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Professor desenvolve pesquisa sobre os usos de podcasts em aulas de história

Professor Raone Ferreira de Souza aponta as possibilidades da utilização de podcasts nas aulas de História.

Podcast permite a dinamização do ensino de história em sala de aula. Foto: @CreateHERStock, Nappy.

Mídias digitais e sala de aula parecem um macth problemático, certo? Mas saiba que não precisa ser assim. Apesar dos desafios desta conexão, as duas coisas podem funcionar e bem, conforme aponta o professor Raone Ferreira de Souza, em seu trabalho final para o Mestrado Profissional em História, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, intitulado “Usos e possibilidades do podcast no Ensino de História”.

Souza estudou o uso dos podcasts em sala de aula. Podcasts são mídias de áudio, parecidos com programas de rádio, transmitidas na internet, de variada duração, gravados (não ao vivo), produzidas a baixo custo e disponibilizadas em agregadores digitais, como o Spotify. Diferente do rádio tradicional e da televisão, como aponta o professor, os podcasts não dependem da programação da indústria da mídia ou de um público massivo – qualquer pessoa pode produzir um podcast.

Produzindo podcasts em sala de aula

Na dissertação, Souza propõe que os professores montem oficinas de produção de podcasts com os seus alunos. Pode parecer algo difícil, mas não é. Em primeiro lugar, o professor de história deve escolher o assunto que será abordado no episódio. Mas não pode ser um assunto qualquer. É preciso estabelecer critérios, e para isso, nada melhor do que ter como base os conteúdos do currículo oficial da disciplina. Mas como nem tudo cabe no currículo, o professor também pode escolher temas que sejam importantes para os estudantes, temas que estejam presentes em suas vidas cotidianas.

A participação dos alunos, a propósito, é um item fundamentam da oficina, de acordo com o trabalho. Para Souza, é muito importante que os alunos possam escolher o tema do podcast e participar de todas as etapas de produção, desde os rascunhos das ideias iniciais, até a gravação e divulgação do episódio. O professor afirma que a construção coletiva, que envolve a contribuição tanto de estudantes quanto dos professores, é essencial para que a aula valorize os conhecimentos, e mesmo as dúvidas.

Ainda como parte do processo criativo, Souza sugere que sejam realizadas atividades com questões discursivas para que os estudantes possam expressar seus conhecimentos sobre o tema a ser abordado. A partir da avaliação do professor sobre as respostas dos estudantes, é possível que se realizem aulas expositivas, debates e fóruns de dúvidas sobre o assunto. Depois desse aprofundamento sobre o tema, vem a construção em si do episódio do podcast. Essa etapa também não tem nada de difícil.

Para esta etapa, o professor indica que os estudantes trabalhem em grupos nas tarefas em que se sintam mais identificados. Os estudantes que possuem mais familiaridade com as artes visuais, podem preparar o cartaz de divulgação do episódio. Já os estudantes mais comunicativos, podem apresentar o podcast. Dessa forma, cada pessoa contribui com suas habilidades e, ao mesmo tempo, ampliam seus conhecimentos. Ou seja, tudo é um trabalho coletivo – a turma é vista como equipe de produção.

Ao pensar os desafios que os professores podem enfrentar para colocar em prática essa empreitada, como escassez de recursos materiais, ou mesmo a possível não familiaridade de professores com os aplicativos necessários, Souza elaborou, além da proposta de oficina, um material explicativo de como produzir podcasts. No material, uma espécie de tutorial, há dicas dos melhores aplicativos para serem utilizados no momento da gravação e da edição do áudio. Souza também explica como enviar o podcast para os agregadores digitais e, assim, disponibilizá-los ao público. A maior parte dos processos pode ser realizada apenas com um telefone celular.

Direitos Humanos

A questão do tema a ser abordado varia de acordo com a autonomia do professor, a relação dos estudantes com os conteúdos abordados e as particularidades de cada turma. Souza indica, contudo, alguns temas importantes. Um deles, o tema dos Direitos Humanos. De acordo com o professor, essa escolha contribui para favorecer nos estudantes a construção do pensamento crítico, bem como o exercício da cidadania. E Souza diz isso a partir de uma experiência concreta: ele foi produtor do podcast Sobre História Podcast”, criado por ele e colegas que integravam a turma de 2014 do ProfHistória da UERJ e da UFRJ. O Sobre História produziu vários episódios dentro do universo dos Direitos Humanos.

Segundo o autor, ao tratar dos Direitos Humanos em podcast, os professores fortalecem a sala de aula enquanto um “espaço de convergência” entre a ciberdemocracia e o espaço escolar. Nesse sentido, as tecnologias digitais contribuem para a construção das relações de ensino e aprendizagem. Além disso, ele sublinha, o tema ajuda a aproximar estudantes de seus professores.

Sendo assim, a sala de aula não seria apenas o espaço de reprodução de conhecimentos oriundos das Universidades e demais instituições, mas a sala de aula aparece como espaço de construção de conhecimento, debates e proposições sobre questões da atualidade – professores e alunos são produtores de algo inédito.

A teoria por trás da prática

De acordocom Souza, a internet modificou não apenas as interações entre as pessoas, mas a maneira como produzimos e consumimos conteúdos. Essa transformação tem a ver com o conceito de “Web 2.0”, cunhado por Tim O’Reilly, em 2004, para se referir a uma importante transformação no meio online: se antes os internautas eram apenas consumidores dos meios de comunicação, como jornais, revistas, televisão e rádio, a internet possibilitou que muitos desses consumidores se tornassem também produtores de conteúdo. Um professor, por exemplo, mesmo sem trabalhar em uma grande empresa de comunicação, pode produzir conteúdos educacionais e alcançar milhares de pessoas.

Esse fenômeno, no qual “pessoas comuns” se tornam produtoras de conteúdo na internet é chamado por alguns autores de ciberdemocracia. Em sua dissertação, Souza trabalha com dois desses autores: o canadense Pierre Lévy e o brasileiro André Lemos. Para ambos, na Ciberdemocracia ocorre a “comunicação pós-massiva”, ou seja, aquela comunicação onde não há uma relação unilateral que defina o produtor do conteúdo e o consumidor. Na Ciberdemocracia, todas as pessoas poderiam ser produtoras e consumidoras de informação, ao mesmo tempo. 

Como citar esta matéria

MARQUES, Thais Pio. Professor desenvolve pesquisa sobre os usos de podcasts em aulas de história. In: Café História. Publicado em 18 nov. de 2021. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/o-uso-de-podcasts-em-sala-de-aula/. ISSN: 2674-5917.

Thaís Pio Marques

Faz parte da equipe do Café História, onde realiza estágio voluntário. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante a graduação fez parte do Grupo PET Conexões de Saberes – Licenciaturas, voltado para a elaboração e desenvolvimento de Projetos pedagógicos interdisciplinares. Atualmente, organiza o perfil de Instagram “Poesia e oralidade”, onde compartilha textos breves sobre competições de poesia (slams) e seus participantes. O trabalho na rede social é
articulado aos estudos sobre História Oral e História Pública.

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