Calcula-se que seis milhões de judeus morreram no Holocausto. Muitos outros milhões foram vítimas que sobreviveram, após encarceramento e trabalhos forçados. Centenas, talvez milhares, destas histórias já foram contadas pelo cinema, mas ainda há muitas mais que merecem – devem! – ser contadas. Isso justifica o sucesso de contas no X (antigo Twitter) como @AuschwitzMuseum, que visam educar para não voltar a acontecer. Mas o cinema segue sendo o veículo de massa que mais pode educar sobre o Holocausto. Por isso, um filme como “Stella: Vítima e Culpada” cai como uma bomba ao apresentar uma narrativa verídica que parece mentira.
É agosto de 1940 e a vida parece seguir normalmente para a cantora de jazz Stella (Paula Beer). Mas só parece: seus pais estão tensos, em busca de um visto para sair da Alemanha, e em sua banda há um músico cujo pai está preso. Ela e a banda fazem shows de sucesso e sonham com a Broadway. Ainda há esperança.

Corta para fevereiro de 1943. Com um macacão identificando-as como “judias”, Stella e sua mãe trabalham numa fábrica. Todos os seus amigos andam com a mesma estrela amarela costurada no casaco, mas juntos riem e cantam. Ainda há esperança.
A esperança começa a se esvair quando o marido de Stella, Fred, que também trabalha na fábrica, é preso junto a uma multidão de trabalhadores. Stella e os pais precisam ficar escondidos e obter novas identidades. Ela se envolve com o contrabandista Rolf (Jannis Niewöhner) e começa a negociar identidades falsas. Até o dia em que é presa.
A cena do interrogatório é brutal, mesmo com os interrogadores chauvinistas mais interessados em saber por que Stella não usa sutiã do que tirar informações dela pela força e a tortura psicológica. Entre os agentes que lidam com Stella, dois que a acompanham são judeus colaboracionistas. Um deles é gentil, outro, raivoso. Apavorada com a possibilidade de ser mandada para Auschwitz, ela se torna um deles.
A ambiguidade de uma história real
A humanidade se encontra em um momento em que mais do que nunca é preciso contar histórias do Holocausto, porque o negacionismo vem espalhando suas sementes, os últimos sobreviventes estão morrendo e parecemos próximos de assistir a algo parecido com o que foi a Shoah. Ao mesmo tempo, o filme pode ser acusado pelos mais radicais de antissemitismo. Mas ele se justifica pelo título original: “Stella. Ein Leben.” É uma vida, uma única história que pode ter se repetido, mas em números muito menores que das vítimas que não arrastaram consigo outras vidas.
É durante um bombardeio que Stella, Rolf e o amigo Johnny invadem um apartamento e têm sua desforra, ao som do clássico “Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner. Outro momento marcante é quando Stella se sente observada por todos após armar uma armadilha para um homem que a ajudou em uma ocasião. Os cochichos e olhares são todos para ela.
A atriz Paula Beer, de apenas 30 anos, é uma estrela em ascensão desde que ganhou o Prêmio Marcello Mastroianni de melhor jovem artista no Festival de Veneza por “Frantz” (2016). Ela seguiu mostrando talento com dois filmes que caem na categoria “independente” e, por isso, talvez tenham sido vistos por menos pessoas do que mereciam: “Nunca Deixe de Lembrar” (2018) e “Undine” (2020).
Stella, desde o começo, não é uma personagem simpática. Em 1940, diz “chega de choradeira” para os que se preocupam com o futuro por serem judeus. Em 1943, deixa o marido e arranca sua estrela amarela da roupa para fingir ser ariana e se encontrar com um militar, embora sinta asco. Negação e colaboração são mecanismos que ela encontra para enfrentar a realidade, porque o instinto de sobrevivência falou mais alto.
Colocar-se no lugar de Stella é um exercício radical. E é isso que faz de “Stella: Vítima e Culpada” um filme difícil de ser visto e digerido, para além da violência gráfica. Cabe a cada espectador julgar e proferir sua sentença pessoal: o que Stella Goldschlag fez foi justificável?