ancona
Ano: 2018
Editora: Faro Editorial
Este livro é indicado para quem deseja compreender o fenômeno das fake news nos dias de hoje, das mídias digitais, bem como a sua relação com a pós-verdade (que, brevemente, pode ser explicada como uma época em que os aspectos emocionais da narrativa falam mais alto do que os fatos). D’Ancona é jornalista e escreve uma coluna semana no jornal The Guardian, da Inglaterra. O livro dele traz várias problematizações importantes para se pensar o tema. É um texto jornalístico. Então, não espere notas de rodapé e debates aca-dêmicos muito aprofundados, embora o material seja bem documentado e argumentado. O autor examina a retórica de Trump, discute a questão do “Bexit” e também o negacionismo do Holocausto. D’Ancona usa o termo “nova audiência política” para tentar compreender a forma como as pessoas consomem notícias na atualidade.
Renaissance impostors and proofs of identity
Autor: Miriam Eliav-Feldon
Ano: 2012
Editora: Springer
Livro interessantíssimo sobre uma antiga forma da mentira: o impostor. Nesta obra sobre impostores na renascença, a historiadora explica que é possível considerar a Europa Mo-derna como a “Era dos Impostores”. Em suas palavras, “homens e mulheres de todas as esferas da vida estavam inventando, fabricando e se disfarçando, mentindo sobre quem eram ou fingindo ser alguém que não eram”. E isso, diz a historiadora, incomodava as autoridades, tanto as religiosas quanto as seculares, que trabalhavam freneticamente a fim de desenvolver novos meios para auferir a identidade de uma pessoa. A autora, a propósi-to, tem um sólido e reconhecido trabalho sobre a “história da mentira”. Vale a pena conhecer o artigo Invented Identities: Credulity in the age of prophecy and exploration e o livro Dissimulation and Deceit in Early Modern Europe. Infelizmente, não há nenhum trabalho de Miriam Eliav-Feldon em português.
Regimes of posttruth, postpolitics, and attention economies
Autor: Jayson Harsin
Ano: 2015
Editora: Revista Communication, culture & critique
Esse é um texto bem importante para quem quer se aprofundar no debate sobre a chamada pós-verdade. Como você já deve ter percebido,o termo “pós-verdade” é muito corrente hoje na literatura que se debruça sobre as notícias falsas. Em 2015, o filósofo e especialista em comunicação digital Jayson Harsin cunhou uma variação dele: “regime de pós-verdade”. Mas ele não quer inventar a roda. O pesquisador estadunidense complexifica o tema ao situar a pós-verdade dentro de regimes de temporalidade e verdade. Apoiando-se na obra de Foucault, Harsin diz que cada tempo possui o seu próprio regime de verdade. O nosso engloba a proliferação daquilo que ele descreve como “mercado de verdade”. Não sabe inglês? Não tem problema. Você pode ler aqui, em português, uma entrevista que o autor deu a revista “Época” em abril de 2017.
Presidente Donald Trump em jornal. No lugar da boca, um rasgo.
O ex-presidente Donald Trump fez circular inúmeras notícias falsas durante o seu mandato. Foto: Charles Deluvio, Unplash.
Broadcast Hysteria: Orson Welles’s War of the Worlds and the Art of Fake News
Autor: Brad Schwartz
Ano: 2015
Editora: MacMillan
O historiador Brad Schwartz esquadrinha um caso clássico de fake news no século XX: a fatídica transmissão de “Guerra dos Mundos”, de Orson Welles, em 1938. Muita gente desavisada achou que o programa radiofônico de Welles fosse verdade, e que os Estados Unidos estavam sendo atacado por marcianos. Pois bem: Schwartz diz que a imprensa exagerou ao relatar as reações dos populares. A histeria foi menor do que a divulgada pelos jornais, embora tenha existido. O mais importante sobre esse caso, diz o autor, é que nós ainda não entendemos plenamente as suas lições. A persistente leitura exagerada do episódio, segundo ele explica, não só interpretaria mal o poder persuasivo da mídia e a forma como as notícias falsas realmente funcionam, como nos impediria de lidar asserti-vamente com o problema das fake news no presente. Para Schwartz, a pergunta-chave seria outra: por que “A Guerra dos Mundos” assustou algumas pessoas, mas outras não? Schwartz explica que em 1938 muitos estudiosos acreditavam que o rádio poderia sim-plesmente injetar ideias diretamente na mente das pessoas, convencendo-as de qualquer coisa. O historiador, assim, defende que a transmissão de Welles não teria simplesmente passado por cima do consciente das pessoas a fim de convencê-las de algo em que elas não acreditavam e nem acreditariam de qualquer outra forma; a grande questão em jogo aqui é que a transmissão de Welles mobilizou medos, atitudes e crenças que já existiam no imaginário de cada pessoa. Segundo resume o historiador, a mídia não consegue conven-cer o público de algo que vai contra suas atitudes ou ideias preexistentes, o que ela pode fazer – e o que ela faz, de fato – é reforçar aquilo em que as pessoas já acreditam.
The” Great Moon Hoax” of 1835
Autor: István Kornél Vida
Ano: 2012
Editora: Hungarian Journal of English and American Studies
A história da transmissão de Orson Welles em 1938 se tornou uma espécie de paradigma no campo da comunicação social, mas há uma outra história, igualmente incrível, e que também aconteceu também nos Estados Unidos, que merece a nossa atenção. Trata-se do “Grande embuste sobre a lua”. Essa história incrível é contada e examinada por István Kornél Vida nesse artigo, que pode ser lido gratuitamente aqui (caso você esteja usando a rede de uma universidade pública). Em 1835, o jornal The New York Sun precisava vencer a concorrência e decidiu apelar: inventou uma série de notícias sobre o relevo e – pasmem – as formas de vida na Lua, algumas muito parecidas com unicórnios. As vendas do jor-nal dispararam. Até mesmo gigantes do setor, como o The New York Times, deram crédito a narrativa falsa do jornal. De acordo com Vida, antes da mentira ser revelada, o que levou algumas semanas, muita gente encarou a “descoberta” como uma grande oportunidade: “Diversos grupos religiosos começaram a planear atividades missionárias entre os habi-tantes da Lua; um clérigo solicitou membros de sua congregação por fundos para comprar Bíblias para os extraterrestres. A sociedade filantropista em Londres organizou várias reuniões no Exeter Hall em Londres visando “suprir as necessidades dos povos da Lua, e, acima de tudo, abolir a escravidão caso ela existisse entre os habitantes de lá.”
O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício
Autor: Carlo Ginzburg
Ano: 2007
Editora: Editora Companhia das Letras
Carlos Ginzburg é um dos historiadores mais respeitados na atualidade. Ele e outros his-toriadores italianos desenvolveram, a partir da década de 1970, um método de análise e abordagem histórica chamada “micro-história”, que olha para pequenos aspectos do coti-diano (de uma localidade) a fim de explorar a sua relação com estruturas maiores. Em “O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício”, Ginzburg traz um pouco de sua micro-história para afalar sobre as relações entre fato e ficção. O livro combina muita erudição com deba-te teórico e estudos de caso. Não é um livro fácil para não-historiadores, mas a leitura é possível. Dentre os “causos” do livro, está o dos fatídicos “Protocolos dos Sábios de Si-ão”. Dividido em 24 capítulos, o livro apresenta-se como a cópia fiel das atas de supostas reuniões secretas envolvendo várias lideranças judaicas (“os sábios de Sião”) que tinham o intuito de dominar o mundo. Para isso, os judeus controlariam as finanças, o governo, a política e a educação. O livro, que é falso, surgiu na virada do século XIX para o XX. Mesmo tendo a farsa vindo à tona, ele continuou sendo publicado e traduzido, alimentan-do diferentes movimentos antissemitas ao redor do mundo. No livro, Ginzburg discute como essa narrativa surgiu e se tornou tão poderosa.
O abscôndito da mentira
Autor: Fernando Catroga
Ano: 2020
Editora: Revista Estudos Literários
Neste artigo acadêmico, que pode ser lido na íntegra aqui, gratuitamente, o famoso histori-ador português Fernando Catroga discute as transformações histórico-conceituais sofridas pelo conceito de “mentira”, bem como a sua relação com o de “verdade” e, sobretudo, com o de “veracidade”. Segundo Catroga, “A história da mentira não pode ser descrita como um desfile em que, paulatinamente, ela vai sendo derrotada; ela não é a parusia de uma Verdade absoluta que, definitivamente, acabará por construir a plena translucidez do mun-do. O seu percurso é traçado por uma luta sempre inconclusa, em que podem ser surpre-endidas as metamorfoses das formas, das motivações, das técnicas, das vias e dos efeitos que plasma as necessidades subjetivas e sociais do mentir. Histórica e sociologicamente falando, a mendacidade não é unívoca nos seus modos de expressão, e a pele que veste não é homogénea e inseparável dos campos e níveis em que se manifesta.”

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. Fake News na história: uma bibliografia comentada. (Bibliografia Comentada). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/fake-news-na-historia/. Publicado em: 21 dez. 2020. ISSN: 2674-5917.

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Tem pós-doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas e justiça no pós-guerra.

18 Comments

  1. Parabens por incluirem os livros apöcrifos,porque mostra conhecimento e de que as mentiras paralelas=
    Fake News, sao mais antigas do que parece!
    Tema muito interessante para que estejamos atentos ao que nos dizem atravès da Mèdia para nao sermos enganados!
    Que tenham todos um bom Natal e um pröpero ano novo!

  2. Infelizmente a maioria das pessoas que teem pouco conhecimento,pouca formaçao,acreditam nos escritos paralelos=Fake News.
    Sao pessoas maldosas que querem lançar a confusao e deleitam-se a escrever coisas que eles sabem que nao vai fazer bem a ninguèm!
    Eles leem primeiro o original e depois falsificam-no,sao pessoas que teem muito conhecimento literario,mas que por alguma razao se afastaram dessa edeologia e depois querem-na destruir,esta situaçao acontece mais na religiao,mas tambem na polìtica e nos locais de trabalho!

  3. “Os Protocolos dos Säbios de Siao”tambem fizeram grandes estragos no meio dos judeus russos,tanto que muitos tiveram que fugir,porque foram provavelmente escritos por alguèm muito proximos aos judeus e que tinham um grande conhecimento das suas doutrinas para escreverem tal obra,boato!

  4. Falsas notìcias,tambem das agencias espaciais mundiais que dao uma ideia errada de que precisamos de encontrar outro planeta para viver,isso nao è possìvel,nem necessärio!
    Este è o nosso lar,nao podemos saìr deste planeta e ir viver para outro,somos biologicamente incompatìveis com tudo o que è estranho ä nossa construçao biolögica,tal como sao todos os habitantes do Universo incompativeis entre si!
    Mesmo assim as agencias espaciais gastam rios de dinheiro a construirem mäquinas para irem para outros lugares fora do nosso sistema solar,isso nao è possìvel,porque haverä sempre um planeta mais forte do que o outro e o dominaria e o escravizaria como se de uma colonia fosse,isso daria conflitos interminäveis a nìvel universal e de que ninguèm ficaria a ganhar!

  5. Bruno. Muito boa a lista. Têm mais duas bibliografias que posso indicar sobre a mentira:

    AMADO, Janaína. O Grande mentiroso: tradição, veracidade e imaginação em história oral. In: Revista de História Universidade Estadual Paulista. Vol 14, São Paulo: UNESP, 1995.

    HEUER, Wolfang. A Síndrome Wilmorski. In: Estudos Iber-Americanos, Edição Especial, n. 2, p. 35-47, 2006

    HEUER, Wolfang. A Síndrome Wilmorski. In: Estudos Iber-Americanos, Edição Especial, n. 2, p. 35-47, 2006 (capítulo “verdade e política)

  6. Bruno. Muito boa a lista. Têm mais três bibliografias que posso indicar sobre a mentira:

    AMADO, Janaína. O Grande mentiroso: tradição, veracidade e imaginação em história oral. In: Revista de História Universidade Estadual Paulista. Vol 14, São Paulo: UNESP, 1995.

    HEUER, Wolfang. A Síndrome Wilmorski. In: Estudos Iber-Americanos, Edição Especial, n. 2, p. 35-47, 2006

    ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2013.(capítulo “verdade e política)

  7. As fake news são um dos maiores males do nosso tempo. Muito obrigado por listar essas obras e comenta-las, prof. Bruno.
    Sem dúvida, vão me ajudar muito.
    Abraço!

  8. As fake news fazem parte de um campo mais amplo de significados e práticas, as “manifestações do falseamento”, como categorizado em uma das referências, mas que assume uma forma específica nos dias de hoje. Considerar esse contexto é fundamental para que os fenômenos não percam sua particularidade histórica. Muito boa essa bibliografia comentada. Despertou em mim uma vontade enorme de ler todas essas referências. Valeu!

    • Exatamente, Heloisa. Essa história vai longe. Se tiver alguma referência legal sobre o tema, fique à vontade para compartilhar aqui. Abraço!

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