O que dizem essas tintas vermelhas? As marcas de correção nos cadernos escolares 1
Exemplo de marca de correção: presença gráfica do professor no cotidiano da escrita escolar. Acervo da autora.

O que dizem essas tintas vermelhas? As marcas de correção nos cadernos escolares

Desenhos, mensagens de apoio ou de bronca. Os cadernos escolares, bem como as provas, sempre foram cheios de marcas de correção. Mas o que será que essas marcas dizem sobre o ofício de professor e a memória da educação escolar?
29 de julho de 2025
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O que significa aquela caneta vermelha usada pelo professor ou pela professora para corrigir uma prova ou caderno escolar? Foi essa pergunta que me moveu em 2006 em minha pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO. Meu objetivo nessa pesquisa foi analisar essas “marcas de correção” como práticas discursivas que integram a cultura escolar e constroem, de modo informal, uma memória coletiva do ofício docente.

A pesquisa partiu de um corpus com 45 cadernos escolares da 1ª fase do Ensino Fundamental, recolhidos em arquivos pessoais e familiares. Esses documentos foram descritos e classificados a partir de três categorias principais: marcas escritas (como “muito bem” ou “atenção!”), marcas gráficas (setas, traços, sublinhados, “x” e “✓”) e marcas imagéticas (rostinhos sorridentes, estrelinhas, desenhos improvisados). Mais do que instrumentos de avaliação, essas marcas revelam sentidos simbólicos sobre ensino, erro, autoridade, afeto e aprendizagem.

Entre 1951 e 2003, centenas de cadernos escolares passaram pelas mãos de professores e alunos nas primeiras séries do Ensino Fundamental. Neles, além de exercícios e desenhos, inscrevem-se também marcas silenciosas – anotações, correções, elogios, sinais gráficos – que atravessam décadas com notável persistência.

A prática da correção

Ainda que não exista legislação ou diretriz pedagógica que estabeleça como um professor deve corrigir o caderno de um aluno, a prática da correção é transmitida com surpreendente regularidade entre gerações. Em geral, aprende-se a corrigir observando colegas mais experientes, revisitando os próprios cadernos da infância ou atuando por imitação tácita. Isso sugere que a correção é sustentada não apenas por critérios técnicos, mas por uma memória social do fazer docente – uma herança simbólica que atravessa o tempo, mesmo sem ter sido formalmente ensinada.

marcas de correção - tabela com dados de documentos usados.

Material utilizado na pesquisa – distribuição por ano e série.

Inspirado nos estudos de Maurice Halbwachs e Michel Pêcheux, entendo que a correção como uma prática discursiva enraizada na memória institucional da escola. Pêcheux propõe um olhar para além da materialidade dos enunciados e explica que, por meio de associações implícitas nos mesmos, se pode perceber que não há neutralidade no uso da linguagem. A proposta pêcheuniana de um olhar “além da opacidade do enunciado” contribuiu para se pensar que essas representações em cadernos escolares não são ingênuas nem arbitrárias e pertencem a um universo discursivo próprio ao contexto no qual ocorrem.

Os sentidos dessas marcas ultrapassam a função de registrar acertos e erros: elas produzem discursos sobre o que se valoriza, se silencia ou se reforça no processo educativo. Ao mesmo tempo, operam como uma forma de presença do professor, marcada por afetos, julgamentos e expectativas. O “muito bom!” manuscrito, a estrela desenhada à mão, o sinal vermelho que chama atenção – todos funcionam como marcas de autoridade, vínculo e avaliação.

Retomando Michel Foucault, compreendo essas marcas também como instrumentos de vigilância e normalização dos corpos e saberes no ambiente escolar. Ao registrar continuamente o desempenho do aluno, a correção cumpre uma função disciplinar: ela individualiza, classifica, torna comparável, regula condutas e reforça padrões. A escola, nesse sentido, atua como uma instituição de controle – e o caderno corrigido, como um suporte dessa rede de micropoderes. As marcas, embora sutis, participam da construção de subjetividades escolares.

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Alguns exemplos encontrados no corpus analisado são ilustrativos: um “parabéns, continue assim!” sublinhado em vermelho; um rostinho feliz ao lado de uma redação caprichada; uma seta apontando um erro com a palavra “atenção” e uma sugestão de reescrita. São elementos gráficos simples, mas que constroem um campo de significados. Eles reforçam valores como esforço, ordem, obediência, capricho e revelam expectativas normativas que a escola mobiliza para constituir sujeitos.

Marcas que não são discutidas

Curiosamente, essas práticas não costumam ser discutidas de forma sistemática nos cursos de formação docente. A correção é um campo de saber pouco tematizado, mas largamente praticado. Isso contribui para sua naturalização e para o silenciamento de suas dimensões simbólicas e disciplinares. Ainda assim, ela permanece como uma das ações pedagógicas mais constantes na rotina da sala de aula.

O caderno escolar, assim, emerge como documento e monumento. Documento porque registra, dia a dia, os modos de ensinar e aprender em contextos específicos; e monumento porque, ao ser guardado por décadas, torna-se portador de uma memória afetiva e social da escola. Essa dupla função aproxima o caderno de um “lugar de memória”, para usar o termo do historiador francês Pierre Nora, no qual se inscreve não apenas o conhecimento escolar, mas também valores, vínculos e formas de reconhecimento.

Em tempos de digitalização acelerada e de uso intensivo de plataformas virtuais, as marcas manuais de correção assumem um valor ainda mais simbólico. Elas nos lembram que a história da escola também se escreve nas margens das folhas pautadas, nos elogios manuscritos, nos desenhos de estrelas vermelhas, nas correções que atravessam gerações sem jamais terem sido ensinadas em manuais ou planejamentos formais. Reconhecer o valor desses documentos é reconhecer que a cultura escolar se transmite, também, por práticas orais e gráficas silenciosas, enraizadas na experiência coletiva da sala de aula.

Mesmo passados quase 20 anos, acredito que minha pesquisa reafirma a importância de olhar para o que parece banal: a caligrafia do professor, o sinal que marca o erro, o elogio desenhado no canto da página. Ao investigar essas marcas, acessamos não apenas a memória dos alunos, mas a própria memória da instituição escolar, em sua materialidade e em seus discursos. Uma história que, mesmo sem grandes marcos, deixa rastros profundos na história da escola.

Referências

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice Editora, 1990.

NORA, Pierre et al. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 10, 1993.

PÊCHEUX, Michel. O discurso. Campinas: Pontes, 2002.

Como citar este artigo

LOPES, Isa Cristina da Rocha. O que dizem essas tintas vermelhas? As marcas de correção nos cadernos escolares. (artigo). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/marcas-de-correcao-cadernos-escolares/. ISSN: 2674-5917. Publicado em: 29 de julho de 2025.

Isa Lopes

Isa Lopes

Sou pedagoga, professora e mãe de 3 jovens adultos. Tenho uma trajetória profissional bem-sucedida em educação que pode ser dividida entre 20 anos de docência em escolas e universidades e outros 20 dedicados a projetos sociais como especialista em educação no terceiro setor. Sigo em minha missão de transformar vidas por meio da educação e muito inspirada por Paulo Freire: “a educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas e as pessoas transformam o mundo”.

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