Amazônia em cartaz: um encontro entre o cinema e a floresta amazônica

Há dez anos custodiado no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, o arquivo do documentarista e historiador inglês nascido na China, John Adrian Cowell, é considerado o maior acervo de filmes sobre a Amazônia brasileira.

Por Cristiane d’Avila

No documentário “Nas cinzas da floresta” (1984), de Adrian Cowell, o agrônomo, escritor, filósofo, paisagista e ambientalista brasileiro, José Antonio Lutzemberger, diz para a câmera: “O que se pode observar aqui é um dos maiores absurdos que se comete em nome do progresso. Fazer criação de gado na mata amazônica é uma das coisas mais estúpidas. Significa a destruição irreversível, a perda de preciosas culturas indígenas. A produção de carne em uma pecuária extensiva como essa é extremamente baixa”.

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Stella Oswaldo Cruz Penido, Adrian Cowell e o cinegrafista Vicente Rios em Belo Horizonte, 2009. Foto: COC/FIOCRUZ

Em momento de intensos debates sobre o aumento da exploração da floresta amazônica   e os limites de sua ocupação, um acervo sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (DAD/COC/Fiocruz) tem muito a contribuir com abordagens sobre as inúmeras faces desse tema. Há dez anos custodiado pela Casa, o arquivo do documentarista e historiador inglês nascido na China, John Adrian Cowell (1934-2011), é considerado, até hoje, o maior acervo de filmes cinematográficos sobre a Amazônia brasileira. Mas o que tem esse acervo de especial? É o que veremos a seguir.

A floresta amazônica em vídeo

Cowell documentou em vídeo a floresta amazônica no Brasil, Peru e Bolívia por 50 anos, a partir de 1957. Sua obra registrou a maior incineração de matéria orgânica feita pelo homem no mundo – as queimadas –, em largas extensões da mata, principalmente em Rondônia. No Brasil, seus documentários também tiveram como temas a sobrevivência de grupos indígenas na região do Xingu, as expedições de contato com tribos isoladas empreendidas pelos irmãos Villas Bôas e a luta do ambientalista Chico Mendes para preservar as áreas da floresta habitadas por seringueiros e criar as reservas extrativistas (Resex).

O arquivo de Cowell contém três mil latas de filmes 16 mm, fitas de vídeo e slides sobre a Amazônia. Os filmes estão organizados em sete séries: “A Destruição do Índio”; “Cultos do Sertão”; “Últimos Exploradores”; “A Década da Destruição”; “Os Últimos Isolados”; “O Legado de Chico Mendes” e o “O Destino do Coronel Fowcett”. Cada série é composta por diversos filmes-documentários.

Em 2007, Cowell doou seu acervo para o Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (IGPA/PUC-GO), sua produtora associada no Brasil a partir de 1980, e um acordo de cooperação permitiu à Fiocruz a reprodução do acervo, para consulta, divulgação e uso para produções próprias.

Cena do documentário “nas cinzas da Floresta” de John Adrian Cowell. Fonte: Base Search COC Fiocruz. Floresta amazônica em destaque.
Cena do documentário “nas cinzas da Floresta” de John Adrian Cowell. Fonte: Base Arch.

“Os filmes de Cowell foram produzidos pela Central Television da Inglaterra e veiculados por canais britânicos. Aqui no Brasil foram exibidos em mostras e seminários temáticos”,1 explica Stella Oswaldo Cruz Penido, historiadora da COC responsável pelo projeto “Histórias da Amazônia – 50 Anos de Memória Audiovisual”.2 A iniciativa possibilitou a organização e transferência do acervo de Londres para o Brasil, em 2008. Stella coordenou os trabalhos de organização, transporte, tratamento arquivístico e telecinagem (processo de passagem da película cinematográfica para vídeo) do acervo fílmico. 

“A Década da Destruição”

O desmatamento para a agricultura, construção de estradas e hidrelétricas, pecuária extensiva e mineração foram temas da mais extensa das séries de Cowell, “A Década da Destruição”. Com duas versões para televisão (1984 e 1990), a série foi filmada ininterruptamente por ele e pelo cinegrafista brasileiro Vicente Rios, em Rondônia e Manaus, de janeiro de 1980 a setembro de 1990.

“Adrian compreendeu que a Amazônia vivia um momento totalmente diferente. O governo e a sociedade estavam ocupando a floresta numa obsessão desenfreada, com migrações em massa”, conta Stella, que trabalhou diretamente com Cowell desde a doação do material até a morte do documentarista.

O foco inicial da série, segundo Cowell em depoimento para o projeto “Histórias da Amazônia”, era o território dos índios Uru Eu Wau Wau. No início da década de 1980, a área estava sendo invadida por colonos que recebiam do Incra, gratuitamente, lotes de 500 hectares para agricultura. Em 1982 um empréstimo do Banco Mundial para o Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil (Polonoroeste) promoveu a destruição parcial da floresta no oeste da Amazônia, em Rondônia, e acabou por se converter em questão internacional após denúncia de José Lutzemberger, considerado um precursor do ambientalismo no país.

“Há 50 anos era inconcebível que a humanidade pudesse ameaçar a floresta. Referia-se à Amazônia como “o inferno verde” e era vista como uma enorme força elementar da natureza que, por puro capricho, matava ou poupava os homens que ousavam penetrá-la”, diz Cowell no texto de abertura do catálogo da mostra de filmes “A Amazônia segundo Adrian Cowell”, exibida em 2008 na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e em espaços culturais de Xapuri e Rio Branco, no Acre.

O cinegrafista conta que quando chegou ao Brasil, embora o presidente Juscelino Kubitschek estivesse iniciando a construção de Brasília e começando a abrir a Amazônia por terra através de estradas como a Belém-Brasília e a BR-364 para Porto Velho (RO), não se previa que a Amazônia pudesse chegar a correr tamanho risco. “Parecia inconcebível que fosse preciso proteção da polícia ambiental em helicópteros ou mesmo que precisasse de um Fundo Amazônia3 para dar incentivos e impedir que a floresta fosse derrubada”. 4

Chico Mendes defende a floresta amazônica, em Tucuruí, em documentário de Cowel. Fonte: Base Search COC Fiocruz.
Chico Mendes defende a floresta amazônica, em Tucuruí, em documentário de Cowel. Fonte: Base Search COC Fiocruz.

Dentre muitos temas, os nove filmes de “A Década da Destruição” abordam a colonização e o desmatamento de Rondônia a partir da pavimentação da estrada BR-364 pelo programa Polonoroeste, enfatizando a campanha dos ambientalistas contra o Banco Mundial. Incluem também os projetos “Carajás” e “Tucuruí” e a exploração da floresta pelos garimpeiros.

Já a trajetória de Chico Mendes, de quem Cowell se tornou amigo pessoal, ganhou notoriedade nacional e internacional a partir do filme sobre sua luta pela preservação da floresta e o movimento em defesa dos seringueiros. Chico Mendes, no entanto, foi assassinado em 1988, antes da conclusão das filmagens.

Pelo trabalho, Cowell, Vicente Rios e Stella O. C. Penido foram agraciados em 2007 com o prêmio Chico Mendes de Meio Ambiente na categoria Arte e Cultura.

Resistências e temporalidades

A relevância da obra cinematográfica de Adrian Cowell sobre a Amazônia foi tema de inúmeros trabalhos, entre eles a recente tese de doutorado de Gustavo Cepolini Ferreira, defendida em 2018 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP)5. Considerada pelo autor instrumento de pesquisa, linguagem, denúncia e recurso político-pedagógico, “A década da destruição” é também atemporal.

Segundo Ferreira, Cowell registrou uma luta de resistências e territorialidades e de constante grilagem de terras públicas, na Amazônia e em outras regiões do país, sugerindo os conflitos agrários como contradições próprias da formação da sociedade capitalista brasileira: “(…) na Amazônia Legal, 35% das terras são públicas. E, desde 1972, essa região contabiliza o maior número de conflitos e assassinatos no campo. Por isso, não é redundante denominar muitos desses processos de agrobanditismo, os quais estão engendrados em diferentes políticas públicas territoriais para assegurar a propriedade da terra no país e a ampla aliança terra-capital e meio ambiente”.6

De acordo com o pesquisador, os registros cinematográficos de Cowell apresentam as nuances de um processo cujas marcas estão materializadas no desmatamento e, sobretudo, nas lutas de indígenas, camponeses e seringueiros. Trata-se de uma rotina de expulsões, apropriações e violências decorrentes dos interesses dos empreendimentos do capital. “Há uma anulação da cidadania que se respalda no clientelismo, na dominação patrimonial do oligarquismo. No Brasil, o atraso é um instrumento de poder”7.

Como mesmo afirmou Cowell, em 1950, quando chegou ao Brasil, parecia inconcebível que a Amazônia pudesse correr tanto risco. O olhar do cinegrafista para o processo civilizatório elucida o furor do capital e lança desafios ao presente e futuro. “Seus documentários contribuirão imensamente para o debate político e cultural que envolve a Amazônia e trará à luz novos aspectos de sua história recente”, destaca Stella O. C. Penido.  

Para saber mais sobre o percurso de Adrian Cowell no Brasil, clique aqui. Epara saber mais sobre a série “A Década da Destruição”, clique aqui.

Notas

[1] Mostras de filmes de Adrian Cowell já realizadas no Brasil: “Amazônia segundo Adrian Cowell” (Rio de Janeiro, 2008; CCBB-DF; Xapuri e Rio Branco); “ForumDoc.BH.2009: 13º Festival do Filme Documentário e Etnográfico” (Belo Horizonte, 2009); “Mostra Amazônica do Filme Etnográfico” (Manaus, 2009); “Mostra Amazônia 50: Meio Século do Cinema Documental de Adrian Cowell” (São Paulo, 2012); “Adrian Cowell – Um olhar sobre a Amazônia” (Fiocruz Amazônia, Manaus, 2019).

[2] A entrevista foi dada a autora do artigo.

[3] Fundo Amazônia: www.fundoamazonia.gov.br

[4] CASA DE OSWALDO CRUZ. FIOCRUZ. Comentários de Adrian Cowell sobre seu acervo de filmes da Amazônia no catálogo da mostra de filmes “Amazônia segundo Adrian Cowell”. Rio de Janeiro, RJ, 2008.

[5] FERREIRA, Gustavo Henrique Cepolini. A obra cinematográfica de Adrian Cowell: legado de resistências e territorialidades para a Amazônia. 2018. Tese (Doutorado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. Doi:10.11606/T.8.2019.tde-18012019-145512. Acesso em: 2019-06-25.

[6] FERREIRA, 2018, p.113.

[7] FERREIRA, 2018, p.103.

Referências Bibliográficas

CASA DE OSWALDO CRUZ. FIOCRUZ. Comentários de Adrian Cowell sobre seu acervo de filmes da Amazônia no catálogo da mostra de filmes “Amazônia segundo Adrian Cowell”. Rio de Janeiro, RJ, 2008.

FERREIRA, Gustavo Henrique Cepolini. A obra cinematográfica de Adrian Cowell: legado de resistências e territorialidades para a Amazônia. 2018. Tese (Doutorado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. Doi:10.11606/T.8.2019.tde-18012019-145512.

Cristiane d’Avila é jornalista, doutora em Letras pela PUC-Rio, Tecnologista em Saúde Pública da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), onde atua no Departamento de Arquivo e Documentação. Mestre em Comunicação Social e Especialista em Comunicação e Imagem pela PUC-Rio. É organizadora do livro “Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias”, publicado pela Funarte em 2013, e autora do livro “João do Rio a caminho da Atlântida”, publicado em 2015 com apoio da Faperj. Colabora mensalmente com o Café História com textos sobre História da Ciência e da Saúde.

Como citar esse artigo

D’AVILA, Cristiane. Amazônia em cartaz: um olhar sobre o maior acervo cinematográfico sobre a floresta amazônica (Artigo). In: Café História – história feita com cliques. Publicado em 8 de julho de 2019. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/amazonia-e-floresta-amazonica-em-cartaz/


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