Oswaldo Cruz examina microscópio em laboratório de Manguinhos, observado por seu filho Bento Oswaldo Cruz e por Burle de Figueiredo
Artigo

Oswaldo Cruz contra as epidemias: saúde pública e questão social no início da República

“Grande parte das demolições ocorridas na cidade foi uma exigência da Prefeitura do Rio de Janeiro, outra importante força de transformação sanitária da cidade. Na época, estava em curso um grande processo de urbanização da capital conduzido pelo então prefeito Pereira Passos. As “picaretas regeneradoras” de Passos, expressão cunhada pelo escritor Olavo Bilac, deveriam expurgar, principalmente das áreas centrais, o que restava das construções coloniais. Centenas de famílias foram afetadas por esse projeto de remodelação urbana. Foi neste momento, por exemplo, que vários candomblés estabelecidos no centro da cidade foram obrigados a se transferir para os subúrbios.Mais de duas mil habitações e prédios comerciais vieram abaixo, sendo os seus habitantes mais pobres despejados sem destino e endereço pré-estabelecidos. O propósito não foi apenas estético e nem simplesmente em prol das condições de higiene; foi também econômico, pois era preciso facilitar o tráfego de mercadorias no entorno do porto, na Praça Mauá. De acordo com o historiador Nicolau Sevcenko,’“O antigo cais não permitia que atracassem os navios de maior calado que predominavam então, obrigando a um sistema lento e dispendioso de transbordo. As ruelas estreitas, recurvas e em declive, típicas de uma cidade colonial, dificultavam a conexão entre o terminal portuário, os troncos ferroviários e a rede de armazéns e estabelecimentos do comércio de atacado e varejo da cidade. As áreas pantanosas faziam da febre tifoide, impaludismo, varíola e febre amarela, endemias inextirpáveis'”.

A invisibilidade dos arquivos femininos: entrevista com Luciana Heymann 1
Entrevista

A invisibilidade dos arquivos femininos: entrevista com Luciana Heymann

“O menor número de arquivos de mulheres nas instituições de memória reflete a desigualdade de oportunidades que tem marcado a sociedade brasileira, responsável por reservar mais e melhores lugares para os homens (e aqui não estou me detendo na enorme desigualdade que atinge negros e negras, fazendo com que a representatividade das mulheres negras seja infinitamente menor do que a das mulheres brancas). Embora haja sinais de que essa situação está mudando, o número de mulheres em cargos políticos ou na liderança de grupos de pesquisa, ao menos nas ciências biomédicas, segue sendo bem menor, o que explica que homens sejam franca maioria como titulares de arquivos em instituições o Arquivo Nacional e a Casa de Oswaldo Cruz. Até as instituições voltadas para o campo literário, onde poderíamos imaginar uma situação mais paritária, a presença masculina é bem mais expressiva (basta consultar o Guia de Acervo do Arquivo Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa). Essa baixa representatividade também espelha as políticas de aquisição de acervo nas instituições, que naturalmente priorizam titulares que tiveram atuação destacada nos seus respectivos campos de atuação. A desatenção com relação a essa situação, porém, colabora para a reprodução da invisibilidade das mulheres. Se pensarmos que tais espaços estão inseridos nas dinâmicas de poder, produzindo hierarquias e definido condições de acesso às fontes históricas, fica claro que é preciso assumir uma postura crítica com relação à disparidade entre homens e mulheres nos acervos institucionais. ”