Eles provavelmente estão nos livros de história favoritos dos seus filhos e povoam algumas das franquias mais famosas do cinema. Os piratas – e toda a cultura da pirataria — ocupam um lugar privilegiado no nosso imaginário sobre os mares e aventuras. Mas você sabia que, além de serem figuras lendárias da cultura pop, os piratas também despertam grande interesse entre historiadores?
Este é o caso de Denver Brunsman, professor associado de História na George Washington University (GWU), em Washington, D.C., nos Estados Unidos, que dedica parte de suas pesquisas a entender como a pirataria se relaciona com os processos históricos de expansão marítima, controle estatal e resistência.
Brunsman é especialista na história da Revolução Americana, do início da república e do mundo atlântico britânico, é autor do premiado livro The Evil Necessity: British Naval Impressment in the Eighteenth-Century Atlantic World, no qual analisa o alistamento forçado de marinheiros na marinha britânica como um problema político e social no século XVIII.
Brunsman também organizou coletâneas e escreveu diversos artigos sobre a construção da identidade política nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha nesse período. Reconhecido por sua excelência no ensino, Brunsman já recebeu o Prêmio Trachtenberg de Ensino e ministra cursos populares sobre a história dos Estados Unidos, incluindo um dedicado à trajetória de George Washington, oferecido anualmente na antiga residência do presidente, em Mount Vernon.
Nessa entrevista, dois pesquisadores brasileiros que trabalharam com Brusnsman na GWU, Daniel Gomes de Carvalho (USP) e Marcos Sorrilha (Unesp), conversam sobre a Revolução Americana, George Washington e a história da pirataria. Confira como foi esse papo.
Por que a pirataria pode ser compreendida como uma forma de resistência contra o crescente controle dos Estados sobre o comércio marítimo e o trabalho?
Na Era Moderna, à medida que os Estados europeus se formavam e expandiam, procuravam consolidar seu poder tanto em terra quanto no mar. Uma parte fundamental desse processo era estabelecer o controle sobre o comércio e os negócios. Os Estados alcançaram esse controle por meio de várias regulamentações (por exemplo, os Atos de Navegação na Inglaterra) e ao afirmar o monopólio da violência. Em outras palavras, exércitos vigilantes não mais atuariam sem oposição em terra, assim como o equivalente – a pirataria – não seria mais permitido no mar.
Sob essa perspectiva, a pirataria certamente significava uma forma de resistência ao controle estatal. Aqui precisamos distinguir entre piratas e corsários. Corsários podem ser entendidos como mercenários que operavam com a autorização do Estado para promover interesses oficiais; eles carregavam cartas de corso para indicar a aprovação estatal. Mas piratas que atuavam sem essa sanção estatal eram apenas isso – piratas – e passaram a ameaçar os interesses dos Estados, especialmente no final do século XVII e início do século XVIII.
Como os piratas desafiaram as potências imperiais nos séculos XVIII e XIX?
À medida que os Estados europeus se tornavam potências imperiais, dependiam cada vez mais do comércio ultramarino para encher seus cofres. Nessa situação, os piratas podiam causar grande destruição a diferentes impérios, operando no Caribe, no Mediterrâneo ou nos oceanos Atlântico e Índico. No século XVIII, o Império Britânico tornou-se particularmente dependente do comércio e, consequentemente, enfrentou as maiores ameaças dos piratas. No Caribe, isso levou a um período intenso de guerra contra a pirataria, aproximadamente de 1716 a 1726.

Notavelmente, essa época de guerra contra os piratas coincidiu, em geral, com um período de paz entre as potências imperiais europeias. A pirataria sempre se expandia em tempos de paz, pois muitos marinheiros recorriam à pirataria após servirem em navios de guerra descomissionados depois das guerras. Assim, havia uma lógica interna para a pirataria – ela adquiria uma qualidade previsível no ciclo de guerras da era moderna.
Mas, pela mesma razão, as potências europeias, especialmente os britânicos, não podiam permitir que a pirataria persistisse. Os Estados não guerreavam entre si para depois perder suas riquezas ultramarinas para atores não estatais, ou piratas. Após 1726, os piratas continuaram a atacar o comércio europeu, mas estavam muito enfraquecidos e já não rivalizavam com o poder das marinhas estatais no mar.
Você vê conexões entre a pirataria no Atlântico e os movimentos revolucionários do final do século XVIII e início do XIX, como a Revolução Americana, a Revolução Francesa e as lutas de independência na América Latina?
A conexão entre a pirataria no Atlântico e a Era das Revoluções Atlânticas é um tema fascinante. Acredito que ainda há muito a ser explorado sobre várias conexões – de indivíduos a ideias – entre pirataria e revolução. Tenho mais familiaridade com a Revolução Americana. Os britânicos condenavam frequentemente os colonos rebeldes americanos como “piratas”. Essa acusação tinha um fundo de verdade, já que os colonos não conseguiram criar uma marinha adequada, nos moldes europeus, a tempo para a Guerra de Independência. Em vez disso, dependiam fortemente de corsários e de oficiais navais, como John Paul Jones, que atacavam embarcações e portos britânicos como os antigos piratas faziam.
Significativamente, os conflitos no mar durante as várias revoluções atlânticas eram muito menos regulamentadas do que os combates em terra. Ao comandar as forças terrestres, líderes como George Washington, Toussaint Louverture e Simón Bolívar se preocupavam, em diferentes graus, em estabelecer a legitimidade de suas respectivas causas e novos Estados.
No século XVIII e início do XIX, tal legitimidade vinha, em grande parte, da formação de exércitos nos moldes europeus e do respeito às regras aceitas de guerra. Isso era bem menos comum no mar, onde as forças coloniais eram muito mais fracas e, por isso, recorriam a qualquer tática disponível. No mar, tanto potências europeias quanto forças insurgentes coloniais se envolviam em práticas indiscriminadas de captura e recrutamento forçado. Essas táticas, na tradição europeia, eram há muito consideradas atos de pirataria.
Como as experiências de marinheiros e piratas americanos — muitos dos quais foram recrutados à força para a Marinha Real — contribuíram para o desenvolvimento de uma identidade colonial distinta? Esse processo ajudou a fortalecer o sentimento antibritânico que culminou na Revolução Americana?
O Império Britânico impulsionou sua ascensão nos séculos XVII e XVIII por meio do trabalho forçado, mais notavelmente a escravidão, mas também através do alistamento forçado na Marinha Real. O recrutamento forçado afetava os marinheiros coloniais antes mesmo da Revolução Americana. Essa prática nunca foi popular e causou algumas das maiores revoltas contra o domínio imperial britânico antes da Crise do Selo, em meados da década de 1760.
Os estudiosos da Revolução Americana são, em geral, muito cautelosos em não atribuir a nenhuma política ou ação britânica isolada a causa principal da independência. Foi o acúmulo de diferentes atos britânicos, nas décadas de 1760 e 1770, que juntos ameaçaram a soberania americana e levaram à guerra, culminando na independência. Nesse sentido, os estudiosos da Revolução Americana diferem bastante dos historiadores da Guerra Civil Americana (1861-1865), para a qual há consenso acadêmico de que a causa foi única: a escravidão.
Feita essa ressalva, acredito que o recrutamento forçado ajudou a politizar e radicalizar os portos americanos nas décadas de 1760 e 1770. Marinheiros que enfrentavam o risco de serem capturados por quadrilhas de alistamento da Marinha Real tornaram-se alguns dos manifestantes mais constantes contra os britânicos.

No fim das contas, o recrutamento forçado virou um símbolo da tirania britânica. Ele está listado como a 26ª (de 27) queixa contra o rei George III na Declaração de Independência: “Ele constrangeu nossos concidadãos capturados nos mares a empunharem armas contra seu país, a se tornarem carrascos de seus amigos e irmãos ou a tombarem pelas próprias mãos.” Alguns panfletos e jornais revolucionários americanos até chamavam os britânicos de “piratas” ou “saqueadores”. Essa era uma forma astuta dos americanos reivindicarem a superioridade moral, mesmo quando eram eles os verdadeiros piratas, ao praticarem mais atos de pirataria no mar do que os britânicos.
Alguns historiadores, como Antoine Lilti, reinterpretaram a figura de George Washington, analisando-o não apenas como um líder devotado ao bem comum, mas também como uma celebridade do século XVIII. Quais são os desenvolvimentos mais recentes na historiografia sobre Washington? Por que ainda vale a pena estudá-lo hoje?
Desde sua morte em 1799, George Washington tem sido o tema mais popular de biógrafos americanos. Com o tempo, a grande maioria dessas pesquisas e escritos foi feita por historiadores não acadêmicos. Hoje, a tendência mais significativa na historiografia é uma explosão de estudos sobre Washington por historiadores acadêmicos. Esse crescimento nos estudos sobre Washington coincide aproximadamente com a abertura da Biblioteca Presidencial George Washington, em Mount Vernon, em 2013. Desde então, a biblioteca tem apoiado pesquisas acadêmicas sobre Washington e o período da fundação dos EUA.
Além disso, o interesse acadêmico pela escravidão naturalmente se estendeu a Washington, já que Mount Vernon possui alguns dos registros mais bem preservados de qualquer plantação colonial ou do início da era nacional. Algumas das principais obras sobre Washington e a escravidão incluem Never Caught, de Erica Armstrong Dunbar (2017); “The Only Unavoidable Subject of Regret”, de Mary Thompson (2019); e Washington at the Plow, de Bruce A. Ragsdale (2021).
À medida que os estudiosos se tornaram mais abertos a estudar Washington, descobriram que ele pode contribuir para uma série de outros temas importantes, incluindo sociedades indígenas no período de fundação dos EUA (The Indian World of George Washington, de Colin G. Calloway, 2018); gênero e masculinidade (First Among Men, de Maurizio Valsania, 2022); e mulheres no século XVIII (Women in George Washington’s World, editado por Charlene M. Boyer Lewis e George W. Boudreau, 2022).

The Evil Necessity: British Naval Impressment in the Eighteenth-Century Atlantic World, de Denver Brunsman – ainda sem tradução para o português.
O trabalho de Antoine Lilti sobre a invenção da celebridade na era moderna certamente faz parte dessa tendência. Em resumo, Washington teve tanta influência e deixou tantos registros que pode fornecer uma perspectiva útil para várias questões do século XVIII.
Junto a todos esses outros temas, não podemos ignorar a criação dos Estados Unidos. Enquanto os Estados Unidos continuarem a ser uma nação influente, acredito que haverá interesse em estudar George Washington. A razão é que os americanos ainda vivem na sociedade e com a estrutura de governo criados durante a era revolucionária, quando Washington era a figura mais significativa. Portanto, em um sentido muito real, conhecer Washington é conhecer a América. Tanto Washington quanto os Estados Unidos possuem qualidades admiráveis, lamentáveis e contraditórias o suficiente para manter os estudiosos ocupados por muito tempo.
Como citar essa entrevista
Como citar essa entrevista
BRUNSMAN, Denver. “Ainda há muito a ser explorado sobre as várias conexões entre pirataria e revolução” (Entrevista feita por Daniel Carvalho e Marcos Sorrilha). Tradução: Bruno Leal. In: Café História. Publicado em 7 de julho de 2025. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/pirataria-e-revolucao-denver-burnsman/. ISSN: 2674-5917.