“Os raios e as sombras”: culpa, constrangimento e responsabilidade histórica

O problema se torna particularmente complexo quando o intervalo entre passado e presente é marcado pela morte dos próprios sujeitos envolvidos..
28 de agosto de 2026
Cena de Raios e Sombras. Foto: divulgação.

Lançado em 18 de março deste ano e dirigido por Xavier Giannoli, que também assina o roteiro, “Os Raios e as Sombras” (Les Rayons et les Ombres) chama a atenção pelo sucesso de crítica e bilheteira ao trazer para as telas a Paris dos primeiros meses da ocupação nazista, em maio de 1940.

Colaboracionismo, ambição e traição atravessam as trajetórias de Corinne Luchaire, vivida por Nastya Golubeva Carax, e de seu pai, o jornalista Jean Luchaire, interpretado por Jean Dujardin. Ambos os personagens permitem observar as ambiguidades de uma sociedade na qual a guerra e a ocupação da França não interromperam completamente a vida cotidiana, ao menos não aquela que constituía uma vida cultural e intelectual.

Com pouco mais de três horas de duração, o filme desperta sentimentos e sensações que, embora não sejam novos na experiência histórica, passaram a ser interrogados com maior profundidade no pós-Segunda Guerra Mundial e assumem particular urgência na contemporaneidade. Culpa, vergonha, constrangimento e responsabilidade histórica constituem questões que ultrapassam o acontecimento histórico em si e alcançam as formas pelas quais sociedades posteriores lidam com experiências de violência, colaboração e conivência. Num contexto marcado pela escalada do negacionismo, tais questões tornam-se ainda mais sensíveis quando associadas aos debates contemporâneos sobre memória, reparação, responsabilização por crimes de guerra e migrações forçadas.

São questões socialmente vivas, isto é, temas que não permanecem confinados ao passado, mas continuam produzindo disputas. A colaboração francesa durante a ocupação é um desses temas, uma vez que não diz respeito apenas àquilo que aconteceu entre 1940 e 1944, mas também às maneiras pelas quais indivíduos, grupos e sociedades posteriormente elaboraram (ou recusaram) responsabilidades diante daquele passado.

Talvez seja essa uma das dimensões mais incômodas do filme, a representação de uma ocupação que, para determinados segmentos da sociedade francesa, não significou a suspensão da vida cotidiana. A aparente normalidade, portanto, não se apresenta como ausência da guerra, mas como uma de suas experiências possíveis.

A esse respeito, a análise de Gilbert Joseph sobre a vida de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir na França ocupada é particularmente sugestiva. O historiador e romancista chama atenção para o fato de que ambos continuaram dedicando-se às suas carreiras literárias, às relações amorosas e à consolidação de suas credenciais intelectuais, desfrutando, em certa medida, de uma vida que não correspondia à imagem imediatamente associada à experiência de uma França sob ocupação. Então, caberia questionar as formas de normalidade produzidas em meio à violência e quais sujeitos podiam experimentá-las.

É nesse ponto que a culpa deixa de ser apenas uma experiência individual e adquire uma dimensão histórica. O desconforto provocado pela aparente normalidade da vida durante a ocupação não decorre somente daquilo que os personagens fizeram, mas também daquilo que sociedades posteriores fizeram e continuam a fazer com esse passado. Afinal, quando os protagonistas de uma experiência histórica já não estão vivos, quem pode assumir a responsabilidade por ela? E, mais difícil ainda, quem pode pedir perdão?

Retomando Robert R. Weyeneth, qualquer diálogo sobre reconciliação histórica envolve, em princípio, dois movimentos relacionados, mas não equivalentes: o pedido de desculpas e o perdão. De um lado, encontram-se indivíduos, instituições ou sociedades que, no presente, reconhecem-se como responsáveis, ainda que apenas de maneira temporalmente remota, por uma injustiça cometida no passado. De outro, encontram-se aqueles que sofreram essa injustiça e que, em alguma medida, poderiam responder a esse reconhecimento por meio do perdão.

O problema se torna particularmente complexo quando o intervalo entre passado e presente é marcado pela morte dos próprios sujeitos envolvidos. Podemos pedir desculpas pelos mortos e até mesmo aos mortos, mas definitivamente não podemos, entretanto, receber deles o perdão; então o que resta é a impossibilidade de uma reconciliação completa.

A reflexão de Weyeneth permite deslocar a pergunta suscitada pelo filme. Não se trata apenas de saber quem foram os colaboradores ou de estabelecer, retrospectivamente, uma escala de culpa entre aqueles que viveram sob a ocupação. Trata-se também de compreender como esse passado foi posteriormente transformado em objeto de responsabilização, memória e, eventualmente, reconciliação.

Les Rayons et les Ombres então promove um encontro passado e presente, pois não se limita apenas a uma representação da França ocupada, mas como uma obra produzida no presente que participa da contínua elaboração de uma experiência histórica ainda capaz de provocar constrangimentos, incômodos.

É justamente aí que a noção de tema sensível ganha força. O que torna a colaboração um tema sensível não é somente a violência de que ela participou, mas o fato de que ela continua a mobilizar julgamentos, silêncios, disputas de memória e diferentes formas de responsabilização.

Resta, portanto, aos vivos, o trabalho de elaborar esse passado, reconhecer suas violências e disputar os sentidos que ele assume no presente. Quanto a nós, historiadores, retomo Durval de Albuquerque Junior, quando compreende que “a História é uma forma de luto. A historiografia tem uma relação direta com a morte e com o luto. Somos profissionais do luto, fazemos o luto social, coletivo e tentamos dar aos corpos uma nova presença, uma nova função. Os mortos vêm, mas não como foram, mas como queremos; precisamos que eles venham, como o presente precisa que eles voltem”.

Helena Ragusa

Helena Ragusa

Professora Colaboradora do Curso de Graduação História na empresa UEL - Universidade Estadual de Londrina na Disciplina de Didática da História. Doutora em História, na linha de História Política pela Universidade Estadual de Maringá (2022), Mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina (2012). É autora do livro "Os cristãos-novos no Brasil colonial e a Escrita nos livros didáticos: uma história a ser contada" (EDUEL, 2019). Fez Pós-Doutorado em História Pública (02/2023 - /02/2025, Bolsa CAPES) na Universidade Estadual do Paraná, campus de Campo Mourão, tendo como tema de pesquisa estudos o Holocausto no âmbito da História Pública e Divulgação Científica. e-mail: [email protected].

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